Jane Bishmacher de Glasman

         Apesar do nome “Páscoa” ter origem numa festa judaica, hoje ele é mais associado ao feriado cristão. Da mesma maneira, muitos judeus tradicionais associam o Pessach a uma ceia, assim se referindo ao Seder. 

Só que, na verdade, Seder significa ordem, em hebraico, relacionando-se aos 14 itens a serem seguidos e apenas o 10º passo, o Shul’han Orekh, corresponde à refeição propriamente dita.

Gostaria de me deter no passo que o antecede, o 9º, Korekh, que consiste em comer matzá (pão ázimo) com maror (erva amarga) juntos. Das 3 matzot que são colocadas sobre a mesa do Seder, pega-se a de cima,  quebra-se a mesma em duas partes e com ervas amargas forma-se um sanduíche.  Como se lê na Hagadá (= narrativa, correspondendo ao livro que se lê no Seder): “Na época do Templo, Hilel juntou a matzá e as ervas amargas a fim de obedecer ao preceito bíblico: ‘Comerão juntos a oferenda de Páscoa com matzá e maror’ ”. Desta maneira, surgiu o “sanduíche de Hilel” .

         As pessoas geralmente pensam que a origem do sanduíche é alemã, quando um homem resolveu comer uma salsicha dentro de um pão. Pelo registro histórico-literário apresentado na Hagadá e representado no Seder, vemos que o sanduíche é judaico: dois pedaços de matzá com recheio de erva amarga. E mais: sanduíche vegetariano com toques de comida típica japonesa (o wasabi usado para confeccionar sushis é a nossa erva amarga). 

Por tudo isso, nada mais “fashion” do que o milenar Sanduíche de Hilel! É certo que o gosto não é dos mais apetitosos. Mas devemos lembrar que, embora o Seder de Pessah gire em torno de alimentos, eles têm um caráter mais simbólico que comestível. Tanto que a principal bandeja que se coloca à mesa, a Keará, não é para ser consumida - sua função é pedagógica.

         Ouvi há pouco tempo de um rabino americano (e ortodoxo!) que, de forma jocosa, poderíamos resumir as festividades judaicas à seguinte lógica e ordem:  “Tentaram nos destruir. Deus nos salvou. Vamos comemorar comendo!”

        Infelizmente uma série de aspectos ritualísticos e históricos associados a Pessah foram responsáveis pela morte de milhares de judeus. Marranos ou cripto-judeus (cristãos novos que mantinham seu judaísmo em segredo) eram particularmente vigiados e presos em Pessah como hereges, pela Inquisição.  A acusação de “assassinato ritual” paradoxalmente levou ao massacre e expulsão de diversas comunidades européias: os judeus eram acusados de matarem criancinhas cristãs para confeccionar matzá com seu sangue (?!), o que é um absurdo para quem tenha a menor idéia de Kashrut (leis dietéticas e de pureza judaicas) que proíbe terminantemente a ingestão de sangue.  Isto, sem falar na acusação milenar de “judeus deicidas” (judeus acusados como assassinos de Jesus), seguida de malhação de judas - prática tão conhecida nossa no Brasil... Ou a super faxina anual de Pessah, que aliada a outras práticas judaicas de caráter higiênico (como os banhos, trocas de roupas, cuidados com os mortos, doentes, etc.), pouparam os israelitas através da história de morrer tanto quanto os demais, em epidemias como a Peste Negra - e que novamente por isso, foram acusados de causá-las, determinando sua perseguição e massacre...


         Embora nas últimas décadas a Igreja Católica, particularmente, tenha se empenhado em reconhecer erros do passado e pedir perdão por eles, determinados preconceitos são muito difíceis de serem desarraigados da cultura popular, que, no nosso idioma, determinou até conotações vocabulares negativas e pejorativas, como judiar, judiaria, judiação, e  a associação de judeu a usurário, imagem tão freqüente no anedotário ocidental.


         Como verdade histórica, os judeus, originariamente pastores, agricultores, artesãos e profissionais liberais, foram forçados a se dedicar ao comércio por restrições impostas a eles na Idade Média, como possuir terras, etc..


Jane Bichmacher de Glasman é Coordenadora do Setor de Estudos Hebraicos, 
Professora da UERJ e do ISTARJ.

 

  

 




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IRENE SERRA
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