Carlos Printac
 

Chania-Caefa



Na Ilha de Apolo, berço de Zeus e o Minotauro, o Judaísmo volta a Creta à procura de 2400 anos da história.

Por mais de 2400 anos os judeus moraram na Ilha de Creta - "A porta da Europa" - desde o século IV a.C. até que os nazistas os deportaram, em 1944. Na última década, com a ajuda de fundos internacionais e árduo trabalho de uma judia, a comunidade judaica começa a se reerguer.

Creta, a maior das Ilhas Gregas é uma mistura de Ocidente e Oriente, do moderno e do milenar, de pinheiros e palmeiras, de olivas e laranjeiras, com sua capital Heraklion, com 150.000 habitantes e intenso movimento marítimo até o Palácio Knosos.

Passaremos por Chania, sua capital até 1970, com suas pitorescas casas venezianas onde foi iniciada a revolução que conseguiu a independência da Grécia, no século XIX.

Temos também Rethimnon, fortaleza edificada, em 1574, com um centro universitário de prestígio e o Agios Nikolaos, principal atração da juventude, e que continua a ser porto onde atracam iates do mundo todo e que começa a acordar após meia-noite.

Sendo uma das maiores ilhas do Mediterrâneo, Creta é um pequeno continente pela variada geografia, paisagem e agricultura. Suas montanhas superam os 2400 m e descendem sobre o oceano formando cantos com praias de pedra do sul e praias de mar ao norte.

Porém para o turista, a parte da costa banhada pelo Mar Egeu frente a costa européia, é mais cosmopolita com intensa vida comercial excelente hotéis e sítios arqueológicos para todos os gostos.

Não é de estranhar que em 2001, Creta recebeu dois milhões de turistas, dos 10 milhões que visitaram a Grécia. Somente para comparar, Israel com o dobro do tamanho e com dez vezes mais de habitantes recebeu nesse mesmo ano 1.2 milhões de turistas.

A Creta Judaica
A presença judaica em Creta começa no século IV antes da Era Cristã, após a conquista do meio oriente, por Alexandre Magno. A construção das grandes cidades, como Alexandria e Antioquia, foi a razão pela qual muitos judeus aproveitaram o universalismo que professava o helenismo e fixaram residência na Ilha.

As primeiras comunidades judaicas foram fundadas por judeus procedentes da Palestina e de Alexandria quando se concretizou a conquista romana na Ilha, no ano de 69 da Era Cristã, já se encontravam lá judeus; a segunda esposa do historiador Flavio Josefon tinha nascido lá e era judia.

Havia então sinagogas em Creta, três em Heraklion, uma em Rethymnon e outra em Kisamos. Foram lugares de meditação para os judeus durante o domínio romano, veneziano e turco e sobreviveram a vários cataclismos e movimentos sísmicos.
Já no século XVII, em Chania, foram construídas mais duas sinagogas - a de Beth Shalom e Etz Chaim (Árvore da Vida).

Durante a segunda guerra mundial, Creta foi poupada pelos nazistas. Em 1941, pouco tempo depois o rabino de Chania foi obrigado a apresentar a lista completa dos membros da comunidade, umas 50 famílias, aproximadamente 300 pessoas. A sinagoga Beth Shalom foi destruída durante os bombardeios a Chania. Etz Chaim continua funcionando.

De Salonica vinham as notícias que os 60.000 judeus tinham sido deportados , sendo seus paradeiros desconhecidos.

Na madrugada de 29 de maio de 1944, caminhões com tropas da SS cercaram o bairro judeu e ordenaram a todos que saíssem às ruas, sem levar nada e reunir-se numa praça perto do porto, de onde foram levados para o cárcere de Ayas. Ficaram lá por duas semanas em condições sub-humanas, enquanto a Sinagoga Etz Chaim era saqueada e destruída.

Depois, foram levados do porto de Heraklion, 265 homens, mulheres e crianças chegando lá no dia nove de junho com 600 prisioneiros de guerra, gregos e italianos, e embarcados no cargueiro Tanais, rumo a Atenas.

Às 3.15 h da madrugada, do dia 10 de junho, quando o barco estava perto do continente foram interceptados por um submarino inglês que o afundou com um torpedo. Ninguém se salvou. Caso tivessem chegado a Atenas teriam sido levados para campos de concentração, em Auschwitz e Birkenau, para terminar nas câmaras de gás, como aconteceu com os 60.000 de Salonica e o resto do judaísmo na Grécia.

Segundo informe da Marinha Real Inglesa, foi por um erro que os ingleses salvaram os judeus de ir para as câmaras de gás.

A Sinagoga Etz Chaim é tudo o que resta da evidência da presença judaica, em Creta, e durante 2400 anos a Árvore da Vida segue viva.

Nicolas Janan Stavrolakis, historiador e artista que promoveu e criou os museus judaicos de Atenas e Saronica, além de escrever vários livros sobre os judeus da Grécia, sua cultura e costumes, se dedicou também durante uma década a conseguir apoio das autoridades gregas e organizações de beneficência do mundo todo para restaurar a Sinagoga Etz Chaim destruída pelos nazistas.

Em 1996, recebeu o apoio do World Monument Fund of New York e o Conselho Central das Comunidades Judaicas de Guerra para possibilitar a que as portas da Sinagoga Etz Chaim fossem abertas novamente.

Hoje, sete judeus em Creta se revezam diariamente para fazer as orações vespertinas que tem dois Sefer Torá, um da Sinagoga David Bem Zimra (Cairo) e outra doada pelo Memorial Eroll Trust de Londres e que é um dos 1500 pergaminhos que foram descobertos em 1945, numa sinagoga em Praga.

De Jerusalém a Chania
Ahuva, nascida em Jerusalém, jerusalemitana de nove gerações, viajou a Creta como turista em 1992 e hoje mora em Creta com seu marido grego, com quem se casou em 1994. Hoje têm duas meninas de seis e dois anos, ambas nascidas em Jerusalém. Os judeus que visitam a Ilha lembram dos judeus de Creta com um kadish na antiga sinagoga, apesar de ser o dia oficial o 10 de junho.

 

Artigo de Carlos Printac, Chania-Caefa, publicado na Revista Aurora - Israel
e traduzido por Leon Mayer.
 

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