Osias Wurman 

Ignorando o Holocausto   


Poderia ser questionada a pesquisa que acaba de ser divulgada pelo Comitê Judaico Americano sobre o conhecimento e os sentimentos dos brasileiros no que se refere ao Holocausto judaico durante a Segunda Guerra Mundial. Considerando, porém, que o estudo foi realizado pelo insuspeitável Ibope, os inesperados resultados tornam-se irrefutáveis. 

Saber que 77% dos entrevistados desconhecem totalmente o termo holocausto e que apenas 4% são corretos ao definir o significado da palavra é uma cruel radiografia de uma malignidade a ser combatida com urgência e com a profundidade que o caso requer. 

Este maciço desconhecimento da História, agora constatado, deve ser combatido não apenas pela comunidade judaica, mas por todas as etnias e grupos que foram igualmente discriminados e trucidados pela loucura nazista, inclusive os que foram acrescentados nas listas dos atualmente discriminados. Quando perguntados sobre a perseguição de outras minorias durante a guerra, 85% dos brasileiros mostraram desconhecer totalmente este fato. Ignoram que, além dos judeus, testemunhas de Jeová, ciganos, homossexuais e deficientes físicos também foram vítimas selecionadas por Hitler para serem executadas pelos alemães na década de 40. 

Atualmente, os herdeiros deste monstro em todo o mundo estenderam a perseguição institucional aos negros, asiáticos, africanos e imigrantes em geral. No Brasil, os nordestinos também povoam as listas de ofensas e agressões morais que são criminosamente disseminadas nas páginas da internet pelos radicais de extrema direita e seus asseclas. 

Outro alerta emitido pela pesquisa refere-se às respostas dos brasileiros quando indagados se gostariam de ter diferentes opções étnicas como vizinhos. Mais da metade dos entrevistados (56%) não gostaria de morar ao lado de ciganos, 37% de judeus, 32% de árabes, 31% de asiáticos e 24% de latino-americanos. Nota-se uma inesperada rejeição popular às minorias, baseada em preconceitos, na propaganda racista ou na má informação. Este fato preocupante fica notório quando 82% dos entrevistados dizem não conhecer nenhum judeu pessoalmente mas, como acima mencionado, 37% rejeitam a idéia da vizinhança. 

Esta pesquisa foi realizada pela entidade judaica em outros 12 países, sendo que o maior grau de desconhecimento histórico foi registrado no Brasil. O objetivo maior é detectar os locais onde a memória coletiva dos eventos ligados à Segunda Guerra Mundial esteja abaixo dos níveis justificáveis. Ações de esclarecimento das massas serão desenvolvidas junto aos governos dos países pesquisados com o intuito de instruir esta geração, corrigindo as distorções alimentadas pelo desconhecimento. 

O mundo democrático e, em especial, o governo brasileiro não podem permitir que a ação nefasta de grupos racistas que fomentam o ódio entre irmãos, baseados nas suas diferenças étnicas ou raciais, cresça sem receber enérgica e efetiva repressão. 

No campo da educação escolar, o Brasil deve seguir o exemplo da França, onde o primeiro-ministro Lionel Jospin tornou obrigatório nas escolas públicas o ensino sobre o que foi a ocupação alemã naquele país e principalmente a página vergonhosa do governo colaboracionista de Vichy, que deportou 90 mil judeus para campos de concentração, incluindo 7.500 crianças francesas. Especial destaque é dado ao Holocausto. 

Também uma ampla campanha de divulgação de obras literárias como as do sobrevivente de campo de concentração Primo Levi, que emociona seus leitores quando relata a fidelidade judaica às tradições milenares no personagem Mendel, um prisioneiro que, mesmo doente e faminto, fazia questão de jejuar no dia de Yom Kippur — o dia do perdão religioso. 

Ignorar os sinais desta pesquisa é ignorar uma realidade que atinge importantes grupos minoritários do povo brasileiro. Ignorar a existência de traços preocupantes nos dados divulgados é atitude irresponsável dos amantes da paz e da harmonia racial. Ignorar a necessidade de providências imediatas para corrigir estas manchas negras é ser conivente com o esquecimento do mais terrível capítulo da História: o genocídio de seis milhões de inocentes. Enfim, é ignorar o Holocausto. 

OSIAS WURMAN é jornalista.



 

    
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