VARIEDADES


   
Marcos Aquines

  
Um Rio de Amor Cristiano

 Para o dia do Holocausto, Marcos Aquines publicou o seguinte artigo no Jornal La Nacion em 19/4/2000:

Um Rio de Amor Cristiano

Tenho nas minhas mãos dois documentos, um texto que o Episcopado Argentino difunde no momento de lembrar-se o Shoa, e outro texto do celebre autor israelense Amoz Oz. 

O Episcopado decidiu difundir nas Escolas Argentinas a firme posição adotada ultimamente pela Igreja Católica em torno ao massacre que perpetuaram os Nazis e o pecado do anti-semitismo, e sua solidariedade com os judeus argentinos pelos atentados contra a Embaixada de Israel e a AMIA. Desta forma, contribui divulgar a mensagem com a qual João Paulo II anseia a fim de dar vigor a espiritualidade dos católicos. Trata-se de outro “aperto na porca” ao “agiornamento” iniciado pelo Concilio Vaticano na década de 60.

Vale a pena mencionar a  formidável carta do Papa Pio XI aos católicos alemães, pouco antes de iniciar-se a Segunda Guerra e seu título soa até hoje “Mit Brennender Sorge”. Este texto sempre foi lido em voz baixa e portanto não contribui, como era o desejo daquele lúcido Papa, a evitar a catástrofe após o concílio ecumênico e apesar dos gestos do Papa João XXIII em favor dos Judeus;  o diálogo ecumênico foi desconfiado e reticente, pela enorme carga de erros acumulados durante séculos. As reuniões e estudos continuaram, porém o conhecimento derivado destes encontros seguiu sempre limitado a uma elite de eruditos – seus interessantes câmbios de visão não chegavam ao povo. 

Os Bispos Argentinos utilizam o estilo adotado pela Santa Sé no seu documento sobre o Perdão. 

Assim como o Vaticano identificou sete pecados e entre eles incluiu o anti-semitismo, os bispos argentinos não somente reconhecem as atrocidades do Holocausto, mas incluem os atentados da Embaixada e da AMIA.

Não obstante, existem alguns Católicos que questionam, mesmo que seja na intimidade, e se perguntam senão corresponderia um pedido de perdão por parte dos Judeus. Se baseiam em algumas más experiências com algum vizinho, a erros do Governo de Israel ou a postura fanática de certos grupos. Estou de acordo : todo ser humano tem sempre alguma coisa de que se arrependa, e pedir perdão. Porém a relação Igreja e Judeus é outra coisa muito mais profunda e transcendente; e , para isto, vou mencionar outro texto de  Amoz  Oz. Amoz OZ nasceu em Jerusalém e converteu-se no escritor israelense mais traduzido e celebrado em Israel e fora de Israel. É um ferrenho defensor dos Direitos Humanos e fundador do Movimento “Paz Agora”, que tanto fez para melhorar o relacionamento Palestino/Israelense. Por causa da visita do Papa a Israel, ele escreveu um artigo que vale a pena reter alguns conceitos que ajuda a entender o medo e a dor que se instalou na alma dos Judeus como resultado do “Amor” Cristiano. Durante séculos, não somente padeceram perseguições e matanças, como também desprezo e calúnia. Era exigido que pedissem perdão pelos sofrimentos e morte de Jesus e pelo absurdo empenho em querer seguir sendo Judeus. Amoz  Oz reconhece que,  por isso, a  seus parentes mais longínquos lhes produzia o mesmo mal estar em falar de Jesus que de sexo.

Quando pequeno, se interou que Jesus tinha sido Judeu, e correu para dizê-lo a sua tia, ela suspirou : “pois teria sido melhor se ele não tivesse sido, durante milhares de anos nos culpam, pelos problemas que ele mesmo procurou”.

O Judeu assumiu de geração em geração que era ofendido e exterminado por causa de Jesus e em seu nome. Não podia deixar de lembrar que Jesus foi tão Judeu como eles e também foi morto como foram os demais Judeus.

Conta Amoz  Oz que viajava de trem na França junto a duas freiras católicas. Perguntaram de onde Amoz Oz era . Respondeu de Jerusalém. As freiras, assustadas, falaram: mas falam que agora Jerusalém está cheia de Judeus. O escritor explicou que também era Judeu. Então as freiras se entreolharam e uma delas falou : Jesus foi muito bom, como os Judeus puderam fazer isto com ele? Amoz Oz falou que concorda com elas que Jesus foi muito bom, mas que ele não tinha nada a ver com aquela Sexta feira de 2000 anos passados; pois “tinha dentist “ e que “ apesar de ele ter sido também judeu não pode participar nem do processo, nem da execução”. Amoz Oz diz, com ironia, que seu povo foi o centro do “Amor” Cristiano. Por meio de conversões forçadas, expulsões em massa e terríveis Progroms queriam salvar sua alma.

As velhas tias de Amoz  Oz asseguram que o atual Papa, por ter vivido na Polônia, conhece bem o que fizeram com os Judeus e deveria contar a Arafat  a fim de que ele possa entender a angústia dos Israelenses que são, na maioria, sobreviventes e filhos dos sobreviventes.

Seria estupidez negar os progressos e deixar de valorizá-los. Em nosso terrível mundo, há gestos que renovam a esperança. 


Marcos Aquines é Escritor. 
Tradução Leon Mayer.
                

 

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