MEMÓRIA

  
Adriana Marcolini


À procura de um longo passado judaico

Depois de reduzida de 3,5 milhões para apenas 5 mil, comunidade judaica volta a renascer na Polônia, levada pelas mudanças no país.

A sinagoga Nozyk, fundada em 1900, em Varsóvia, mescla o estilo neo-romanesco com elementos bizantinos.


No início da Segunda Guerra, em 1939, viviam, na Polônia, cerca de 3,5 milhões de judeus __ 380 mil só em Varsóvia, então a segunda maior comunidade judaica do mundo, atrás apenas de Nova York. No final do conflito, em 1945, restavam apenas 250 mil. Destes, muitos deixaram o país até os anos 70, levados pelo anti-semitismo e atraídos pela fundação do Estado de Israel, em 1948. O extermínio dos judeus poloneses nos campos de concentração nazistas e a emigração de milhares após a guerra representou para o país a perda de um importante segmento da sociedade. Os judeus deixaram na Polônia uma riquíssima herança histórica e cultural, construída desde o século XI, quando começaram a se estabelecer no país, fugindo das perseguições na Boêmia.

Hoje, a comunidade judaica é de cerca de 5 mil. Estima-se, porém, que este número seja maior, pois para muitos poloneses a origem judaica esteve oculta até hoje _ e só agora está sendo revelada. A novidade faz parte de uma das mais importantes mudanças ocorridas no país depois da queda do comunismo: o renascimento da cultura judaica.

De acordo com o presidente do Instituto Histórico Judaico da Polônia e tradutor de ídiche e hebraico, Michal Friedman, o atual interesse da sociedade polonesa pela cultura judaica é muito maior do que em outros países europeus. "Durante muitos anos, este assunto era um tabu", explica. Ele conta que todas as obras do escritor polonês de origem judaica Isaac Bashevis Singer (Nobel de 1978) foram publicadas com sucesso no país. O romance "O marido de Nazareth", de Scholem Asch (1880-1957), outro escritor judeu polonês, foi publicado recentemente e já teve a edição esgotada. Segundo o tradutor, mais de 500 publicações sobre cultura judaica são editadas anualmente, entre elas vários jornais.

Friedman, que também leciona ídiche e hebraico no Teatro Judaico de Varsóvia, não acredita que a cultura judaica na Polônia recupere a efervescência do período anterior à guerra, pelo simples fato de que hoje a comunidade é muito pequena. No entanto, ressalva que o judaísmo no país está vivendo um renascimento, ao mesmo tempo em que o anti-semitismo enfraquece. "Muitos de meus alunos de ídiche e hebraico são jovens que começam a se interessar pela vida da comunidade", afirma. Além disso, explica, no último pleito, os partidos de tendência anti-semita (de extrema-direita) não foram eleitos.

Para ele, o renascimento da cultura judaica está ligado ao fim do regime comunista, que, em várias ocasiões, disseminou o anti-semitismo na sociedade _ como em 1968, quando conflitos internos do Partido Comunista (PC) resultaram numa campanha contra intelectuais, cientistas e estudantes, muitos de origem judaica. O movimento acabou levando pelo menos 20 mil judeus poloneses a optarem pela emigração.

Friedman também chama a atenção para a mudança de comportamento da Igreja Católica. "Esta instituição sempre alimentou uma certa antipatia em relação aos judeus e, especialmente na Polônia, onde o catolicismo tem raízes profundas, foi muito hábil em transmitir esta antipatia para a população", argumenta "Felizmente, esta situação vem mudando e temos até um Instituto de Diálogo Judaico-Católico, que organiza anualmente um encontro de padres e rabinos", conclui.

Várias iniciativas recentes comprovaram o renascimento da cultura judaica na Polônia. Em 1989, foi fundado em Varsóvia um jardim de infância para crianças judias. No início com apenas cinco alunos, hoje tem 40. Em 1993, uma escola primária também foi aberta na capital, com financiamento da Fundação Ronald S. Lauder, dos EUA. Oitenta crianças estão inscritas _ 12 das quais são de famílias não judias. Em ambas, o programas de ensino é comum ao das demais escolas _ com o crescimento de aulas de hebraico, artes manuais e religião.

Em Lublin, no leste, a Fundação Sara e Manfred Bass-Frenkel, estabelecida em 1988, restaurou o cemitério judeu da cidade, que tinha a terceira comunidade judaica da Polônia antes da guerra. A fundação também construiu um templo religioso, chamado "Câmara da Memória", e faz a manutenção do cemitério. Em Cracóvia, no sul, um festival de cultura judaica acontece todos os meses de junho.

O "Telefone de Confiança Judaico", lançado em 1996, tem sido um sucesso. Quase todos os dias os atendentes recebem ligações de pessoas que descobrem a própria origem judaica ou que, até então, se recusavam a admiti-la, e querem se aconselhar em relação ao que fazer. Segundo a revista polonesa Polytika, a maioria dos que telefonam são idosos, pois jovens têm menos problemas para lidar com a novidade. Muitos, curiosos, perguntam aonde podem pesquisar as origens da própria família.

Em Varsóvia, o local mais indicado para esta finalidade é o Instituto Histórico Judaico da Polônia. Fundada em 1947, a instituição tem um riquíssimo arquivo de documentos sobre os judeus no país, uma biblioteca e um museu _ este em fase de reestruturação. No arquivo, além dos documentos, há mais de 15 mil fotografias. Já a biblioteca contém a maior coleção de literatura judaica polonesa, com um acervo de 60 mil volumes disponíveis em vários idiomas. Há ainda gravuras e manuscritos, sendo que os mais antigos datam do século XVI. O acesso ao arquivo e à biblioteca do Instituto Histórico Judaico é livre. Pessoas de vários lugares do mundo realizam pesquisas no local.

A instituição fica nas proximidades do antigo Gueto de Varsóvia _ uma área de aproximadamente 307 hectares onde os nazistas, a partir de novembro de 1940, isolaram os judeus da capital, por meio de um muro de três metros de altura e de um eficiente sistema policial. Na primavera de 1941, o período do ápice populacional, cerca de 450 mil pessoas viviam confinadas no gueto. Praticamente todas morreram, deportadas para os campos de extermínio, ou de fome e de doenças no gueto superpovoado, onde não havia alimentação suficiente e nem moradias. A maior parte dos que sobreviveram até 1943 foi morta durante o movimento de resistência organizado por um grupo de moradores. Conhecida como Levante do Gueto de Varsóvia, a rebelião eclodiu a 19 de abril de 1943, e foi sufocada pelas tropas nazistas a 8 de maio. Apenas alguns conseguiram escapar, quase todos logo encontrados e fuzilados. Um dos líderes do levante o médico polonês Marek Ede vive até hoje em Lódz.

 

Enviado por Leon M. Mayer
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