MEMÓRIA


         
Seldon Kirshner

       

SINAGOGA HISTÓRICA NO CAIRO AINDA ATENDE A PEQUENA COMUNIDADE

   
A sinagoga reformada, localizada na parte antiga da cidade do Cairo, à sombra de seis frondosas árvores, é um dos frutos do tratado de paz que existe há 20 anos entre Israel e Egito. Outrora, lamentavelmente dilapidada, a Sinagoga Ben Ezra - uma das mais antigas do Egito e receptáculo da famosa Geniza do Cairo - foi toda reformada, voltando à sua antiga grandeza, pela equipe da arquiteta e preservadora canadense, Phyllis Lambert, natural de Montreal.

Situada na vizinhança da igreja Sta. Barbara, num modesto bairro copta-cristão, freqüentado por vendedores ambulantes de souvenirs baratos, o "shul" encontrava-se num estado lastimável antes do início do Projeto de Restauração da Sinagoga Ben Ezra em janeiro de 1988.

O falecido Presidente do Egito, Anuar Sadaf, concebeu o projeto como sendo um complemento do acordo de paz com Israel, assinado em Washington em 26 de março de 1979.

Em 1980, Lambert - fundadora e diretora do Centro de Arquitetura Canadense em Montreal , foi designada diretora do Projeto, um empreendimento inigualável no mundo árabe. Por volta de 1987 conseguiram finalmente reunir uma equipe internacional de arquitetos, conservadores, arqueólogos, pesquisadores e historiadores. Entre outros, podemos citar Johan Bellaert, arquiteto belga que havia trabalhado para o Ministério de Herança e Cultura de Oman; John Stewart, um preservador da Universidade de Chicago, que fez trabalhos nos templos de Luxor; e Jospeh Hacker, um historiador da Universidade Hebraica, familiarizado com a história medieval e moderna da sinagoga. A obra terminou em agosto de 1991, um ano após a invasão do Kuwait pelo Iraque. Através de um porta-voz, Lambert, editora de um livro sobre o projeto intitulado Fortifications and the Synagogue, disse que estava extremamente feliz com os resultados obtidos na restauração.

Para os devidos efeitos, a sinagoga original , nomeada em memória do rabino Abraham Ben Ezra, natural de Jerusalém e que viveu no século XII , foi construída há mais de 1000 anos atrás, pressupostamente no lugar onde antes havia uma igreja. Reconstruída em 1892, devido ao desabamento do teto, o shul tornou-se o centro da vida comunitária judaica do Egito. Ao final do século XIX, quando o Egito era um protetorado britânico, a velha comunidade judaica continuava crescendo, trazendo sangue novo do Oriente Médio e da Europa. Na véspera da guerra Árabe-lsraeli em 1948, o Egito era o lar de aproximadamente 75.000 judeus cuja maioria residia no Cairo. Era uma comunidade próspera e sofisticada onde os judeus ocupavam posições de destaque nos ramos do comércio, nos bancos, na cultura e na política.

Em meados de 1860, foram encontrados muitos documentos descartados que revelaram surpreendente penetração na vida cotidiana da comunidade judaica dos séculos X a XIV e sua influência sobre os outros povos Mediterrâneos. Segundo Phyllis Lambert, a inspiração para procurar antigos documentos na sinagoga pode ter partido do estudioso do século XVIII, Simon van Geldem, que lembrou ter feito uma busca minuciosa para encontrar livros hebraicos e escritos que já não serviam mais.

Entre os notáveis colecionadores e estudiosos que representavam centros de estudos britânicos, norte-americanos e russos encontravam-se Abraham Firkovitch e Solomon Schechter.

Estima-se que mais de 200.000 fragmentos de pergaminhos e papéis foram retirados dos depósitos da sinagoga de Ben Ezra. Nenhum valor foi poupado para adquiri-los. Hoje podemos encontrar a maioria destes documentos nas coleções da Biblioteca da Universidade de Cambridge, do Seminário Teológico Judaico de Manhattan, da Biblioteca de Saltykov-Schedrin de São Petersburgo, da Biblioteca Bodleian de Oxford, da Biblioteca Britânica e da Aliança Israelita Universal de Paris.

Gerações de grandes conhecedores meditaram sobre os documentos mas o estudo definitivo, baseado na Genisa de Cairo, foi produzido pelo israeli Shlomo Dov Goitein, autor da obra de cinco volumes, A Mediterranean Society, sobre a vida judaica medieval.

Surpreendentemente, os fragmentos da Geniza do Cairo não estão expostos na Biblioteca de Herança Judaica da Sinagoga Ben-Ezra que foi inaugurada pelo Presidente Hosni Mubarak em 25 de novembro de 1997, exatamente uma semana após o atentado dos terroristas islâmicos em Luxor, matando 58 turistas estrangeiros.

A sinagoga - adjacente a um cemitério cristão - é pequena mas imponente e está cercada por muros altos. Seu piso é de mármore branco salpicado de preto e 10 colunas de cada lado elevam-se até o teto. As paredes de madeira possuem complexos entalhes ornamentados com marfim. Acima da demarcação da bimah existem duas janelas com vitrais. Os devotos sentam-se nos bancos situados verticalmente por todo comprimento do salão. No momento a galeria do segundo andar está temporariamente fechada para reformas. É uma sinagoga operante, no entanto, há muito tempo sem rabino.

Segundo o Guia Egypt, do Lonely Planet, aproximadamente 40 famílias judaicas residem perto do sul. O prédio administrativo fica perto da sinagoga. Em todo o Egito não existem mais que 700 judeus. Ondas de emigração, a partir de 1948, animadas por incertezas políticas e econômicas reduziram a comunidade a uma concha virtual vazia.

Durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando o Egito foi derrotado por Israel, a sinagoga foi atacada por uma quadrilha de malfeitores e seriamente danificada dando origem a mais um êxodo de judeus. Não foi registrado nenhum atentado durante a Guerra de Yom Kippur, em 1973.

Uma atração turística, a sinagoga é guardada por dois vigilantes à paisana, um Muslim e um Copta. Eles a protegem com muito zelo, conscientes de que a partir de 1992, os estrangeiros no Egito tomaram-se a cobiça dos terroristas nativos. O antigo zelador, Natan Abraham Moses, a quem encontrei durante a minha primeira visita à sinagoga, em 1975, morreu há alguns anos. Foi ele que me mostrou a mikvah, a suposta nascente onde a filha do faraó achou Moisés numa arca de junco.

Parece óbvio que a sinagoga precisa de recursos. Um aviso na entrada diz: "Seu donativo ajudará na manutenção e conservação desta sinagoga. Seja generoso".

 

Fonte: The Canadian Jewish News de 6/5/99
Traduzido por Lise Berochel

Enviado por Leon M. Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da
B'nai B'rith do RJ

 

 

Editoração e Coordenação:
IRENE SERRA
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