Bruno Kampel
 

A ESQUERDA DA ESQUERDA E O CONFLITO ISRAEL-PALESTINA
(O fanatismo é o verdugo de todas as idéias)



Como manifestava o recentemente falecido Edward Saïd numa palestra logo após ter recebido o Prêmio Príncipe de Astúrias da Concórdia - muito justamente compartilhado com Daniel Baremboim - uma parte da esquerda, pelo menos no que diz respeito ao conflito palestino-israelense, deixou-se arrastar cegamente pelas consignas soviéticas de obrigado consumo, e paralelamente por um anti-semitismo atávico, até que de repente essa gente descobriu que para cumprir com as consignas ou atender aos reclamos do seu ódio genético deviam apoiar a regimes que matavam aos esquerdistas, ou que os expulsavam de seus países, ou que os condenavam a terríveis penas de prisão perpétua, como era e é o caso de TODOS os países árabes, de TODOS os emirados, os principados, os sultanatos e das repúblicas fundamentalistas.

E aí estão eles hoje, levados por um ódio cego e uma repulsa visceral aos judeus em geral e ao governo de Israel em particular (muitas vezes com razão no que ao governo Sharon se refere, mas carentes de qualquer legitimidade por extender o seu ódio à globalidade do povo judeu e pondo em dúvida o direito de existir do Estado de Israel), atuando da forma mais burda e vil que se possa imaginar, prejudicando quase irremediavelmente com as suas atitudes indignas a justa causa do povo palestino.

Refiro-me a aqueles que produzem um discurso totalmente alheio aos princípios da Autoridade Nacional Palestina - que simboliza a vontade soberana do povo palestino - porque enquanto esta fala desde o pragmatismo, eles o fazem desde os intestinos.

Falo daqueles cujo ideário não é o da maioria abrumadora do povo palestino mas o discurso dos grupúsculos de fanáticos fundamentalistas que propõem o incêndio e não o oásis, o apocalipse e não o nirvana, porque o único que o povo realmente quer é viver em paz depois que o ocupante se retire às fronteiras de 1967 (sim, atenção, enquanto o ultra-radicalismo minoritário deseja apagar do mapa o Estado de Israel, 90% dos palestinos o aceitam ainda que seja como um mal menor, já que sabem que jamais poderão "jogar todos os judeus no mar").

Sim, aponto em direção daqueles cujo discurso se transforma no suporte argumental que outorga o nihil obstat aos que colocam bombas humanas nas escolas e nos restaurantes e aos que os treinam e os inspiram, e não aos que tentam apagar os incêndios convidando ao diálogo, ou aos que se propõem asfaltar os precipícios tendendo pontes sobre a pior das fronteiras, que é nada mais e nada menos que o ódio sem fronteiras.

Os terroristas dos suicídios por um lado e os dos bombardeios coletivos ou assassinatos seletivos pelo outro discursam em árabe ou hebraico, e os terroristas da palavra o fazem em todos os idiomas, e todos repetem em uníssono o mesmo terrível e desafinado estribilho, produto do ódio cego que já alimentava a conduta do Mufti de Jerusalem nos anos quarenta, e que sempre alimentou e continua alimentando a Ariel Sharon e alguns dos seus ministros, ou aos líderes de Hammás, da Jihad, de Hezbollá e de outros menos votados.

O discurso desses "esquerdistas" é cópia fiel da verborragia da extrema direita judaica, bastando mudar palestinos por judeus, pátria palestina por pátria judia para ver que o fascismo de Sharon e a sua trupe, associado ao fundamentalismo judeu por um lado (minoritários dentro do Estado de Israel) e o fascismo palestino somado ao fundamentalismo islâmico pelo outro lado (minoritários dentro do povo palestino) dizem e fazem exatamente o mesmo, porque ambos são guiados pelo ódio ao outro, e ambos usam a mentira como argumento e as meias verdades ou as promessas divinas como consignas.

Todo aquele que depois de condenar um bombardeio sobre a população civil de Gaza ou de Jenin adiciona un mas..., ou quem condena um atentado praticado por um suicida e na mesma frase acrescenta um porém..., é tão terrorista como quem bombardeou Gaza ou como quem se fez voar pelos ares dentro de um restaurante, porque nada, absolutamente nada, justifica o bombardeio de população civil ou o extermínio de pedestres ou de inocentes passageiros de um ônibus ou de famintos comensais.

Quem trabalha para criar o Grande Israel bíblico e expulsar os tres milhões de palestinos da "terra santa", o faz baseado numa hipótese sem fundo nem futuro, porque jamais se transformará em realidade, e aquele que atúa para que os judeus sejam expulsos de Haifa e de Yaffo, de Tel-Aviv e Ashkelon, trabalha sobre uma hipótese que jamais poderá demonstrar, e ambos conjuntamente juntos arrastam à morte em carne e osso a cidadãos inocentes que o único que querem é viver em paz.

Todo aquele que para atribuir-se o direito sobre um pedaço de terra inventa um povo palestino estável durante mais de... dez mil anos!... como alguns se atrevem a afirmar, numa região na qual a população era fundamentalmente nómade e o territorio um "posto de gasolina" para as caravanas que transitavam da África para a Babilônia e vice-versa, esquecendo de mencionar o fato de que nessa época os habitantes não eram nem judeus nem cristãos nem muçulmanos, o único que consegue é mostrar e demonstrar sua má-fé ou a sua supina ignorância, já que a população autóctone foi modelando-se e atomizando-se ao longo dos milênios em castas e credos e povos diferentes, e não por isso uma tem preferência sobre as outras ou detém o título de propriedade da "palestinidade" das pessoas.

Aquele que usa o nome de deus para outorgar-se direitos sobre um pedaço de terra, invocando argumentos do tipo de "somos o povo escolhido", o único que consegue é mostrar as pernas de pau de suas idéias e princípios, já que território e soberania não são milagres divinos mas realidades concretas, resultantes de guerras ou de compromissos, e se isso fosse pouco, demonstra que o seu olhar unilateral não conduz nem à paz nem ao paraíso, mas leva direto ao cemitério e ao inferno.

O "esquerdista" que esquece que o Estado de Israel nasceu com o apóio total e decisivo da União Soviética, e que as alianças posteriores do Kremlin com os príncipes e emires e califas e reis (todos eles anti-comunistas ferrenhos e exploradores de seus respectivos povos) foi uma conseqüência da bipolarização, da guerra fria, e não de afinidades ideológicas, sofre de amnésia seletiva que o inabilita para usar o esquerdismo como escudo e bandeira.

Aquele que associa a palavra nazismo com o povo judeu é um nazista que tenta transferir culpas. Freud o explica.

O fato de que o Estado de Israel tenha nascido sobre uma parte ínfima do território "palestino", gerando assim injustiças das que foram vítimas muitíssimas pessoas que tiveram que abandonar suas casas, suas terras, suas raízes (umas atendendo ao pedido dos líderes árabes, que lhes mentiram dizendo que poderiam voltar num par de semanas, logo depois de que tivessem atirado a todos os judeus ao mar, e outros expulsos a ponta de baioneta pelo incipiente exército judeu), é terrível e imperdoável desde o ponto de vista humano, já que não se conserta um grande problema (o mea culpa que o mundo entoou por causa do Genocídio que sim existiu, que sim matou a milhões de judeus pelo simples delito de serem judeus), criando em troca um pequeno problema (assim é, e não ao contrário, porque inverter o tamanho do problema é falsificar a História).

Quando em Política falamos de Problemas Globais, não podemos olhar apenas a árvore, pois temos a obrigação de observar a floresta.

O tema se presta para continuar aprofundando a análise, mas sou consciente que para bom entendedor poucas palavras bastam, e que para quem não pode ou não quer entender, não há biblioteca que o convença.

Termino lembrando o fato de que ao longo da História muitas vezes idéias interessantes naufragaram graças ao mal uso das palavras escolhidas para explicá-las.

O discurso do ódio aos judeus como tais ou aos árabes pela simples razão de sê-lo, é a tumba de todas as idéias, de todos os princípios, de todos os valores, de toda esperança.

Sugiro a aqueles que se deixam levar pelo canto de sereia da generalização ou pelas arredondadas nádegas da odalisca que num bamboleio hipnótico transfere todas as culpas ao outro, que olhem com olhos despidos do luto com que habitualmente encaram os fatos, e mudem o tom dos seus discursos, porque não se trata de catequizar os participantes de um grupo fundamentalista, mas de procurar soluções viáveis que façam voar pelos ares em mil pedaços o ódio genético que habita na cabeça de muitos, e que bombardeiem definitivamente e sem trégua o desejo de vingança que se aninha na consciência de tantos escravos do medo.


NOTAS DO RODAPÉ

1.- Proibido esquecer que o tempo geralmente joga a favor do ocupante e contra o ocupado. Como exemplo servem Califórnia e Texas, ocupadas e anexadas pelos EUA. Por essa razão é que todos aqueles que rejeitam o diálogo e propõem a expulsão de "Palestina" de todos os judeus ou de todos os árabes, o que fazem é promover a perpetuação da ocupação, atuando como verdadeiros agentes do fundamentalismo judeu.

2.- Cuidado especial há de ter-se em relação aos anti-semitas que usam um "amigo" judeu para tentar provar que não o são. Na Rússia tzarista os anti-semitas diziam "moi jid, voi jid" - meu judeu, teu judeu - e sempre que atacavam aos judeus em geral tiravam de dentro da cartola a "moi jid", ainda que no fim das contas o entregavam por menos de trinta dinheiros.

3.- Que os fanáticos pró-palestinos entendam que o Estado de Israel das fronteiras de 1967 - gostem ou não - é uma realidade que não há Alá que modifique.

4.- Que os fanáticos judeus que operam sob a batuta de Sharon entendam que um Estado palestino soberano que compartilhe com Israel o uso de Jerusalem como capital, será uma realidade que não haverá Elokim que impeça.

5.- Alguém pode imaginar o que aconteceria com o povo palestino se Israel não existisse?... Viveria melhor?... Eu respondo. Aquele que acredite que Israel das fronteiras de 1967 é o pai de todos os males que afligem ao sofrido povo palestino, que faça uma visitinha ao Líbano e constate como vivem os palestinos lá. Que dê um pulinho até a Jordânia e visite os "campos de concentração" nos quais apodrece a maioria da população palestina, por sinal, majoritária nesse reino hachemita.

6.- Da mesma forma em que não poucos governos israelenses provocaram miséria, dor e morte nos territórios ocupados, o maltratado povo palestino não recebeu nenhuma ajuda daqueles que tanto gostam de falar em seu nome. Muito pelo contrário, foram e são marginalizados e explorados por emires, reis e presidentes que mandam nessas terras circundantes como verdadeiros senhores de escravos que são.

7.- Da mesma forma em que os fanáticos apresentam as suas idéias em todos os foros e instâncias, convido os progressistas de verdade a fazer o mesmo com as nossas, porque como todos sabemos, as moedas e os impostores têm duas caras, mas as pessoas de bem apenas uma. Eles mostraram as deles. Agora é a vez da nossa.


Bruno Kampel  é analista político, poeta e escritor
Reside atualmente na Suécia.

 




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