Sami Goldstein

        
A MULHER SOB O ENFOQUE JUDAICO
  

Desde os tempos bíblicos, o papel da mulher vem sendo amplamente valorizado dentro de nossas tradições.
Sempre que nos deparamos com uma figura feminina no Velho Testamento, este faz questão de ressaltar sua importância e sobretudo, suas qualidades.
Basta abrirmos o Gênesis em seus primeiros capítulos e lá encontraremos passagens sobre Eva, a primeira mulher, que foi chamada de "mãe de todos os seres viventes", apesar de nunca ter-se feito nenhuma menção a Adão como pai de todos os seres viventes. A partir daí, várias outras personagens destacaram-se, como as matriarcas: Sara, Rebeca, Raquel e Léa, das quais descende todo povo judeu, Miriam, a irmã de Moisés, por cujo mérito o povo de Israel foi abençoado com água durante sua estadia no deserto, Débora, a profetiza, que conduziu sua batalha contra o opressor, Ruth, cujas palavras de lealdade conquistam a admiração de todos até hoje, Esther, a rainha, que através de seus abnegados esforços obteve a salvação para seu povo dentre tantas outras.
Mas não somente na história antiga encontramos destaques femininos. Em tempos atuais, somos obrigados a relembrar feitos marcantes, como os de Golda Meir, Primeira-Ministra de Israel, hábil política e uma mãe para sua nação. Por exemplo, o próprio livro dos Provérbios entoa um belo hino chamado de "Mulher Virtuosa", que a exalta com versos como: "O seu valor por muito supera o de finas jóias...".

Mas não somente o Velho Testamento afirma a sua importância. A música judaica também aborda o tema com a mesma relevância. A Cabala, mística judaica procura revelar a espiritualidade existente em nosso mundo material. Ela nos afirma que o homem se enriquece (moralmente e espiritualmente) pelo mérito da mulher. E, uma das passagens mais lidas, afirma que "Deus conta as lágrimas das mulheres", já que, sendo mais sensíveis e emotivas, compreendem melhor os problemas enfrentados por nós, e por isso choram com mais facilidade. Sensíveis, não frágeis!.
Em nenhum momento nossa literatura inferioriza a figura feminina. Pelo contrário, visto que a própria Bíblia nos afirma (Gênesis 1:27 e V:2) que Deus criou o homem e a mulher à sua imagem, ambos são iguais perante o Todo Poderoso. E esta sensibilidade é uma das multas qualidades que se fizeram e se fazem presentes em nossas vidas, em nossa história, e que têm sido uma das bases de sustentação de nossa civilização. E como estas, encontramos vários outras passagens em nossa literatura.
Se ambos são iguais perante Deus, o que os diferencia?
Há uma gama enorme de opiniões dentro do judaísmo a respeito do papel da mulher dentro do ritual judáico. Muitos, acompanhando a evolução natural, acreditam que a mulher deva participar plenamente, com todos os direitos e deveres. Seguindo esta crença, muitas comunidades chegam a adotar mulheres para ocupar o cargo de rabina, cargo máximo dentro da hierarquia religiosa, sendo guia espiritual, responsável pelos serviços religiosos e pela transmissão das tradições. Por outro lado, há aqueles que crêem que a mulher tem condições de se realizar religiosamente dentro do contexto da prática tradicional.
Se existem controvérsias acerca do papel religioso da mulher, todos concordam que homens e mulheres são iguais em valor, e com iguais deveres para com sua comunidade, judaíca e nacional. E esse último vem sendo muito bem desenvolvido por nossas mulheres. As organizações assistênciais femininas são responsáveis por grande parte do prestígio adquirido pela comunidade judaica. Sem esquecer de mencionar, também, a importância de seu papel no desenvolvimento comunitário, onde ocupam postos de suma relevância em nossas instituições.
E, quando abordamos o tema mulher, temos que trazê-lo para um enfoque mais atual: o debate sobre o aborto e o planejamento famíliar. Tanto um como o outro caem no mesmo dilema: o direito do feto nascer, o direito à vida. No caso do aborto isto fica mais claro afinal já temos uma vida e formação. No caso do planejamento familiar, a pergunta que fica é: acaso não estamos evitando que mais uma vida venha ao mundo? O que poderia (e eu mesmo já ouvi esta definição de alguns rabinos) ser interpretado como um "Aborto em Potencial"?

Não somente segundo o judaísmo, mas segundo todas as religiões que visam o bem-estar humano como sua premissa, a vida é o maior tesouro que possuímos. Baseando-se no Deuteronômio (XXX:19): "...escolherás pois, a vida, para que vivas,,,", nossos sábios afirmaram que a vida se sobrepõe sobre todos os outros preceitos. Tanto que, para salvar uma vida, todos podem e devem ser anulados. O primeiro deles, logo que abrimos a Bíblia, consiste na ordem Divina de que todos os seres humanos se multiplicassem e preenchessem este mundo.
Voltando novamente à mística, o judaísmo crê que em cada corpo reside um espírito embutido pelo próprio Deus. Espírito este que, por decreto Divino, tem seu momento de entrar e sair. Nossa tradição nos ensina que Deus teve todo o cuidado de construir um mundo perfeito em seus detalhes, para que nele pudesse existir seu maior tesouro: a vida humana!!!
Partindo deste princípio, podemos afirmar veemente que o judaísmo é totalmente contra o aborto e o planejamento familiar.
Com relação ao aborto, ainda encontramos em nosso Código de Leis dois casos nos quais o aborto é permitido: quando a gestação ou parto forem fatais para mãe ou para o filho.
Agora, assim como outras religiões, o judaísmo ainda não chegou a um consenso com relação a estes temas: casos, como fetos com má formação, crianças que não terão as mínimas condições humanas de sobrevivência, pais que não terão condições de sustentar seus filhos, dentre tantos outros, fazem parte da pauta de várias discussões rabínicas. E, sempre existem aqueles que são a favor e aqueles que são contra.

Apenas para concluir, creio que o maior dom que ganhamos de nosso Pai Celestial ainda é o Livre Arbítrio. Somente uma mãe sabe o que é melhor para si e para seu filho. Abordando o tema sob aspceto religioso é muito difícil saber o que se passa na cabeça de uma pessoa que procura estas "soluções". Portanto, somente quando a religião, a lei, a medicina e a consciência de todos caminharem juntas é que obteremos uma definição satisfatório para este dilema.

 

Sami Goldstein
Semana Judaica




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