VARIEDADES

    
Heriberto Haber

       
ILUDINDO A INQUISIÇÃO

       
Um dia em fins de 1998, o jornal hebraico Maariv, publicou um artigo que passou meio desapercebido:

numa localidade ao norte de Israel, um casal havia instalado um modesto estabelecimento cujo maior movimento se dava aos sábados. Não podemos afirmar se se tratava de um café, um quiosque na beira da estrada ou algo semelhante. Por diversas vezes, oficiais da polícia haviam surpreendido o casal violando o dia de descanso sagrado judaico e, ao comprovar nos documentos de identidade que se tratavam de judeus aplicaram-lhes, em nome do Ministério, uma multa específica para tal infração. No entanto, se fossem cristãos ou muçulmanos esta multa sabática não se aplicaria aos donos do estabelecimento pois, entende-se, que seu dia de descanso semanal é outro.

Finalmente, como conseqüência desta perseguição, o casal dirigiu-se ao Ministério do Interior e solicitou que os dados nos documentos que os identificavam como judeus fossem substituídos por ateus, agnósticos ou algo semelhante. O que  importava era não ser mais multado aos sábados. Termina aqui a notícia que estamos comentando.

Em outra ocasião, faz algum tempo, o proprietário judeu de outro estabelecimento que também funcionava aos sábados, conseguiu demonstrar que transferindo sua empresa por um dia, cada sexta-feira, antes do pôr do sol, para um proprietário não judeu, não incorria à multa pelo trabalho sabático.

Este artificio de transferir a propriedade por um tempo determinado, é um truque cem por cento “kasher lemehadrin” (“lícito para os mais exigentes”), já que foi inventado pelos nossos sábios do Talmud e aplica-se até hoje em Israel por ocasião da festa de Pessach. Realiza-se então uma cerimônia especial no Supremo Rabinato do país, transferindo-se a um não judeu a propriedade de todo o “chametz” (pão  fermentado) dos judeus do Estado de Israel:  sacos de farinha empilhadas nas fábricas, o macarrão e as massas guardadas nos depósitos, as pizzas congeladas e os biscoitos dos supermercados.

Se: a partir do momento em que a religião judaica se aplica em Israel com poder de decreto lei, e, dada a triste realidade que esta mesma religião em muitos aspectos desapareceu em plena Idade Média, aparecem estes subterfúgios tão surpreendentes e ridículos para furtar-se aos castigos de semelhante inquisição. Renunciar ao judaísmo, sem evasivas nem rodeios, como no primeiro exemplo, ou recorrer a artifícios sofisticados praticados nesta mesma religião, preenchendo a cada sexta-feira comprovantes análogos assinados diante do Grão Rabinato nas vésperas de Pessach. Porque há os que não compreenderam ainda que não estamos mais vivendo nos tempos de Moisés, quando, aos sábados, no deserto do Sinai, cada qual se trancava com sua família no acampamento que habitavam. E quando alguém saía para buscar lenha no dia de shabat, era condenado à morte por esta violação. Leia-se na Torá em Bamidbar – Números, Capítulo 15, Versículo 32 a 35. Tão pouco estamos nos guetos da diáspora – seja nos tempos antigos ou no século XX - , para que possamos chamar o não judeu que nos acenda o fogo ou que aperte o botão, ação esta que a religião nos proíbe fazer nos dias de shabat. O único que se vale deste artifício em Israel é exatamente o Ministério que aplica as multas através de inspeções sabáticas realizadas por funcionários não judeus.

Porque a vida de um país moderno neste século XX exige que certos serviços e atividades sejam realizadas continuamente, sem interrupção. Subentende-se que aquelas pessoas que trabalham quando as demais descansam serão compensadas  com outro dia de folga durante a semana e muitas vezes também com um pagamento adicional pelo dia extra trabalhado.

Isto no entanto, nossas autoridades religiosas não podem e não querem entender. Por isso, os rabinos que chefiam os ministérios, continuam enviando inspetores drusos nos dias de shabat e os obrigam a cobrar por invencionices e disparates tais como as que descrevemos acima.

E, a propósito, um pensamento que não é nosso mas do escritor muito ortodoxo e já falecido Professor Yeshaiahu Leibovich – citado em um dos seus livros

 “Alguém já escutou que alguma vez os rabinos em Israel protestaram contra o funcionamento dos serviços de água corrente ou de eletricidade durante os dias de shabat ou nas festas judaicas?”

Nunca se ouviu, não é verdade, e por quê?

Porque a água corrente e a eletricidade são necessárias aos ortodoxos e aos rabinos nos seus lares e sinagogas. Por isso iludem a inquisição.

 

Extraído do jornal Aurora  de 07/01/99
Traduzido por Lise Barochel

Enviado por Leon M. Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da
B'nai B'rith do RJ

 

Editoração e Coordenação:
IRENE SERRA
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