VARIEDADES

         
N Á U F R A G O S

       
(Traduzido do livro “Around the Maggid's Table”, do rabino Pessach Krohn,
editora Messorah Publications)

    
         Os caminhos de D'us são misteriosos. O Rei David escreveu (Salmo 92:7) que "pessoas simples não conseguem entender isto". Homens sábios, por outro lado, podem relaxar, seguros que existe uma razão para cada fato ocorrido.

         Às vezes, o que o homem considera ser uma coisa maravilhosa acaba se transformando num desastre e, de modo oposto, o que alguém chega a considerar como uma ocorrência ameaçadora revela-se, no final, uma benção disfarçada. O jeito que D'us dissimula suas intenções é conhecido como hester panim (literalmente, rosto escondido). Raros são aqueles que têm a oportunidade de ver claramente através do véu que encobre as intenções de D'us.

         O seguinte episódio retrata circunstâncias que, no momento em que ocorreram,  poderiam ser facilmente entendidos de determinada maneira, mas produziram resultados que mais tarde se mostraram incrivelmente diferentes do que se pensava.

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O jovem Moshe Rabi estava entre aqueles com sorte. Pelo menos é o que parecia, a princípio. Quando o regime nazista alemão estava começando a erguer sua horrorosa cabeça em 1939, um patrono inglês (Sr. Moshe Shneider) se propôs a patrocinar, como parte de um programa de retirada de crianças, a viagem de Moshe, então com 16 anos de idade, de Frankfurt para Londres, na esperança de poupar os jovens da agonia que estava prestes a recair sobre os Judeus nas mãos dos nazistas.

         Entretanto, pouco depois de chegar à Inglaterra, Moshe foi avisado que seria enviado a um campo de refugiados. Parecia que espiões alemães haviam se infiltrado na Inglaterra misturados com os refugiados Judeus, e a Scotland Yard não queria correr nenhum risco. No começo, os inimigos estrangeiros foram classificados em 3 categorias: suspeitos tendo conexões com as Forças alemães (como marinheiros ou soldados) eram aprisionados; adultos alemães com outras ocupações, tinham seu trânsito restringido; e as crianças estavam livres para viver com as famílias que desejassem hospedá-las. Porém, depois que a Alemanha conseguiu uma grande vitória tática em 1940, em Dunkirk, França, causando a retirada de centenas de milhares de soldados franceses e ingleses, todos os alemães - tanto Judeus como não Judeus - eram levados juntos para campos de detenção, primeiro em Londres e depois em Liverpool.

         As condições nos campos de detenção eram horríveis, além do espaço ser restrito e a comida escassa. Os internos reclamavam amargamente e logo as autoridades britânicas ofereceram, a qualquer um que desejasse, a oportunidade de ser deportado para o Canadá. Muitos Judeus, incluindoMoshe, decidiram deixar os campos ingleses, pensando que a situação não poderia ser pior. Mas como estavam enganados.

         Os Judeus alemães foram levados para uma ilha, onde embarcaram num navio chamado Dunera,  que deveria viajar para o oeste, em direção ao Canadá. Mas foram enganados. Depois de numerosos dias no mar, ficou óbvio a muitos a bordo que o Dunera estava navegando para o sul. Depois de muitas perguntas, lhes foi revelada a verdade:  Estavam a caminho da Austrália!

         Durante a viagem os Judeus foram submetidos a constantes abusos e situações ridículas. Eram perseguidos e humilhados incessantemente. A nenhum deles foi permitido subir ao convés para respirar um pouco de ar puro. Pelo contrário, foram cercados com arame farpado para garantir que permanecessem no porão do enorme navio. Marinheiros, tripulantes - até o capitão - arrancavam os pertences pessoais dos Judeus, alegando que aquelas coisas estariam mais seguras nas mãos das autoridades. Os tripulantes ingleses chegaram até a emitir recibo das coisas que pegavam, mas os Judeus, em breve, perceberam que os recibos, bem como as promessas da tripulação, de nada valiam.

         Os deprimidos viajantes estavam solitários, amedrontados e tensos sobre seu futuro. Tinham lhes restado poucas, senão nenhuma posse. Tinham escapado de seus lares e agora estavam sendo deportados de seus lares adotivos. Os passageiros sabiam que o Oceano Pacífico estava cheio de navios alemães armados. Se sentiam abandonados, sem controle sobre seu destino.

         Os membros da tripulação inglesa estavam acompanhando os novos boletins de guerra pelos seus rádios. As coisas não estavam muito boas para o exército inglês, pois as Forças Alemãs estavam obtendo vitórias táticas, uma após a outra. Mais tarde, noutro dia, o Dunera por pouco escapou de uma catástrofe, quando uma enorme onda miraculosamente desviou o navio de um torpedo disparado por um submarino alemão. Embora o torpedo tivesse passado apenas de raspão, os marinheiros ingleses ficaram furiosos e se sentiram humilhados pelo pensamento de que quase haviam sido explodidos. Num acesso de raiva, descarregaram sua fúria sobre os alemães que estavam a bordo.

         Com uma crueldade calculada, os ingleses recolheram as últimas posses que os estrangeiros alemães ainda tinham e as atiraram todas pela amurada, nas revoltas águas do Pacífico. As últimas ligações com suas vidas passadas - cartas, pequenos objetos herdados e preciosos livros - tinham, agora, se ido para sempre. A escuridão da noite refletia seu desespero, enquanto Moshe e os demais a bordo choravam por esta última indignidade. Não tinham mais nada de seu passado - só memórias. Entorpecidos e arrasados, olhavam seus pertences espalhados pelo mar, descendo e subindo novamente à superfície, ao serem jogados de uma onda para outra.

         Finalmente o Dunera, com sua carga de almas despedaçadas, chegou a Sidney, na Austrália. Todos os passageiros desembarcaram lá. Logo o Dunera começou sua viagem de volta à Inglaterra. Um dia ou dois depois de ter partido, o Dunera, agora somente com a tripulação inglesa a bordo, foi torpedeado por submarinos alemães. Explodiu e todos a bordo morreram.

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         A poucos anos atrás, um filme foi liberado, tanto na Inglaterra como na Austrália, sobre o Dunera. O filme não era nada honroso sobre a tripulação inglesa do navio, pois criticava seu comportamento rude e insensível para com os passageiros a bordo. Quando a Marinha Britânica objetou sobre o modo como seus membros estavam sendo retratados, o Parlamento em Londres abriu um inquérito para verificar se realmente os marinheiros ingleses , décadas atrás, haviam sido cruéis e desumanos.

         Quando mais fatos sobre o incidente vieram à tona, o diário do comandante alemão que torpedeou o Dunera veio a público. Nele constavam algumas incríveis passagens. Mostrava que o comandante realmente alvejara o Dunera em sua viagem para a  Austrália.

         Tinha disparado um torpedo contra o enorme navio mas, para sua surpresa, não foi um tiro certeiro. Logo, ele e seus comandados, estavam prontos para torpedear novamente o navio e mandá-lo pelos ares, mas quando foi olhar pelo periscópio, percebeu malas e outros objetos flutuando no oceano, não longe do Dunera. Pensando que aquele material pudesse ter utilidade para reunir informações sobre o inimigo, mandou mergulhadores recolherem todos os itens.

         Ao serem trazidos a bordo do submarino alemão, foram cuidadosamente examinados. Os alemães viram que, no meio do material recolhido, havia cartas pessoais escritas em alemão fluente, livros alemães e outros objetos, claramente procedentes da Alemanha. Perceberam, então, que haviam cidadãos alemães a bordo do Dunera. Portanto, para salvar a vida de seus patrícios que obviamente estavam sendo levados da Inglaterra para a Austrália, o comandante alemão ordenou sua tripulação a não atirar no Dunera. Passou, também, uma mensagem pelo rádio para todas as embarcações alemãs na área para evitarem este barco, pois seu submarino acompanharia o navio à distância. E assim o foi, por todo o percurso até Sidney.

         Uma vez que o barco atracou e os passageiros foram desembarcados, o comandante se sentiu seguro de que não havia mais alemães a bordo. Sua consciência agora estava limpa e, na viagem de volta do Dunera à Inglaterra, o comandante atacou e destruiu o navio.         

E então, o que Moshe Rabi e seus companheiros Judeus pensavam ser a pior das indignidades - atirarem no mar todos seus últimos pertences - foi, na verdade, um ato de hashgachah pratit (Providência Divina) que os salvou. O que consideraram ser o rompimento com seu passado foi, na realidade, a ponte para o seu futuro.

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        Moshe Rabi,  junto com muitos membros de sua família, ainda vivem na Austrália  hoje, onde são parte integrante da Comunidade Judaica de Melbourne.


Tenham todos um Chódesh Tov  (bom mês
)

 

Traduzido por Gerson Farberas, com permissão do autor.


Revista Rio Total

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