VARIEDADES

 

  
Mistura de raças é herança de Portugal

Fenômeno ocorreu apesar da oposição da corte, que também deixou um forte legado na arquitetura das principais cidades e no comércio

  
Portugal deixou em Cabo Verde uma herança que é a marca de seu tempo áureo de potência colonialista: a miscigenação de raças. Mas essa mistura parece não ter sido do agrado de quem detinha o poder da metrópole. Foi algo que se impôs. Não há dúvidas de que os portugueses tinham uma visão universalista de império bem menos preconceituosa que os demais países europeus. E isso acabou se sobrepondo ao esforço da aristocracia portuguesa, criando um povo mulato de beleza incomum. Não significa que não houve empenho da corte em evitar tal processo. Um decreto de 1620 é revelador: a corte enviou para a colônia "raparigas de costumes ligeiros para impedir o contato dos homens com as negras."

Essa mesma elite que se mudou para o arquipélago procurou manter o resultado desse cruzamento distante de seus cobiçados sobrados. Há quem defenda que a segregação de negros e mulatos tenha sido muito mais econômica que racial. Se nas veias dos cabo-verdianos há sangue europeu, é na arquitetura e no urbanismo de pelo menos três importantes cidades de Cabo Verde __ a capital, Praia (Santiago), São Felipe (Fogo) e Mindelo (São Vicente) __ que está presente a herança física de Portugal.

Em todas as cidades, casarões seculares foram centros históricos uniformes que remetem à parte antiga da capital portuguesa __ e a um tempo de poder dos grandes proprietários de terra de outrora. São sobrados de um andar, com sacadas, construídos para separar os colonizadores dos nativos. O mais importante centro histórico arquitetônico fica em São Felipe, na ilha do Fogo. A algumas dezenas de metros em direção ao mar, um cemitério construído há séculos impõe um costume de separação de uma sociedade escravocrata que nem a independência de 1975 conseguiu derrubar. No local __ conhecido como Cemitério Branco __ só são enterrados os chamados legítimos, descendentes das famílias de Portugal, principalmente, e de outros países da Europa.

O glamour da colonização portuguesa atingiu o auge no centro de Mindelo. Se em São Felipe moravam latifundiários, na cidade da ilha mais cosmopolita do país a aristocracia fazia seu comércio e alimentava a vida cultural. Em especial, na rua Lisboa e suas transversais. Na mesma área, ainda hoje, funciona o comércio. Ali funcionam estabelecimentos cujos nomes preservados confirmam a força da presença portuguesa. Além do Mercado Municipal (antiga Casa Madeira), resistem Casa e Farmácia Leão, o banco e a biblioteca municipais. E, ainda, os famosos cafés de Mindelo. Por pressão dos combatentes, os portugueses abandonaram seus bens e fugiram, depois de agredidos e de ter suas casas saqueadas. A reconciliação só veio nos anos 80, quando se intensificou o fornecimento de produtos e foram instalados fábricas portuguesas na ex-colônia.

Os colonizadores também deixaram hábitos rígidos, como o fechamento do comércio aos sábados (funciona até as 13h) e domingos. Essa norma, aliás, acaba por limitar a atividade turística em todas as cidades no final de semana. Pior ainda em Mindelo, onde funciona um importante centro de artesanato. Resta apenas conhecer alguns monumentos importantes como as ruínas da Cadeia Civil, no Alto do Furtum, ponto mais elevado da cidade. Do local, pode-se admirar também o Ilhéu do Djéu (uma gigantesca pedra no meio do mar entre São Vicente e Santo Antão); as ondas que explodem no rochedo são um espetáculo. Mindelo tem ainda três navios de grande porte, que apodrecem encalhados na Baía de Porto Grande e em São Pedro. A cidade também dispõe de belas praias: Lajinha e Baía das Gatas. Esta, considerada a vedete, é onde se realiza, todos os meses de agosto, o mais importante evento de música de Cabo Verde __ o Festival Baía das Gatas.

 

Enviado por Leon M. Mayer

 

Editoração e Coordenação:
IRENE SERRA
irene@riototal.com.br

Revista Rio Total