VARIEDADES



Osias Wurman

Xenofobia e racismo


As recentes revelações das restrições impostas, há mais de meio século, à imigração de negros, judeus e asiáticos durante os governos de Dutra e Vargas chocaram os brasileiros amantes da democracia. Foram atos injustos, cometidos contra estes segmentos do povo brasileiro que tanto contribuíram para o engrandecimento de nossa nação.

Já no Brasil atual, a imigração de estrangeiros parece liberalizada e imune às manchas do passado, enquanto que no continente europeu marcha-se a passos largos na direção de conflitos raciais onde a marca principal é o ódio dos radicais de direita aos imigrantes.

Na Europa, a história se repete com o mesmo enredo centenário: imigrantes são bem-vindos para reforçar a mão-de-obra local em momentos de reconstrução nacional ou de forte expansão econômica; após anos de dedicação e engajamento à vida local, começam a ser alvo da violência e da segregação.

Assim vem sendo na Inglaterra, onde os recentes distúrbios na cidade de Bradford deixaram transbordar todo o ressentimento dos imigrantes paquistaneses e bengaleses que, nos anos 70 e 80, contribuíram para o boom da indústria têxtil local e que hoje, em um momento de recessão e fechamento das fábricas, têm dificuldade para encontrar novos empregos.

Nesta cidade inglesa, os imigrantes chegam a representar 15% da população total, enquanto que em toda a Inglaterra é de 5% o total das minorias étnicas.

O partido Frente Nacional, pertencente à direita radical, vem pregando abertamente, em violentas manifestações públicas, que os asiáticos sejam repatriados.

Também na Áustria, onde os imigrantes turcos tiveram papel preponderante na reconstrução pós-guerra do país, o líder racista Joerg Haider, cujo partido recebeu quase um terço dos votos num país com apenas 4% de desemprego, continua fazendo suas pregações xenófobas, estimulando o ódio aos turcos, que estariam supostamente tirando os empregos dos nativos.

O mesmo clima de intolerância é encontrado na França, berço de uma revolução que pregava a liberdade, a igualdade e a fraternidade. O líder ultradireitista Le Pen promete aos seus eleitores que, se levado ao poder, deportará imediatamente três milhões de imigrantes, incluindo os filhos destes nascidos em solo francês. Uma recente pesquisa mostrou que 67% dos franceses são declaradamente xenófobos.

A hipocrisia atual foi acentuada nesta semana, com a notícia de que a Alemanha necessita admitir urgentemente 50 mil novos imigrantes por ano para compensar a baixa taxa de natalidade no país (a estimativa é de que a população germânica irá sofrer uma contração de 25% nos próximos 50 anos, reduzindo drasticamente o total de 82 milhões de habitantes atuais).

O anúncio oficial já traz embutidas as condições para o ingresso em território alemão: ser jovem e ter conhecimento profissional. Imediatamente após a divulgação do plano governamental, os líderes de direita lançaram um slogan por todo o país: “Kinder statt Inder” – “Crianças ao invés de indianos”, conclamando o governo a aplicar os recursos na educação das crianças alemãs ao invés de fomentar a imigração. A Alemanha registrou um crescimento de 59% nas manifestações radicais de direita, crimes racistas e anti-semitas no ano 2000.

Todas as manifestações na Europa são, todavia, superadas em crueldade e indignidade pelo que vai acontecendo na Itália, onde se transformaram em uma praga nacional, com destaque para os estádios de esportes. As recentes cenas transmitidas por uma cadeia mundial de TV, durante uma partida de futebol, revelaram a que ponto podem chegar os extremistas raciais. Quando um jogador negro dominou a bola, uma verdadeira chuva de bananas foi jogada no campo aos gritos de “fora, negros” e “bananas para os macacos”. Um exemplo de intransigência são os torcedores do Lazio, que se transformam em verdadeiros filhos de Hitler quando assistem às partidas de seu time. As ofensas e agressões morais extrapolam até para agressões físicas. Algumas raras reações de jogadores indignados com os acontecimentos podem ser registradas, como os do time Treviso, que pintaram o rosto com graxa preta de sapato em solidariedade ao companheiro negro nigeriano Schengun Omolade, que foi ofendido pela própria torcida de seu clube com faixas que diziam : “Não queremos um jogador negro em nosso time.”

A imprensa brasileira vem noticiando uma proposta milionária do Lazio da Itália, que pretende adquirir o passe do zagueiro Juan por 10 milhões de dólares. Este é o time cuja torcida já agrediu o jogador brasileiro Antônio Carlos, do Roma, e perdeu o mando de campo por incitamento racista em pleno estádio.

Aqui fica uma sugestão a este jovem negro, atleta brasileiro de 22 anos, com um brilhante futuro profissional: recuse o convite e não troque o Brasil pela Itália, pois moedas não resgatam a dignidade. Diga não aos xenófobos e racistas.



Osias Wurman, jornalista
Artigo publicado em O GLOBO, dia 13/07/01

 

                 

Direção
IRENE SERRA
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