VARIEDADES

        
 Claude Meyer

   
ENTREVISTA COM JEAN ZIEGLER


Em janeiro de 1997 Jean Ziegler publicava pela Editora Senil:  "A Suíça, o ouro e os mortos", publicado também em livro de bolso pela Point e agora no Brasil pela Record.  O autor, deputado socialista e professor da Universidade de Genebra, tem uma escrita bastante ferina, e em seu livro não poupa seu próprio país sobre o período da guerra. Atualmente é alvo de uma queixa por  "traição, por parte de personalidades suíças ditas  "respeitáveis". Uma comissão deve decidir em breve sobre a cassação  de sua imunidade parlamentar

ATUALIDADE JUDAICA:  um grupo de personalidades suíças  "respeitáveis", altos funcionários, banqueiros, advogados  de negócios e deputados de direita, fizeram queixa contra o senhor por  "traição". Poderia nos explicar o que se passa? 

Jean Ziegler: trata-se de uma queixa penal por  "traição", atentado à independência e a segurança  da Suíça (de acordo com os termos do artigo 266 do código penal helvético) feita por vinte e uma personalidades muito poderosas, deputados da direita, o presidente da associação dos banqueiros privados, dos grandes acionistas da UBS e  de embaixadores. Não são marginais da extrema direita. Isso foi deito em seguida à publicação de meu livro:  "A Suíça, o ouro e os mortos" e ao testemunho que dei no dia 22 de julho (98)  durante um  "hearing" público diante da comissão bancária do Senado americano, presidida pelo  senador  D'Amato. Meu livro após ter sido publicado em alemão e em francês foi publicado nos Estados Unidos pela Itarcowt-Brace  em abril.

A.J.: O que eles reprovam a seu respeito?

J.Z.: Como sabem, depois de 50 anos de negações, e sob a ameaça de sanções econômicas vindas de muitos estados e da cidade de New York, os bancos suíços assinaram no dia 12 de agosto um acordo com os representantes das vítimas da Shoah no valor de 1,25 milhares de dólares. Assinaram um acordo dentro das condições do Congresso Judaico Mundial. Para eles era perder totalmente a dignidade depois de 50 anos de mentiras. Os queixosos dizem:

-"Foi o livro de Ziegler que forneceu os argumentos às organizações judaicas e foi porque ele utilizou esses mesmos argumentos diante do Senado americano que esse acordo foi concluído".

A.J.: O que lhe inquieta mais na deposição dessa queixa?

J.Z.: Os termos da queixa e o fato do procurador ter julgado a queixa aceitável. A terminologia é aberrante. Pode-se ler por exemplo:  "Ela (a pessoa designada)  assumiu a posição dos chantagistas  "Eles evocam  também  "a cupidez crescente por meio do boicote".  Para eles esse  acordo é uma derrota terrível. O clima é péssimo na Suíça nesse momento. Como podem falar de chantagem, quando se trata de uma elementar justiça, edificante em si. Eles precisam de um bode expiatório.

O que é inquietante é o fato de que o procurador da Confederação, Madame Carla del Ponte tenha julgado a queixa aceitável, que ela a tenha registrado e que implicitamente tenha declarado aceitáveis os termos de  "chantagem" e  "cupidez".  Depois de ter consultado a opinião do ministro federal da justiça ela aceitou e transmitiu à comissão judiciária do parlamento, que me destituirá, sem dúvida alguma, de minha imunidade parlamentar.

A.J.: Que risco o senhor corre?

 J.Z.: Um processo penal que não me inquieta realmente pois não penso que me colocarão numa prisão por 5 anos. O que mais temo é um processo civil com a condenação de pagamento de danos e interesses. Se os grandes bancos se voltarem contra mim, não estou em condições de resistir.

A.J.: Esse caso constitui um atentado à liberdade de expressão?

J.Z. Sem dúvida nenhuma, um atentado flagrante.


trad. Victoria Cardim
Enviado por Leon M. Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da
B'nai B'rith do RJ
         

           

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