MEMÓRIA

    
      Therkel Straede

   
Repercussões: Como círculos concêntricos na água...

O roteiro latino-americano da exposição sobre o salvamento 
dos judeus  dinamarqueses "Outubro de 1943"
   

Apenas uma minoria da população mundial tem algum conhecimento sobre a Dinamarca, o pequeno reino composto de ilhas, localizado entre a Alemanha e a península escandinava, com 5 milhões de habitantes. Desde a Copa do mundo de 1986, sabe-se que sua seleção está entre as melhores. Também se sabe que os jogadores de futebol dinamarqueses, por causa de seu estilo impulsivo e brincalhão, são chamados de "os brasileiros da Europa" - um apelido do qual os dinamarqueses se orgulham muito. E pelo menos um número considerável de pessoas sabe também que a política de genocídio contra os judeus, que a Alemanha nazista tentou estender a toda a Europa ocupada no início dos anos 40, fracassou na Dinamarca.

Nessa ocasião, os cidadãos do país, o governo e o rei formaram uma frente unida na defesa de seus concidadãos judeus. A ação que as tropas de Eichmann tentaram desencadear em outubro de 1943, com a finalidade de deportar todos os judeus do país para campos de concentração na Alemanha, terminou em um fiasco vergonhoso para os carrascos. 481 judeus foram aprisionados e tiveram que enfrentar a dura jornada para Theresienstadt, porém mais de 7300 foram salvos, fazendo a travessia por mar até a neutra Suécia. Essa operação de transporte clandestino foi uma aventura de grandes proporções, levada a cabo por barcos pesqueiros e todo tipo de pequenas embarcações. A perseguição anti-semita dos nazistas custou a vida de não mais que 116 vítimas na Dinamarca - um número muito reduzido, se comparado com o resto da Europa. Isto faz da Dinamarca uma exceção significativa - uma pequena luz brilhando na escuridão do terror nazista no continente europeu, que, sob o jugo do nazismo, foi palco do genocídio mais terrível da história da humanidade e, onde muitos desempenharam nos países ocupados o papel de atores coadjuvantes e cúmplices na tragédia.

O Museu Judaico do Rio de Janeiro fez, em julho de 1995, a mostra de uma exposição que conta a dramática mostra desta operação de resgate, apresentando também o contexto que a tornou possível e as conseqüências que teve. Quais as características da sociedade dinamarquesa e das forças sociais que fizeram com que a decência e a solidariedade fossem vitoriosas contra a barbárie? E qual foi o destino dos perseguidos? A exposição com textos em inglês acompanhados de resumos em português, foi exibida no Museu Nacional de Belas Artes. Os 36 cartazes de que se compunha foram produzidos pelo Museu Dinamarquês da Resistência 1940-1945, em comemoração aos 50 anos da ação de salvamento. As reações do público e da imprensa mostraram, no entanto, que o tema e a mensagem da exposição tinham relevância em um contexto muito mais amplo. Por um bom tempo, o interesse se estendeu bem além das comemorações e, do ponto de vista geográfico, incluiu um público de âmbito mundial, até mesmo em um continente que só indiretamente havia experimentado os crimes do nazismo.

A iniciativa do Museu Judaico, seguida imediatamente pelo Instituto Chagall de Porto Alegre, com uma turnê de exibições em uma série de cidades e campi universitários do Rio Grande do Sul, teve conseqüências muito amplas e importantes. Baseando-se no interesse que o público brasileiro e as entidades da comunidade judaica no Brasil haviam demonstrado, o Museu Dinamarquês da Resistência dirigiu-se ao Ministério da Cultura da Dinamarca, solicitando que custeasse uma tradução da exposição para o espanhol, destinada à exibição na América Latina. O Ministério da Cultura - que habitualmente não conta com muito interesse da parte dos países latino-americanos por assuntos da Dinamarca - concedeu os recursos necessários à produção de 15 exemplares em espanhol, que seriam fornecidos gratuitamente às entidades interessadas.

A narrativa dos acontecimentos ocorridos na Dinamarca em outubro de 1943 é, sem dúvida, alentadora. Mas, comparada às proporções gigantescas e quase inimagináveis da Shoah (Holocausto), a luz que brilhou na escuridão outonal desse outubro dinamarquês torna-se extremamente débil. A ambição dos autores da exposição era a de contar essa história de forma variada, crítica e relevante. Por isso, o fato de que, cinco anos após a primeira exibição continue existindo um interesse considerável pela mesma, é motivo de grande satisfação.

O sucesso dos eventos patrocinados pelo Museu Judaico do Rio de Janeiro e o Instituto Marc Chagall de Porto Alegre conseguiu focalizar as atenções de um amplo público sobre o tema da Shoah e da exceção dinamarquesa. A essas duas entidades e às pessoas que as sustentam com seu trabalho e dedicação, cabe a honrosa responsabilidade de haver dado uma contribuição fundamental para que esses acontecimentos, essenciais na história de nossa época, se tornassem mais conhecidos e divulgados em tantos outros países da América Latina.

 

Traduzido do dinamarquês por Teresa Burmeister
Enviado por Leon M.Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da
B'nai B'rith do RJ

 

Editoração e Coordenação:
IRENE SERRA
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