Ano 16 - Semana 801

 

 

  24 de agosto, 2011
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Rabino Kalmon Packouz    

Sacha

(Traduzido do livro “Around the Maggid's Table”, do rabino Pessach Krohn,
editora Messorah Publications)


Numa viagem a Israel, em 1987, tive o mérito de conhecer um incrível jovem chamado Sacha, vindo da Rússia. Tendo chegado há 4 meses, vivia com seus pais e irmão, temporariamente, em um Merkaz Klitáh (centro de absorção) em Jerusalém. Conversamos por mais de 1 hora, e a história que contou era absolutamente impressionante. Falava num hebraico quase fluente. Eu estava muito curioso sobre onde e como, na União Soviética, ele aprendeu a falar a língua tão fluentemente. Mas como havia conseguido, tenho certeza que foi meramente a menor de suas extraordinárias conquistas. Esta é a espetacular história:

Desde pequeno Sacha se lembrava que, na primavera, seu pai sempre trazia para casa aquela comida de aparência estranha, dizendo às crianças que era uma tradição da família comer este negócio chamado Matsá nesta época do ano.

Quando Sacha tinha 18 anos e as flores da primavera começavam a desabrochar, seu pai o mandou ir à sinagoga comprar matsá para a família. Ele se dirigiu à sinagoga de Moscou, onde encontrou pela primeira vez um cavalheiro chamado Rav Arye Katzin. Aí lhe perguntou onde poderia comprar a matsá.

“Você sabe por que come matsá?”, perguntou-lhe Rav Arye.

“Não exatamente” respondeu Sacha, “meu pai me disse que é uma tradição familiar comê-la nesta época do ano”. Lembrava-se que a família costumava comer matsá junto com pão - ou até mesmo com porco. Nunca lhe ocorreu que poderia ter qualquer significado religioso.

“Sacha, muitos anos atrás os judeus foram libertados da escravidão no Egito e esta liberdade é comemorada ao comermos este tipo de alimento”, Rav Arye tentava explicar-lhe, mas ele não se impressionou.
“Sacha”, Rav Arye exclamou, “Você é judeu e precisa sempre se lembrar disto!”

Conversaram por um longo tempo e Rav Arye convidou Sacha a retornar novamente para conversarem. Algumas semanas depois ele voltou. Devagar e com muita paciência, Rav Arye começou a ensinar Sacha sobre o Judaísmo.

Certo dia, Rav Arye resolveu tocar num assunto delicado. Fez, então, uma introdução sobre uma mitsvá que os judeus têm feito por toda sua História, independentemente das circunstâncias e de suas conseqüências. A mitsvá é o Brit Milá, a circuncisão ritual. Sacha, que não era circuncidado nesta época, ouviu, mas ficou hesitante em se submeter a esta cirurgia nesta idade. Mas, então, Rav Arye lhe recitou o versículo (Yechezkel 16:6) recitado em cada Brit, “Sacha, lembre-se sempre, você pode pensar que está desperdiçando e se “enlameando” com seu sangue, mas Bedamaich Chai - através do seu sangue (que se derramará no seu Brit) é que você viverá”. Isto o impressionou.

Sacha voltou para casa aquela noite com a expressão “através do seu sangue é que você viverá” ressoando em seus ouvidos. Depois de alguns dias, concordou em fazer seu Brit. Secretamente, para que as autoridades soviéticas não ficassem sabendo, os preparativos foram feitos e o Brit realizado.

Sacha começou a freqüentar a sinagoga com mais freqüência e, como era um bom músico, foi lhe pedido para animar a festa de Purim.

Algumas semanas depois, Rav Arye organizou um pic-nic de Lag BaÓmer e Sacha tocou música para os participantes.

Mas naquela noite recebeu visitantes. Era a KGB, a polícia secreta Soviética. Eles queriam uma relação de todos os judeus que participaram do pic-nic naquela tarde. Sacha não acreditou naquele pedido. Será que pensavam que iria se tornar um informante? Se recusou a citar até mesmo um único nome.

Os oficiais lhe disseram: “Sacha, em algumas semanas você receberá sua carta de convocação do exército. Nós podemos arranjar para que seja mandado para a brigada de músicos, para que nunca tenha que servir na linha de frente”.

Ele adoraria tocar música no exército russo, mas nunca faria isto à custa de outros judeus. Não tinha fortes compromissos religiosos, mas prejudicar outro judeu através da delação estava fora de questão.

Algumas semanas depois, recebeu sua carta de convocação e tinha sido alocado para o treinamento básico. Antes de partir para o exército, Rav Arye lhe deu um Sidur e disse: “Guarde isto com você todo o tempo, e faça uso dele todos os dias. No mínimo, diga os versos do Shemá Israel.”

Por algum tempo, Sacha usou o Sidur regularmente, mas aos poucos foi parando completamente. Entretanto, quanto mais se familiarizava com os outros soldados de sua barraca, mais desencantado com eles ficava. Seu desencantamento começou nas refeições. Quando a comida era servida nas mesas, os soldados pulavam em cima como animais. Os soviéticos que já estavam alistados há mais de um ano sentiam-se como “veteranos”, arrancando a comida e demais víveres dos novatos. Muitos desses soldados eram pessoas que Sacha havia conhecido durante a escola, e estava chocado ao ver quão bestiais haviam se tornado. Eles tomavam vodka regularmente, xingavam, praguejavam, eram imorais e, pior de tudo, odiavam os poucos judeus que havia entre eles.

Sacha começou a perceber que não poderia e não iria viver sua vida como eles viviam a deles. Eles representavam a mais baixa forma de vida humana. Havia pensado que seus colegas seriam educados, mas percebeu o quanto havia se enganado. Estava enojado deles, e isto o levou a aproximar-se dos outros 4 judeus que estavam em sua brigada.

Em seus dias de folga, começou a passar mais tempo entre os jovens judeus que lhe haviam sido apresentados pelo Rav Arye Katzin em Moscou. Nenhum soldado soviético amava os judeus, mas o maior anti-semita de todos era um enorme “urso” chamado Dimitri, vindo da Ucrânia. Ele media quase dois metros de altura e se impunha sobre todos. Pessoalmente humilhava e importunava os judeus sem piedade. Não lhe fazia diferença se o judeu era popular entre os demais soldados ou era do tipo quieto e introvertido. Dimitri desprezava todos os judeus e ele e seus seguidores deixavam isto bem claro.

Certo dia, quando Sacha passava entre as barracas, pensou ter ouvido sons de luta vindo de um dos quartos. Ao abrir a porta, viu o enorme Dimitri montado em cima de um dos soldados judeus, prestes a lhe acertar um soco. Tudo o que podia ver de Dimitri eram suas enormes costas. Instintivamente, correu para cima do homem e, com um salto, agarrou Dimitri pelo tórax e o arrancou de cima do judeu indefeso. Ambos, Sacha e Dimitri, se levantaram do chão. Sacha começou a recuar em direção à porta pela qual entrara, certo de que a briga agora seria com ele. Entretanto, algo aconteceu que mudou sua vida para sempre. Dimitri estava muito chocado para lutar. Começou a gritar como um animal. Suas veias do pescoço estavam saltadas, como cabos de aço. Seus olhos estavam escancarados como uma maçaneta de porta. Ele gritou, xingou, ameaçou, amaldiçoou e então falou: “Eu vou garantir que você se ‘enlameará’ no seu próprio sangue!” E assim se retirou do quarto.

Sacha estava paralisado. Havia ouvido aquela expressão “se enlamear com seu sangue” em algum outro lugar, em outra época. Na outra oportunidade esta expressão havia tocado seu coração... E então se lembrou! Rav Arye Katzin havia lhe dito alguns meses antes: “Você pode pensar que está desperdiçando e se ‘enlameando’ com seu sangue, mas através do seu sangue (que se derramará no seu Brit) é que você viverá”, quando fizer seu Brit Milá. Sacha estava pasmo. Sabia, em seu coração, que não podia ser coincidência que aquela criatura baixa, perversa, um rashá, usara uma expressão similar à que um tsadik havia usado.

Sacha correu o mais rápido que pode para seu quarto, maravilhado e confuso. “HaShem”, disse para si mesmo, “Dê-me um sinal que o Senhor está aqui!” Correu para seu armário, onde escondia seu Sidur, e o pegou. Abriu-o aleatoriamente e na página em sua frente estavam os versos do Shemá Israel em letras maiúsculas! Era a oração em hebraico com a qual estava mais familiarizado. “Não, não poderia ser, pensou”. Tinha de ser pura coincidência que a sentença que havia dado força aos judeus por milhares de anos houvesse aparecido neste momento, quando pediu um sinal dos Céus. Fechou o Sidur e o abriu novamente em outro lugar. Não podia acreditar em seus olhos. Aí estava de novo - o verso do Shemá Israel. “Isto é impossível”, pensou consigo mesmo. Fechou o Sidur e o abriu perto do fim do livro e aí estava de novo - o verso do Shemá Israel! (Sacha não percebeu naquele momento, mas havia aberto o Sidur primeiro na oração de Shacharit, depois em Maariv e depois em Maariv de Shabat, que estava impresso perto do final do Sidur.)

Tomado pela emoção, começou a chorar. E com os olhos cheios de lágrimas, recitou o Shemá como nunca o havia recitado antes. E depois, com grande fervor, recitou os versos do Salmo (20:2) “Yaanêcha HaShem BeYóm Tsará - Possa HaShem responder-lhe no dia de seu infortúnio”.

Sacha estava simplesmente maravilhado. Não podia esperar por sua próxima folga para encontrar seus amigos judeus em Moscou. Estava pronto, agora, para um total comprometimento com o judaísmo.

Alguns dias depois teve seu tradicional domingo de folga, e contou a seus amigos em Moscou tudo que havia transcorrido. Expressou, então, seu interesse em aprender o máximo que pudesse sobre a Torá e a observância das Mitsvót. Levou de volta consigo seu primeiro Tsitsit, que planejava usar secretamente embaixo de seu uniforme de soldado do exército russo.

Falou a seus amigos de Moscou que queria participar do próximo feriado judaico. Queria ser parte integral do povo judeu. Perguntou a Rav Arye qual a próxima festividade, e ficou surpreso com a resposta. De todos os dias possíveis, era um dia de jejum! Taanit Ester (o jejum de Ester, um dia antes de Purim) seria em duas semanas, numa terça-feira. Sacha disse que faria o possível para estar de volta neste dia. Seu próximo problema seria conseguir uma folga no meio da semana. Nunca se ouviu que um soldado no exército soviético houvesse tirado folga em qualquer outro dia que não no domingo. Sabia, também, que jejuar no exército, vendo toda aquela comida sendo atirada sobre a mesa na hora das refeições, seria quase impossível. Além disto, ficaria óbvio a todos que não estava comendo.

Ao se aproximar Taanit Ester, Sacha implorou ao oficial de plantão para que, desta vez, pudesse tirar um dia de folga no meio da semana. Alegou que sua família estaria se reunindo para um importante evento. Por alguma razão que Sacha não conseguiu descobrir até hoje, o oficial lhe deu a raríssima permissão de folgar numa terça-feira. Passou todo o dia de Taanit Ester na companhia de Rav Arye em Moscou. Falou as Slichót (orações especiais de arrependimento para aquele dia), jejuou e tentou estudar o máximo que pôde sobre a história e o significado de Purim, o feriado que viria no dia seguinte. “É o dia em que os judeus foram salvos dos descendentes de Amalêk”, respondeu-lhe Rav Arye. Sacha ouviu a história de Hamán e seu plano diabólico que havia sido frustrado. De noite, Sacha ouviu a leitura da Meguilá e voltou, rapidamente, para sua barraca na base militar.

Quando se dirigia a seu quarto, encontrou um grupo de soldados esperando por ele. “Onde você se enfiou?” todos gritaram de uma vez. “Não pode imaginar o que aconteceu ontem por aqui! Onde, no mundo, você esteve? Foi um milagre que não estava aqui ontem!”. Todos estavam falando juntos e levou alguns instantes até Sacha conseguir entender o que estavam dizendo para ele. Finalmente, entendeu. No dia anterior, Dimitri, que neste meio tempo havia sido expulso do exército, voltou com um grupo de amigos procurando por Sacha. Estavam bêbedos, loucos de raiva e fora de controle. Tinham vindo para matar Sacha e vingar o que este havia feito a Dimitri duas semanas antes. Estavam armados e fizeram uma busca em todos os quartos. Não conseguiram encontrá-lo, pois estava em Moscou, comemorando o dia em que os judeus foram salvos dos descendentes de Amalêk.

Sacha entendeu, agora, que também ele havia sido poupado. Sorriu com confiança, soltando um suspiro de alívio. Em silêncio, agradeceu a HaShem. Seria um Purim que se lembraria para sempre!

Traduzido e enviado por Gerson Farberas, com permissão do autor.

 



Direção e Editoria - Irene Serra