Carlos Brickman

A POSTURA DESTRA
 

Dizem que, quando Joseph Mengele chegou ao Inferno, foi imediatamente procurar seu chefe. Hitler estava curiosíssimo sobre os acontecimentos na Terra. E Mengele foi direto: Chefe, o mundo está virado. Os alemães estão ganhando dinheiro e os judeus estão fazendo guerra.

Nós, judeus, já fomos atacados pela incapacidade de resistir aos nossos inimigos. Éramos covardes, gente sem brio, servis e submissos. Agora somos atacados pela capacidade de resistir aos nossos inimigos. Somos violentos, prepotentes, sanguinários. Na verdade, para o anti-semita tanto faz o judeu ser indefeso ou guerreiro: ele não é criticado pelo adjetivo, mas pelo substantivo. É judeu, e pronto.

Não há como lidar intelectualmente com o anti-semita: milhares de anos de doutrinação geraram este tipo de gente e não é com argumentos, com debates, com provas que iremos convencê-los. Estes, precisamos manter à distância; a estes, temos de manter sob vigilância.

Mas há anti-semitas que não sabem que são anti-semitas, ou que sinceramente se consideram amigos dos judeus mas se comportam como anti-semitas. Com estes, é possível dialogar. Vou tratar de um só aspecto deste diálogo, que é a área na qual me sinto qualificado: o da comunicação.

Vejo dois tipos básicos de comunicadores que agem contra os judeus sem saber o que fazem:

Primeiro, os ideológicos, para quem Israel, como aliado dos EUA, faz parte da grande conspiração mundial liderada pelo imperialismo ianque. Eles se consideram anti-sionistas mas não anti-semitas (o tipo que tem grandes amigos judeus e respeita profundamente Einstein e Mendelsohn, mas não Sharon ou qualquer outro primeiro-ministro de Israel);

Segundo, os que, por falta de informação, espalham notícias sem base, ficam indignados com os judeus porque Israel utiliza sua supremacia militar na luta contra o terrorismo e consideram que os palestinos são as mais recentes vítimas do imperialismo.

Em ambos os casos, a comunidade judaica enfrenta, no que se refere aos meios de comunicação, uma série de problemas que precisam ser resolvidos diretamente, tanto no longo prazo como no dia-a-dia:

1. Desconhecimento dos fatos. Para boa parte dos jornalistas, os judeus e Israel são um mistério; e, enquanto a versão correta das notícias se limita aos jornais da comunidade, versões incorretas se multiplicam e tendem, como previa Goebbels, a transformar-se em verdade (recentemente, por exemplo, a Globonews informou que soldados israelenses foram os responsáveis pelo massacre dos campos de refugiados de Sabra e Chatila; e um jornalista que teria tudo para estar do nosso lado, o respeitado Célio Franco, do ABC, responsabilizou Sharon pelo massacre);

2. Viés ideológico. De acordo com a Fenaj, Federação Nacional dos Jornalistas, 70% dos profissionais brasileiros votam no PT. Isso significa que, sendo os EUA aliados de Israel, as posições israelenses são automaticamente pró-americanas, contrárias aos interesses populares e tendentes a beneficiar o imperialismo.

3. Viés social (derivado do item anterior). Os judeus são ricos, são um camada privilegiada da população, ajudam-se uns aos outros, mas sua visão é de casta, e de uma casta de elite. Se um goy se aproxima dos judeus com fins matrimoniais é repelido, porque judeu não aceita na família quem não seja judeu.

4. Resquícios anti-semitas. Dificilmente vai-se encontrar um brasileiro que seja efetivamente anti-semita; mas é fácil encontrar aqueles que consideram os judeus usurários, avarentos, capazes de tudo por um bom negócio. Há uma certa aceitação de práticas discriminatórias contra os judeus. Não faz muito tempo, num dos últimos governos militares, de Geisel ou Figueiredo, o chanceler iraquiano Tareq Aziz se recusou a participar de uma solenidade junto com o prefeito do Rio, Israel Klabin, e disse claramente o motivo da recusa: não participaria de cerimônias ao lado de um judeu. Não houve protestos da imprensa contra a agressiva atitude do diplomata estrangeiro. O ministro da Previdência de um dos governos militares, Jair Soares, disse com todas as letras que Albert Sabin estava a serviço do sionismo internacional, por criticar um plano de vacinação elaborado pelo Governo brasileiro.

5. A curiosa visão de que Israel, com menos habitantes do que o Rio de Janeiro e território menor do que o de Sergipe, é o Golias; e os árabes, com território e população maiores que os do Brasil, são David. Os palestinos são vítimas, os israelenses são conquistadores; são balas, tanques e canhões de um lado contra pedras do outro; são soldados israelenses contra bebês palestinos. Os homens-bomba são apenas michignes, não expressam uma política palestina de incentivo ao terror; e, veja só, são suicidas, em vez de homicidas.

Há mais, evidentemente, e não é preciso listar esses problemas que qualquer membro da comunidade conhece a fundo. Mas agora vem a boa notícia: existe, sim, dentro das técnicas de comunicação e de gerenciamento de crise, uma maneira correta, eficiente e ética de enfrentá-los. É simples: contra a escuridão, a luz. Contra as mentiras, a verdade.

Há pouco falei em gerenciamento de crise. É uma técnica relativamente moderna, que surgiu para defender os alvos da artilharia da imprensa. É eficiente; é uma das áreas em que meu escritório de comunicação se especializou e em que tem realizado numerosos trabalhos.

Com certa frequência, acontece com uma empresa, ou com um homem público, ser atingido por uma série de acusações. Algumas são corretas; outras são falsas; uma boa parte, eu diria que a maior parte, traz uma verdade incompleta coberta por uma blindagem de mentiras, ou de má interpretação dos fatos. É mais ou menos o que acontece com os judeus: de repente, os alvos dos meios de comunicação somos nós. E temos de defender-nos, na área de comunicação, usando as técnicas da comunicação.

Já existem, especialmente nos EUA, ótimos especialistas em gerenciamento de crise trabalhando em benefício da comunidade. Vou citar apenas um, que me impressiona pela qualidade do trabalho: o Honest Reporting, que mapeia a grande imprensa internacional e insiste com os editores em corrigir as notícias sempre que há necessidade. O Honest Reporting desenvolveu maneiras de expressar-se que, de tão boas, adotei como normas em meu escritório.

O Honest Reporting as chama de Quatro Regras Cardeais do ativismo na comunicação: concisão (foco no erro, nos números, nos fatos, não em generalidades vagas que possam ser desmentidas); precisão (as reclamações devem ser factuais, nossas provas devem ser irrespondíveis, e sempre que possível devemos citar a fonte da informação correta); educação (sem insultos, para não colocar o meio de comunicação na defensiva); e persistência. Dá trabalho, amigos. Muito trabalho. Mas funciona.

Como se faz este trabalho, tanto para empresas como para a comunidade ? Como isso funciona, em termos práticos?

É essencial:

1. Acompanhar minuciosamente o noticiário, os programas de rádio e TV, os jornais, a Internet, e responder imediatamente, dentro dos princípios da concisão, precisão, educação e persistência, a cada inverdade, a cada agressão, a cada resquício de anti-semitismo. Contra os mitos do obscurantismo, nada melhor do que a exposição à luz do Sol.

2. Encaminhar aos veículos de comunicação, o mais rapidamente possível, os pontos de vista da comunidade em relação aos fatos que sejam de seu interesse.

3. Ter disponibilidade permanente para atender aos veículos de comunicação, seja divulgando informações, seja concedendo entrevistas ou declarações, seja disputando espaço para divulgação e resposta.

4. Dispor de prestígio jornalístico junto aos meios de divulgação, de maneira a facilitar a divulgação do material necessário a repor a verdade.

5. Estar apto a fornecer artigos para as principais publicações. Os artigos têm baixo índice de leitura, mas dão prestígio; e os poucos que os lêem são formadores de opinião.

6. Ser hábil o suficiente para evitar choques frontais com os veículos de comunicação (e, se for possível, até mesmo com os jornalistas, mesmo os mais agressivos). Caso haja possibilidade, devemos matar a fera; mas devemos evitar feri-la. É imprescindível manter boas relações com veículos e profissionais que continuarão vivendo a nosso lado e escrevendo a nosso respeito.

7. Centralizar a resposta da comunidade. Claro que não podemos impedir que um judeu indignado diga que a Rede Globo está fazendo propaganda anti-semita; mas deve ficar claro quando a comunidade está falando (sempre dentro das normas do Honest Reporting). Não pode ser a mesma coisa um posicionamento da comunidade e um de um cidadão indignado – este, muitas vezes sem razão.

Tudo isso, enfim, é indicativo; não adianta conhecer os princípios sem ampla dose de trabalho braçal e muita infra-estrutura para suportar a carga.

A pior parte deste trabalho é a repetição. Corrige-se o erro hoje, amanhã, sempre. Se alguém deixa de cometer o erro, sempre haverá outro que o cometa. Erros já cometidos são quase eternos, já que ficam nos arquivos, prontos para ressuscitar (e ser novamente desmentidos). Esta repetição não deve, apesar de tudo, matar a urbanidade: nós repetimos, mas o receptor está ouvindo nossa versão pela primeira vez.

Resolve ? Resolve, do ponto de vista da comunicação. É uma batalha sem fim, mas gera-se um equilíbrio que hoje não existe na imprensa.

Muitas outras coisas podem ser feitas, sempre do ponto de vista da comunicação. Ações tendentes, por exemplo, a expor a vida judaica à população em geral. Vou apenas exemplificar (não tenho condições de saber se aquilo de que estou falando é ou não viável). Digamos, convidar o público para nossa festa de Purim, da mesma maneira que os católicos italianos que vivem no Brasil comemoram em público a festa de Nossa Senhora Achiropita. Ou um grande Seder comunitário de Pessach, com todo o ritual, aberto a grupos específicos de goyim – digamos, os moradores da favela atendida pelo Hospital Albert Einstein. Temos na comunidade gente altamente capacitada para criar eventos de relações públicas que podem ter bons efeitos na construção e reforço da imagem da comunidade judaica em São Paulo.

Mas não esqueçamos: todo este trabalho de imprensa, de gerenciamento de crise, de relações públicas, tudo isso resolve uma parte do problema, aquela que acontece nos meios de comunicação. Mas nada resolve do ponto de vista geral, daqueles que são conscientemente anti-semitas, e que responsabilizam Marx, Freud e Marcuse, por judeus, por todos os males do mundo. Isso exige outro tipo de ação. Mas não desanime: minha avó Maria, que veio da Ucrânia para Franca no inicio do século passado, sempre me ensinou que é duro ser judeu. E nós somos judeus, continuamos judeus, enquanto os vários Reichs que tentaram nos esmagar desapareceram da face da Terra.


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Carlos Brickman é jornalista

Palestra sobre “Estratégias na luta contra o anti-semitismo no Brasil” proferida para a reunião da B’nai Brith que teve como tema “Anti-semitismo e insegurança hoje”.


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