Ano 9 - Semana 473

 




 

22 de abril, 2006
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Lynne Meredith Coh

           
ESTAMOS SATURADOS COM AS
RECORDAÇÕES DO HOLOCAUSTO?

 
Após Alicia Appelman German ter falado a 1500 alunos na Universidade de Denver, distribuiu seu livro autografado: Alicia, Minha estória. Em Denver, uma cidade que tem seu quinhão de pobreza e violência, o livro foi o primeiro para muitos.

Uma garota hispânica escreveu para German dizendo que toda noite lia um pedaço da estória para sua mãe que estava morrendo de câncer. Nos últimos meses de vida da mãe, a pequena confortou-se com as palavras da autora, pois ela pôde ver as relações que existiam nas trágicas estórias do Holocausto. A menina tinha perdido membros de sua família incluindo seu irmão em lutas de gangues. Para Dafna Michaelson, diretora do Instituto do Holocausto na Universidade de Denver, que providenciou a conferência, aquela estória tocou num nervo. Era o tipo de conexão, entre outras que procurava nas 70.000 pessoas que vêm, anualmente ao instituto, para ver algum tipo de apresentação sobre o Holocausto. O Instituto de Denver é um dos menores projetos sobre o Holocausto. Mas o impacto desses programas, apesar de pequeno pode ser profundo. Os testemunhos de historiadores e mais ainda dos sobreviventes das atrocidades do Holocausto deixa uma impressão indelével nas pessoas que escutam suas estórias. Há céticos que sugerem, talvez que os Estados Unidos alcançaram um ponto de saturação em termos de programas sobre o assunto, e embora debates sobre o grande e subsidiado Memorial Governamental do Holocausto em Washington (USHMM) não focalizasse o número dessas instituições, muitos críticos falaram mal quanto a localização, tamanho, desenho e até a conveniência de enfocar a estória da vitimização dos judeus. O colunista Richard Cohen da Washington Post escreveu que "moveria o Museu do Holocausto para Berlim, o lugar do crime, como um presente do povo americano".

Elie Wiesel, diretor da Comissão Presidencial sobre o Holocausto, a princípio acreditava que o museu no caminho turístico da capital banalizaria o Holocausto. Mesmo assim há outras vozes que insistem em não ser demais ter meios de educação às novas gerações, sobre o que aconteceu na Europa há mais de meio século. Mas desde a abertura do USHMM em 1993, pode se perguntar sobre a necessidade de outros lugares espalhados no país, tais como o recente Museu da Herança Judaica, um memorial vivo ao Holocausto em Nova York, um novo edifício em Richmond e um outro em Baltimore que algumas vezes tem servido aos grafiteiros e é o repouso favorito dos pombos. Quase todas as cidades grandes, incluindo Honolulu, Havaí, tem algum tipo de edifício para memorar o Holocausto. A revista da Associação de Organizações do Holocausto tem aproximadamente 140 museus, memoriais, programas que se preocupam e todo ano aparecem mais. Empregados destes órgãos acreditam que nunca é demais.

Quando por exemplo, você está em Colorado, a maioria não vai a Washington, a única oportunidade de aprender e ver será no órgão local. William L. Shulman, presidente da AOH concorda. Grupos escolares de Queens não vão a Washington, precisam de urna instituição local, porque existem museus de arte locais? Você pode usar o mesmo argumento. Cada lugar tem suas características. Um centro de pesquisas deve ser para estudantes, cidadãos e professores, explica Shulman. E o conceito de memorial tem "uma conotação diferente de uma estátua ou pedaço de terra", adiciona Shulman. Francamente, eu não tenho grande entusiasmo para isso, é uma perda de dinheiro. Estátua ou pedaços de terras, em uma ou duas décadas será um bom lugar para pombos, mas, centros e museus do Holocausto são muito importantes, dão uma fonte essencial a estudantes e professores que querem ensinar sobre o Holocausto e genocídio em geral. O que nos trás para outra questão. Deve um centro sobre o Holocausto ensinar sobre o genocídio em geral? E se assim for, isto minimiza a tragédia única que foi o Holocausto, o ato nazista de assassinar o judaísmo europeu?

Como diz Jonathan Rosen, editor cultural do Forward que escreveu no New York Tirnes: "O assassinato de seis rnilhões de judeus não é uma metáfora do sofrimento, humano. Não é metáfora de nada. Caso se torne uma metáfora não valerá de nada. O museu de Washington trata do genocídio, mas o não confunde com o Holocausto diz Lerman. É um ponto de referência. Fomos os primeiros a falar contra o genocídio, na antiga Iugoslávia, contra Ruanda, falamos contra os incêndios de casas de culto americano-africanos. Para protestar e falar contra, não significa misturar com o Holocausto. Você usa o Holocausto como ponto de referência, como um exemplo. Veja o que acontece quando pessoas de bem não se incomodam, olham e não fazem nada. "Mas misturar é errado".

Shulman diz que o Holocausto foi uma forma única de genocídio no século XX, a forma mais extremista usada para exterminar os judeus, mas também para mostrar a desumanização do homem para com o homem. Lerman esclarece que o Holocausto foi "a aniquilação do povo judeu gradual sistemática e ordenada pelo estado. Havia outras vítimas, poloneses, testemunhas de jeová, ciganos, homossexuais, mas eram vítimas da crueldade nazista. O Holocausto era um projeto designado e implementado pelo governo e o povo alemão para destruir o povo judeu''. E mesmo assim, apesar de esforços para sensibilizar o povo sobre as atrocidades únicas do Holocausto, muitos americanos não estão sendo educados no assunto. (Nota do tradutor - E muito menos aqui no Brasil)

Em Geórgia, por exemplo, não existe museu ou centro, do Holocausto subsidiado pelo governo (embora em Savannah recentemente tenha sido dedicado um memorial, em Atlanta tem um museu particular da Federação Judaica ). Ao invés disso, Geórgia criou a comissão sobre o Holocausto, uma agência de 15 pessoas que organiza programas de ensino sobre o Holocausto para todo o estado. Sylvia Wyjgoda , diretora da comissão diz: "escolhemos produzir materiais que ajudam os professores a ensinar sobre ódio, preconceito e as repercussões do racismo, porque isto é um legado. Wyjgoda, filha de um sobrevivente continua: Penso que o motivo para os monumentos é que as pessoas, nas mais diversas comunidades, necessitam um lugar para honrar seus mortos e lembrar o que aconteceu, a fim de ensinar suas famílias. Não tenho túmulo de minha família para visitar, de modo que quando visito o museu de Washington, vejo escrito no vidro o nome da vila de onde veio minha família, toco no vidro e isto é o máximo que tenho. Ninguém pode obrigar pessoas, ensinar ou aprender sobre o Holocausto. Mas pode se oferecer os instrumentos, ela diz. Usamos o Holocausto como um modelo para falar sobre outros genocídios".

Não acredito que nenhum estado patrocinará uma comissão do Holocausto somente para ensinar um evento na história, embora monumental. Esperançosamente usamos as lições do Holocausto para prevenir outras atrocidades. Memórias de injustiças com os negros são vivos para muitos georgianos e americanos do sul. A comissão do Holocausto reconhece que é um problema único especial e usa o Holocausto como forma de ensinar sobre racismo e seus resultados. A comissão tem trazido conferencistas afro-americanos como Leon Bass que cresceu no sul entre preconceitos e mais tarde ajudou a libertar em Buchenvald como soldado americano.

Wyjgoda diz: esperamos que as futuras gerações tenham melhor compreensão e apreciação das diferenças com outras pessoas. Isto é o que estamos tentando ensinar. Muitos professores (em escolas rurais) nunca ouviram falar sobre o Holocausto. Estamos tentando dar a esses meninos informações a fim de que suas mentes estejam preparadas quando encontrarem negadores do Holocausto.

Lerman sugere que é irrelevante saber quantos lugares existem neste país, mas sim saber se são bons. Para ele é uma questão de qualidade e não de quantidade. Toda comunidade tem uma biblioteca, há muitas ou poucas? Acredito que toda comunidade que sinta necessidade e esteja na posição de criar algum tipo de recordação, quer seja um pequeno centro na sinagoga, ou comunidade, deve fazê-lo. Lerman diz que o grandioso museu de Washington deve ser considerado como um endereço central para a recordação e a educação.

Em 1997, o museu da Herança Judaica, uma memória viva do Holocausto, abriu em Manhattan. Alguns de Washington questionaram a construção tão perto. O museu de New York, em Battery Park City, diretamente está em frente à estátua da liberdade e a ilha Ellis. Tem 3 andares. Um focaliza os anos do Holocausto 1933-1945 e os outros dois mostram a vida judaica antes e após. Desta forma difere do complexo de Washington. New York é a maior comunidade judaica do mundo e seria impróprio não ter um centro, diz Lerman. Fizeram no primeiro andar um mundo mostrando uma cultura inteira que foi destruída, a riqueza da comunidade judaica. Foi bom criá-la e aplaudo a iniciativa. New York não será concorrente com Washington. New York não tem o poder, força e profundidade de material. Cada museu tem um papel diferente e não competição entre si.

A proliferação nos Estados Unidos não banaliza o Holocausto, dizem todos. Aumenta isto sim, a preocupação e compreensão, mas também os que não são judeus freqüentam os museus e centros simplesmente porque são a maioria. Até abril de 1998 o USHMM recebeu 10 milhões de visitantes nos primeiros 5 anos, sendo 80% não judeus. Alem disso, mantém contacto com grupos escolares. Paul Hamburg, diretor executivo, do centro do Holocausto da Carolina do Norte, recebe pedidos de informação, auxilio e treinamento de professores que não pode atender. Isto é verdade em toda a comunidade. Recebe pedidos sobre a Lista de Schindler e outras informações, pois há uma grande preocupação da importância do Holocausto na história do século XX, e professores precisam de fonte para ensinar com integridade. E isto o centro faz, diz Hamburg. Nestes 18 anos forneceu acesso à biblioteca e arquivo, treinamento para professor, conferencistas e programas públicos.

Não há duvidas de que há necessidade de ensino sobre o Holocausto. Dafna Michaelson de Denver sugere que o aumento de centros e memoriais existe porque o tempo está passando e não haverá sobrevivente para contar sua estória. A esperança é que contando, a estória não se repetirá de novo. Mesmo assim, desde a Segunda guerra mundial, e mesmo nas últimas duas décadas genocídio, "guerra de classes " ou assassinato do povo tem tirado a vida de milhões de pessoas em lugares como a China, Sudão, Ruanda e Cambodja. O que se diz sobre isso na educação sobre o Holocausto?

"O fato de que o genocídio continua acontecendo é uma indicação de como vulnerável somos diante dessas forças, e não são sinais de inutilidade da educação sobre o Holocausto - diz Walter Reich, antigo diretor do USHMM". A civilização humana ainda não produziu uma vacina contra essas forças. O melhor e usarmos todos os meios que temos para entender o que os humanos são capazes de fazer.
 

Pesquisa:
1 - Escreva-nos sobre o artigo acima
2- As pessoas se cansam quando se fala sobre o Holocausto?
3- Na sua opinião porque no Brasil ainda não temos um centro memorial do Holocausto?
4- Por que se deve lembrar, comentar e memorizar o Holocausto?
5- Existe relação entre Holocausto e perseguição a negros, índios, homossexuais, nordestinos, estrangeiros, etc.?


Lynne Meredith Coh é jornalista e poetisa
Tradução de Jayme Gudel
Enviado por Leon M.Mayer
 


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Direção
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