Bruno Kampel
 

GERANDO ANTI-SEMITISMO



Todos os canais. Todos os países. Todos os dias:

Cena 1:
Gaza ou Jenin ou Ramalla ou Rafíah. Helicópteros israelenses bombardeiam a casa de um suspeito de terrorismo. A câmara flagra o momento crucial em que a casa se desmorona junto com as casas vizinhas e as não tão vizinhas. Também se vê um ônibus que por ali passava ardendo em chamas.

Cena 2:
As imagens mostram restos de crianças e mulheres entre os escombros das casas nas quais não morava o suspeito de terrorismo, mas inocentes vizinhos. O telespectador de todos os canais em todos os países pode até “sentir” o cheiro de carne queimada.

Cena 3:
Enfoque do ministro do Turismo de Israel quando declara em nome do governo Sharon que há que matar a todos os possíveis terroristas e expulsar aos palestinos de suas terras e anexar os territórios ocupados e ficar com as azeitonas das árvores dos palestinos, porque deus assim o quer.

Cena 4:
Ariel Sharon declara que continuará matando a quem for necessário para manter a segurança em Israel. Como pano de fundo, 15 ou 20 corpos destroçados pelas bombas israelenses.

(Intervalo comercial em todos os canais de todos os países, no qual o telespectador é convidado a esquecer as cenas horríveis que assistiu e comprar o sabonete que o fará conquistar o mundo, e depois a escolher a marca de cigarros que o transformará num Apolo ou numa Vênus de Milo, e finalmente fica sabendo que por apenas um dinheirinho mensal poderá viver em paz para sempre, bastando para que isso seja uma realidade comprar a Enciclopédia da Felicidade Eterna pelo reembolso postal)

Cena 5:
Tanques israelenses disparam contra crianças armadas com atiradeiras. Uma delas morre por efeito dos danos frontais de tais disparos, cena que irá repetir-se durante todo o dia em todos os canais de todos os países.

Cena 6:
Uma família palestina em prantos pede licença a um soldado de Israel para entrar na sua própria casa. O soldado recusa.
Neste ponto, o telespectador de todos os canais, em todos os países e todos os dias, muda de programa, ainda que um gosto amargo fica na sua boca, e uma certeza na sua alma: o governo de Israel é o grande responsável por esses crimes de guerra.

Fim de papo?... Não. Começo do anti-semitismo kafkiano. Como?... Assim:

Cena 1:
O telespectador - alimentado pelas notícias que recebe diariamente - passa a nutrir um desprezo profundo pelo atual governo de Israel devido às ações que pratica, mas tal ódio não é extensivo aos cidadãos do Estado de Israel nem muito menos à generalidade do povo judeu.

Cena 2:
Uma pesquisa de opinião em Israel - transmitida em todos os noticiários de todos os canais em todos os países - mostra um resultado que indica que quase 70% dos israelenses apóiam os ataques preventivos, os assassinatos seletivos, a destruição e o bombardeio de casas de suspeitos ainda que morram vítimas inocentes, etc...

O telespectador, ao ouvir tais notícias, além de já nutrir desprezo pelo atual governo de Israel pelas ações que pratica, passa a incluir nesse desprezo aos cidadãos do Estado de Israel por apoiá-las, mas não estende o ódio ao povo judeu em geral.

Cena 3:
Todos os canais, em todos os países, divulgam as declarações dos líderes comunitários do establishment judeu na diáspora, que declaram que o povo judeu é solidário com o atual governo de Israel.

O telespectador, ao ouvir diariamente tal tipo de declaração dos porta-vozes da coletividade judaica da sua cidade ou de seu país, além de nutrir desprezo pelo atual governo de Israel pelas ações que pratica, e pelos cidadãos do Estado de Israel por apoiá-las, passa a desprezar ao povo judeu em geral por justificar essa barbárie. Então é quando o telespectador de todos os canais em todos os países passa a ser acusado de anti-semita pelos verdadeiros responsáveis dessa metamorfose.

Fim de papo?... Quase. Faltam uns poucos detalhes:

Cena única:

O telespectador de todos os canais em todos os países recebe a informação de que um suicida palestino entrou num ônibus e matou a 30 inocentes judeus. A câmara não mostra os restos despedaçados das vítimas inocentes porque como os suicídios não se avisam antecipadamente, o cinegrafista chegou depois do evento, mas mesmo assim o telespectador fica horrorizado, pelo menos o tempo suficiente até que a lembrança dos bombardeios e assassinatos seletivos e coletivos do atual governo de Israel, e as imagens dos pedaços dos corpos das crianças palestinas mortas nesses bombardeios, façam que muitos considerem e aceitem passivamente o fato de fato inaceitável de que lamentavelmente essa é a única resposta de um povo sem exército nem tanques nem helicópteros nem F-18 nem liberdade de ir-e-vir nem água nem direitos, aos ataques de um exército poderoso como o de Israel, que é a força que mantém ilegal e militarmente ocupada a uma região com mais de três milhões de seres humanos, e isso contra a vontade explícita de todo o mundo (inclusive dos Estados Unidos).

Fim de papo?... Sim e não. O diagnóstico está feito. Agora é a vez do tratamento. Conhecidas as causas e os efeitos, corrige-se, e então, sim: fim de papo. Ou deixa-se correr, e então, fim de papo. Um fim de papo conduz ao paraíso. O outro, ao inferno. Que cada um escolha o seu.


Bruno Kampel  é analista político, poeta e escritor
Reside atualmente na Suécia.

 




Editoria e Direção
IRENE SERRA
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