Isaac Stern faleceu em Nova York, em 22 de setembro de 2001, de insuficiência cardíaca con-gestiva, com 81 anos de idade.
 

     03 de agosto, 1998
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A Arte e a Magia de Isaac Stern

"O corpo inteiro toca um instrumento e não apenas os dedos e as mãos."

Um dos maiores violinista do mundo transmite a experiência musical 
de toda uma vida a uma nova geração, em Jerusalém.


ISAAC STERN
, nascido em uma pequena cidade da Rússia e vivendo nos Estados Unidos desde os dez meses é considerado, aos 77 anos, um dos maiores violinistas do século. Com mais de cem títulos gravados, é um músico de repertório clássico e contemporâneo e um eterno incentivador de novos talentos. Apesar de sua agenda cheia e de seus inúmeros compromissos em todo o mundo, dedica quatro semanas por ano a ministrar um curso especial para jovens músicos judeus, em Jerusalém.

Local: Uma sala de consertos em Jerusalém.

Personagens: dois violinistas e uma pianista.

Cena 1 __ Isaac Stern está sentado, silenciosamente, em um lado do palco de um auditório, semi-envolvido pela escuridão, enquanto ouve duas jovens executarem a Sonata n.º 6 para violino, de Beethoven __ Uma no piano e a outra no violino. Ocasionalmente, interrompe-as, dando-lhes instruções ou apenas dizendo: "Eu não posso lhe dizer como...". Apesar de ambas tocarem bem, Stern parece insatisfeito.

Cena 2 __ Stern levanta-se, pega o seu violino e, ainda de costas, começa a tocar. Em seguida, vira-se, encara as duas jovens e, lentamente, anda à sua volta, aproximando-se cada vez mais, tocando com uma intensidade crescente. O reflexo da luz brilha sobre seus cabelos, a tensão que dele emana é enorme e seu modo de tocar, insuportavelmente belo.

Cena 3 __ De repente, Stern pára e pede desculpas: "Eu não tocava esta partitura havia vinte anos". Ri...e as estudantes também.

Situações como esta são muito comuns na vida dos jovens músicos que têm a oportunidade de participar dos cursos ministrados por Isaac Stern, uma vez por ano, em Jerusalém. Considerado um dos maiores violinistas deste século, é também chamado de Embaixador Musical dos Estados Unidos. Em mais de 50 anos de carreira, apresentou-se nos mais prestigiados auditórios do mundo, não se limitando, no entanto, a ser apenas mais um grande artista preocupado com o próprio sucesso. Estimular jovens músicos, apoiando-os no inicio da carreira e obter o reconhecimento da arte nacional e internacional são objetivos que sempre o acompanharam.

Nascido em Kreminiecz, na Rússia, em 1920, Stern chegou aos Estados Unidos aos dez meses, com os pais, fugindo da Revolução Russa. Vivendo em São Francisco, começou a tocar violino aos 8 anos, fazendo o seu primeiro recital aos 13, passando então a estudar com Naomi Binder, um dos grandes maestros da cidade. Em relação ao seu amor pelo violino, Stern costuma dizer: "Eu não o escolhi. Foi ele que me escolheu".

Três anos após iniciar os estuados com Binder, fez sua primeira apresentação com a Orquestra Sinfônica de São Francisco, transmitida por todo o país. Era o ano de 1936 e, segundo a crítica, "Foi uma performance perfeita de um concerto para violino de Brahms. Em 1937, aos 17 anos, Stern fez um recital no New York Town's Hall, ao qual seguiram-se seis anos de apresentações contínuas. Em 1943, aos 22 anos, fez a sua entrada triunfal no Carnegie Hall. Stern era, então, sinônimo de solista proeminente, atuando em orquestras dentro e fora dos Estados Unidos.

Como presidente do Carnegie Hall por mais de 30 anos, patrocinou inúmeros artistas principiantes. Teve, ainda, uma atuação fundamental em 1960, evitando a destruição deste auditório e, em sua restauração, em 1986. Aclamado internacionalmente por suas interpretações de repertórios clássicos, Stern é um admirador confesso da música contemporânea, tendo lançado e gravado trabalhos para violinistas de vários compositores do século 20, incluindo Bernstein, Penderecki, Rochberg, Schumann, Dutillex e Maxwell Davies. Gravou, também, as primeiras composições americanas de Bartok e Hindemith.

Além de ter conquistado fama pelas suas apresentações nos palcos dos grandes auditórios de todo o mundo, Stern fez sucesso no cinema e na televisão. O filme "De Mao para Mozart: Isaac Stern na China" ganhou o Oscar de melhor documentário longa metragem em 1981, recebendo, também a menção especial no Festival de Cannes.

Artista conceituado, manteve-se sempre ligado aos seus princípios religiosos. Em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, apresentou-se com a Filarmônica de Israel, sob regência do maestro Leonard Bernstein, no topo do Monte Scopus, em Jerusalém. O concerto, que não foi interrompido sequer pelas sirenas que anunciavam os ataques aéreos, foi mais tarde transformado no documentário "A Journey to Jerusalém".

Foi o autor da trilha musical do filme "Violinista no Telhado". Sua biografia, o musical "Isaac Stern, uma vida", foi lançado em vídeo pela coleção "Clássicos da Sony". Com mais de cem títulos com sua assinatura, Stern é um dos músicos mais gravados da atualidade. Já foi homenageado pela CBS com o título "Artista Laureado", sendo o primeiro a receber tal prêmio na história da empresa.

Dentre suas obras estão Quarteto para piano completo de Brahms, com Emanuel Ax, Jaime Laredo e Yo-Yo-Ma, em vídeo. O lançamento recebeu o prêmio Grammophone de 1991 como "Melhor Gravação do Ano".

Uma vez por ano, 33 jovens músicos judeus, entre 18 e 30 anos, de todo o mundo, têm a oportunidade de um curso especial em Israel, com professores consagrados no mundo artístico. É o Encontro Musical Internacional de Jerusalém, realizado no Centro Musical de Jerusalém, criado pela Fundação Rothschild e presidido por Stern.

O curso tem a duração de aproximadamente quatro semanas __ o mais recente foi realizado entre julho e agosto últimos, na recém inaugurada Academia Israelense de Artes e Ciência. As aulas são ministradas por profissionais conceituados, entre eles, os violoncelistas Yo-Yo-Ma e Pamela Frank, os pianistas Emanuel Ax e Yefin Bronfman, além do próprio Stern. Diferentemente dos cursos que duram apenas alguns dias, este é consagrado a apenas um compositor: Beethoven.

Para participar das aulas, os interessados passam por uma seleção feita através da analise de um vídeo de audição. São todos músicos que já tocaram em duetos e trios para pianos, violinos e violoncelo. Os estudantes arcam somente com as despesas de viagem e hospedagem, pois o curso é totalmente financiado pela Fundação Charles Bronfman, CRB e pela Fundação Rosthschild.

Quando perguntado sobre porque essas aulas em Israel, Stern torna-se pensativo e diz: "Eu tenho dado aulas por 20 anos, mas este é o curso mais longo que já ministrei. Nunca estive tanto tempo intensamente envolvido".

Referindo-se à ameaça permanente que paira sobre Israel, Isaac Stern costuma dizer: "Há grande sentimento de amor neste país. Eu amo Israel e é melhor ser construtivo do que destrutivo. Este é um pequeno país que possui mais talentos musicais do que países quatro vezes maiores. O seu futuro repousa no talento de seus jovens. Os jovens são a arma secreta de Israel. O meu campo de conhecimento é a Música. Portanto, eu tento ajudar, patrocinando inúmeros artistas israelenses e também de outros países", e acrescenta, brincando, referindo-se aos jovens violinistas que introduziu aos palcos da música através dos anos: "A minha luta foi muito maior porque eu não tinha um Isaac Stern para me ajudar".

Stern conheceu sua segunda esposa, uma refugiada européia, em Jerusalém, em 1951, casando-se com ela alguns dias depois. Tem dois filhos e uma filha que atua como rabino em New Jersey. Stern define-se como uma pessoa que se impacienta facilmente com as perguntas dos jornalistas e ressalta que sua biografia já foi reescrita mais de mil vezes. É capaz de concentrar-se durante horas sobre uma única nota musical.

Preocupa-se com os mínimos detalhes, desde os físicos até os conceitos filosóficos e artísticos. Observá-lo enquanto leciona é sentir a música através da tensão concentrada em seus músculos. "O corpo inteiro toca um instrumento e não apenas os dedos e as mãos", costuma dizer aos alunos.

Cena 4__ Ainda sentado em sua cadeira, em meio ao auditório semi-escuro, Stern começa a tocar a deixa-se levar totalmente. "A música possui tanta beleza quanto uma flor recém-aberta. Não a destrua", diz o violinista.

 

Enviado por Leon M.Mayer
 B'nai B'rith do RJ. 1998

 


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IRENE SERRA
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