MEMÓRIA

        
    Pierre Birnbaum

        
VICHY NOS SUBÚRBIOS

Um livro que faz reviver um mundo desaparecido
       

Pensa-se que se sabe tudo a respeito do regime Vichiste, a perseguição dos judeus, a deportação, suas fugas de um esconderijo ao outro. Os historiadores tentaram analisar o papel do Estado, da polícia, dos funcionários públicos, tentaram penetrar nas idealogias dos intelectuais, os valores da opinião pública, o papel das milícias locais.

Assim, a obra extraída de uma tese que Jean Laloum publicou: "Os judeus no subúrbio parisiense, desde os anos 20 até os anos 50" é exemplar. Encontramo-nos mergulhados no fundo da vida local, nessas cidades do subúrbio parisiense, que são: Vincennes, Montreuil e Bagnolet, onde residiram, a partir dos anos 20, judeus vindo vindos da Polônia, Hungria, Rússia e Alemanha. Laloum reconstruiu de maneira especial a vida quotidiana, bairro por bairro. Entramos na intimidade desses judeus imigrantes ou naturalizados franceses, que vivem em condições pobres. Eles são artesãos, ferreiros, sapateiros, costureiros, ambulantes que ganham a vida com dificuldade. Alguns continuam com práticas religiosas, tais como Aaron Rajchszad, que não trabalha no shabat e trabalha em dobro no domingo. "Ele tinha duas máquinas a motor - malharias - que faziam muito barulho. Freqüentemente os vizinhos brigavam com ele. Os insultos não demoravam: "Judeu sujo! Judeu sujo! Judeu sujo!"

Os açougues kosher começavam a aparecer, como também os armazéns, onde para as festas de Peisah, vende-se carpas em grandes barris de zinco. Os cafés dirigidos por judeus que favorecem o convívio. Reúnem-se neles: religiosos, sionistas, socialistas e outros. Como na Polônia, os desentendimentos são muitos, mas desaparecem nos dias de bailes, casamentos e outras festas.

O autor encontrou centenas de outras fotografias desta vida judaica desaparecida. Fotos de casais, crianças, escolas, excursões, fotos da mobilização, da ocupação, da estrela de Davi que tiveram que usar, da deportação. Inúmeros documentos que relatam o drama: carteiras de identidade falsas, papéis de internações, avisos de seqüestros de bens, etc... Cartas de denúncias, tais como: "Vocês nomearam o Sr. David Mandel que mora na Rua ............. Ele sai de manhã sem a estrela, usa documentos falsos. Se V.S. quiser se dar o trabalho de pesquisar, vale a pena procurar a Rua .......... no bairro de Clichy e a Rua ........ no bairro de Montreuil, encontrarão todos eles com falsos documentos. Seria bom para a França se livrar dessa corja." ou outras cartas desse tipo: "Senhores: informo que a firma Colom e Cia no bairro Bagnolet, não tem administrador temporário e os seus proprietários não se declararam judeus. Como eu conheço o rancor dessa raça prefiro ficar anônimo."

Jean Laloum encontrou documentos de exames médicos efetuados pelo Dr. Montandon que decidia se alguém era judeu pela circuncisão ou se era uma cirurgia de um não judeu. Encontrou cartas a respeito de roupas que eram enviadas a costureiros e lojas de tinturaria que de repente tinham sido fechadas e seqüestradas (pertencentes a judeus), pedindo a devolução dos pertences que tinham ficado em tal ou tal loja. Encontrou também cartas desesperadas falando da próxima deportação, do medo da separação. Pesquisou também as casas de crianças organizadas, cujos pais tinham sido deportados e encontrou retratos deles. As fichas brutais que relatam as datas das deportações. Conta da tentativa da resistência francesa em ajudar os judeus deportados. Encontra inúmeras fichas com os carimbos: "NÃO RETORNOU". Na libertação da França surgem os judeus dos subúrbios que pertenceram a clandestinidade e trabalharam para a resistência: encontra fotos que comprovam tudo isso.

A vida renasce, os casamentos e os filhos também.

 

Tradução de Ida levi Martara
Fonte: Revista Arche

Enviado por Leon M.Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da
B'nai B'rith do RJ

 

Editoração e Coordenação:
IRENE SERRA
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