VARIEDADES

       
          
Maria Christina de Andrade Vieira

     

Valores e virtudes
         

"Por quanto tempo uma vida pode viver caiada?"
Affonso R. de Sant'Anna

           

Têm razão aquele que se preocupam em semear o amanhã. No país do "jeitinho", da malandragem que se esconde atrás do pseudo-inteligência, da maioria que deseja se camuflar na exceção, dos que se pretendem cidadãos, mas fogem do anonimato, plantar para o futuro é ousadia.

Houve um tempo em que a idéia de plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro simbolizava realização. Bons tempos. Eram idéias de plantio em solo fértil, que revelavam preocupação com um amanhã em que o semeador provavelmente não desfrutaria a colheita de propósitos mais nobres. A crise de valores ficou fora de moda. Tornou-se pueril. As virtudes outrora são enaltecidas, alimento de valores essências, estão ultrapassadas.

O mito da caverna de Plantão ilustra nossos tempos. Acorrentado no fundo da caverna, o homem confunde as sombras ilusórias com o mundo real e não enxerga mais verdades. As pressões e as tendências ofuscam a capacidade de ver . Os modismos enaltecem o ter, o sucesso, o culto ao corpo, a adequação a um padrão. O supérfluo e o efêmero passam a ter mais consistência e apelo do que o necessário e a tradição. O sentimento de indignação perante distorções sociais, políticas, jurídicas pouco a pouco vai se escondendo de si mesmo, acabrunhando. Sem intuir mais o que é o correto, o bom, o verdadeiro, a decência, o digno, o honesto, o homem entorpecido não discrimina __ esse é o problema __ o certo e o errado. Certo e errado, em que todo um movimento social se esforça talvez inconscientemente em neutralizar ou desordenar. Faz propostas indecorosas, aviltantes ou simplesmente desonestas sem perceber que a não aceitação das mesmas por terceiros não passa pela impossibilidade de realização, mas pela falta de caráter de atitude.

A ausência de espanto assusta. O relativismo beneficia a formidade. A fuga inconsciente do espirito crítico __ ou, o que é mais triste __, as inquietações revestidas de sintomas físicos ou emocionais são o lamento de sentimentos (baseados em virtudes e valores) abafados.

Na trajetória pessoal e profissional, a vocação e o talento são reprimidos pela busca incessante do sucesso. O dinheiro e o poder se agitam como sinos que tilintam e seduzem. A realização integral e verdadeira é deixada de lado pelo mercado de trabalho, que se impõe mais forte. A artificialidade e o falso brilho do sucesso criam o consumo de ser. Ter ou não ter, eis a questão... que impulsiona. Conviver com Hamlet desvirtuado. Que pena, a banalização da felicidade.

Não é fácil sair da caverna e das sombras, enfrentar a realidade, que não é virtual, e assumir. Assumir os próprios valores, aqueles escondidos. Aqueles que estão guardados em gavetas mentais e têm quase vergonha de se expressar. Assumir as próprias idéias. Alterar atitudes e hábitos que ocasionaram surpresas. Remar contra marés antagônicas a ideais mais nobres. E, como os sábios de Platão, que conseguem arrebentar as correntes e atingem um saber maior, ter o compromisso e a felicidade de ensinar, educar e, sobretudo, desvendar a ignorância.

As virtudes, relembradas em livros nas listas de mais vendidos, lutam por espaço. Mas no cotidiano convive-se com uma polidez que se esvai sutilmente, e qualquer gesto elementar educado atrai atenções. Basta um natural obrigado. A fidelidade às marcas, aos produtos, ao ter, é a que fascina. Só inquieta o mercado e o consumo enquanto geração de receitas; a justiça anda cabisbaixa. Fala alto mas caminha escondida no silêncio; a simplicidade, que poucos parecem conhecer, descobriu que a arrogância age mais rápido em certas esferas; a generosidade...

Em contraponto às sombras, algumas luzes brilham. Os que dedicam seu tempo livre __ aquele que é preciso inventar __ a trabalhos voluntários pelo social, pela justiça, pela educação, pelos direitos humanos. Pela melhoria da sociedade. Porque acreditam num país melhor e a fé se sobrepõe à pequenez.

Vivenciam seus valores de forma intensa. Exploram, resgatam, agem em conformidade com seus princípios e ideais. Colocam a felicidade sobre o domínio de suas escolhas. Pagam preços por elas. Mas são felizes e sabem fazer felizes. Olham para florestas e não para árvores solitárias.

Merecem respeito os que semeiam para o futuro. Plantam árvores pelo prazer de plantar e disseminar frutos por tempo imensurável...

Têm filhos pelo prazer de gerar transmitir amor e transformam gerações... Escrevem livros para explodir idéias, conceitos, virtudes e valores pelo universo doente.

 

Maria Christina de Andrade Vieira
Professora universitária. Diretora da Andrade Vieira Arte, Cidadania.
Membro do CNPC do Ministério da Cultura.

         

         
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