MEMÓRIA

      
    Edda Bergmann
    Abrão Lowenthal

   
60 anos após a Noite de Cristal

    

Sessenta anos se passaram e muito poucas foram as reflexões de caráter político-histórico, religioso e humanitário.

A noite de Cristal, dos vidros quebrados, do incêndio das Sinagogas, da destruição dos lares e instalações comerciais judaicas, da matança indiscriminada, da perseguição desenfreada, das prisões arbitrárias, do ódio racial e religioso solto pelas ruas das cidades e povoados alemães, não atingiu apenas aos judeus alemães, mas açambarcou toda a Europa e o Judaísmo mundial.

É preciso situar o fato dentro de um contexto histórico e político e não ficar dizendo que tudo aconteceu porque os judeus alemães estavam assimilados e diziam ser alemães judeus. Esta grande inverdade não explica nem justifica, apenas divide e confunde.

Hoje nós somos brasileiros judeus e nada disso justificaria um genocídio.

Existiam na época somente 350.000 judeus em toda a Alemanha, à procura de vistos para qualquer lugar do mundo por mais longínquo e inóspito que fosse.
Sem dinheiro para pagar os "afidavits" exigidos pelos Estados Unidos ou os vistos capitalistas do Governo Vargas, faziam filas diante dos Consulados de países estrangeiros e estavam totalmente isolados num país com censura total.
Cumpre notar que na Berlim da época existiam 14 sinagogas, uma com 4.000 lugares e duas Yeshivot e mestres de filosofia e pensamento judaico do gabarito de um Martin Buber.

A B’nai B’rith Européia, dirigida pelo saudoso e conhecidíssimo Rabino Léo Baeck não poupou esforços para informar ao mundo o que acontecia.

Aliás, cabe lembrar que a noite de Cristal aconteceu após a Anexação da Áustria e o assassinato do seu chanceler "Dolfuns", após a decretação das Leis Raciais na Itália por Mussolini, num momento em que centenas de milhares de judeus alemães tentavam atravessar os Alpes para se salvar.

A B’nai B’rith brasileira fundada pelo Dr. Lorch em 1931 e praticamente dissolvida pelo Governo Vargas, se manteve unida e tentou salvar 600 crianças judias alemães, o que na última hora foi impedido pelo Governo Brasileiro.

O mundo sabia, e silenciou, praticamente permitiu, deu o seu aval.

A encíclica pedida por Edith Stein (agora canonizada) ao Papa Pio XI para que condenasse o nazismo e a perseguição anti-semita e posicionasse a Igreja Católica claramente diante dos acontecimentos foi atendida e custou a vida do próprio Papa.
A referida encíclica teria vindo à luz justamente com o intuito de evitar a Noite de Cristal que já vinha sendo preparada há tempo e esperava apenas por algo que servisse de estopim, o que aconteceu com o assassinato de um funcionário na Embaixada Alemã em Paris, por um jovem judeu desesperado pelo fato de os pais poloneses que moravam na Alemanha terem sido deportados para a fronteira e estarem morrendo à mingua, como expulsos da Alemanha e não aceitos pela Polônia, destino este compartilhado por centenas de outras famílias judaicas.

Esta encíclica engavetada por Pio XII está vindo à luz agora em língua portuguesa numa publicação da Editora Vozes com o título "A Encíclica Escondida do Pio XI - Uma oportunidade perdida pela Igreja diante do anti-semitismo".
Na contracapa do referido livro encontramos o seguinte:
"Em junho de 1938, o Papa Pio XI encomenda a três jesuítas - um americano, um alemão e um francês - o projeto de uma encíclica destinada a denunciar o racismo e o anti-semitismo. Entregue em Roma, no final de setembro do mesmo ano, esse documento não chegou a ser publicado, nem utilizado.
Morre Pio XI em fevereiro de 1939.
O Cardeal Pacelli sucede-lhe com o nome de Pio XII e o Vaticano fica calado no momento em que se prepara o extermínio dos judeus na Europa".

Ao visitar recentemente o cemitério judaico de Berlim, junto com meu marido, testemunha ocular, como garoto da trágica Noite de Cristal em 10 de novembro de 1938, e ao ver as fileiras de túmulos com esta data, de todas as faixas etárias, mas principalmente de jovens, jurei a mim mesma que algo faria para resgatar a história e a imagem tão deturpada do judaísmo alemão.

Para que isto não se repita é preciso valorizar a Vida e o ser humano como indivíduo, é preciso lutar pela democracia, pelo direito de falar, de discordar, de atuar.
Mais do que nunca é necessário ser capaz de cumprir com as premissas e diretrizes judaicas, de um mundo Universal, atuando em prol da defessa dos Direitos Humanos de todos, independentemente de raça, cor, religião, etnia ou nacionalidade, sem restrição de idade, sexo ou posicionamentos, o direito à educação, à alimentação, à saúde física e mental, o direito a uma vida digna, decente e dignificante.
É preciso ter a coragem de enfrentar as doutrinas espúrias da superioridade, do preconceito, da intolerância, da pureza do sangue, e das novas nomenclaturas que surgem disfarçadas pelo poder da comunicação e do progresso, como socializantes, científicas e proféticas utilizando o campo fértil da Internet para envolver mentes despreparadas de jovens ávidos por novidades e profundos desconhecedores da História e do passado recente.

Este é o desafio do nosso tempo e somente uma Comunidade Unida será capaz de enfrentá-lo agora, para não ter que se lastimar depois.

 

Edda Bergmann é Diretora de Direitos Humanos da B'nai B'rith do Brasil
Abrão Lowenthal é Presidente da B'nai B'rith do Brasil

 

Editoração e Coordenação:
IRENE SERRA
irene@riototal.com.br

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