VARIEDADES

     
        Billas-Bôas Corrêa

     

Roda da impunidade
      

O escândalo de hoje abafa o de ontem; a violência do dia anula a da véspera - estas são regras do código não escritos da impunidade, de vigência sabida e aprovada pelo consenso silencioso da minoria e que consolida a cultura da discriminação e o culto da injustiça.

Antes de ser esquecido, o assassinato de Galdino, o índio pataxó queimado pela gangue dos rapazes da elite de Brasília, empurra para a sombra do segundo plano o duplo espetáculo de violência demencial das PMs de Diadema e da Cidade de Deus; os quais por sua vez, sucederam-se à série interminável; Carandiru, Corumbiara, Candelária, Vigário Geral, El Dourado do Carajás.

Por vezes, o alarido do escândalo sufoca o protesto contra a violência. A novidade dos videoteipes documentando a rotina de agregações, tapas na cara, golpes de cassetete, de pedaços de pau ou lascas de tábuas, da extorsão e dos assassinatos a sangue-frio e pelas costas de policiais militares contra populares indefesos, pobres, naturalmente, começara a descartar a fatigada indignação com as roubalheiras descobertas pela CPI dos precatórios, que perdia espaço das manchetes e deslizava para as páginas internas.

Um pouco antes da manipulação dos títulos públicos - envolvendo governadores, secretários, bancos, arapucas, corretoras e mais a fauna da sarjeta das comissões a rataria das gorjetas da milhões -, o palco nobre do Congresso patrocinara alguns espetáculos de breve e intenso sucesso; as trampolinagens dos anões do Orçamento, interrompida por golpe de espertes, e que ficou inacabada como a célebre sinfonia, e a exibição de gala da CPI das trapaças da dupla Color-PC Freitas, desfeita pela mão do destino.

Escândalos com marcas identificadoras: os autores são sempre gente do poder ou do dinheiro; as vítimas, pobres, geralmente pretos ou mulatos. O que sinaliza o roteiro infalível: muito barulho na abertura, promessas solenes de apuração rigorosa e punição exemplar, até que se esgotem os protestos da sociedade. E que não dura muito. Vivemos tempos de velocidade alucinante, de informação massificada instantânea, em tempo real pelas TVs ou pelas rádios. Duros tempos de luta pela vida. E de entorpecimento pela bulha das reinvindicações, do agito da sociedade mobilizada, ocupando as ruas nas guerrilhas contra as privatizações, a quebra da estabilidade dos servidores públicos. Embalando na grita contra a inqualificável armação da bancada dos aposentados pela manutenção de privilégios imorais, como a acumulação de proventos acima do teto proposto de R$ 10.800,00. Já esburacado pelas estocadas dos extratetos e a desconversa do presidente do Supremo Tribunal Federal lembrando que os ministros deslocados para a Justiça Eleitoral faturam algum por fora, botando no bolso mais de R$12 a cada fim de mês.

Pulamos um degrau. Crimes hediondos, escândalos, roubos, brutalidade policiais são notas dissonantes da pauta cotidiana.

Agora, convenhamos, está demais. Passou dos limites do suportável. Não só pelo excesso, pela sucessão sem pausa para recuperar o fôlego, mas é principalmente, pela exposição das vísceras do sistema que ampara injustiças e divide o país pelo rubro risco da iniquidade. Afinal, reconhecida pelo Congresso, que se coça para apressar projetos de interesse social, esquecidos nos escaninhos do ócio; pelo Poder Judiciário, no compasso das pancadas da contrição do peito de ministros dos autos tribunais; pelo governo, que se desculpa pelo tempo desperdiçado ou choraminga excursas, rateando culpas pelos parceiros da omissão.

A pilhagem do dinheiro do povo alçou a patamar do bilhão. A violência sofisticou-se, à gratuidade: incendiar mendigos virou esporte das gangues dos filhos do poder e da impunidade; espancar, assaltar, assassinar, os pobres nas favelas e becos justifica-se como exercício, o traquejo das patrulhas noturnas dos meganhas


Billas-Bôas Corrêa é repórter político do Jornal do Brasil

 

Enviado por Leon M. Mayer
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