Bruno Kampel
 

SOMANDO MORTOS INOCENTES


Como sempre quando são muitos, os mortos inocentes não têm nome nem sobrenome do qual possamos agarrar-nos para retê-los na memória coletiva dos sobreviventes.

Um número os define e uma data os representa. Duzentos em Madri no dia 11 de março de 2004. Onze em Ashdod tres dias depois. Uns tres mil em Nova Iorque no 11 de setembro de 2001; trinta mil desaparecidos na ditadura argentina de 76 a 83; seis milhões no Holocausto made in Hitler de 39 a 45.

Uma data e um número que apenas aqueles que têm alguém muito próximo atrincheirado sob esse epitáfio matemático sabem transformá-lo no nome do seu morto predileto.

Os culpados como sempre se dividem em castas de todas as cores. Os párias que colocam a bomba. Os sargentos que os treinam. Os capitães que os armam. Os generais que lhes emprestam a tática e a estratégia. Os gurus que os catequizam. Os políticos que lhes oferecem as consignas, a História mal contada que lhes presenteiam os motivos.

Seus nomes são um detalhe de somenos importância. Servirá o que melhor atenda aos interesses do momento e aos manda-chuvas de turno.

Será ETA na Espanha enquanto o poder ache que serve para ganhar as eleições.

Será Al Qaida em qualquer lugar do mundo enquanto a Bush e a Tony Blair e seus asseclas menos votados lhes interesse continuar assustando ao mundo, como se Al Qaida não bastasse a si própria para isso.

Serão as FARC quando o governo da Colômbia as use para ocultar seus próprios crimes, e será o governo da Colômbia quando as FARC quiserem vingar esses assassinatos.

Será Israel quando convenha aos que não se conformam com a sua existência, e será o fundamentalismo palestino quando se busque culpabilizar ao deus do outro.

Como sempre, sejam quem forem os assassinos, o impacto das massacres durará menos do que os mortos se merecem, porque a vida encarrega-se sempre de passar um pano molhado sobre a realidade e pendurar nas manchetes algum assunto que as enterre para sempre, como um cantor de moda que se divorcie. Uma princesa que morra assassinada. Um casamento entre famosos. A estréia do filme longamente esperado. A festinha na casa de amigos. O sábado à noite. O chopinho no boteco. O salário depositado na conta. Uma boa piada. Uma semana. E sem que tenhamos reparado, Inês é morta.

Sim. a eternidade dura como máximo um par de dias. Depois ela é metamorfoseada pela tipografia que imprime os livros de História contando quase sempre a versão deturpada dos fatos.

Dizem os que sabem, que há longas filas de atentados esperando embarcar-se no trem ou no ônibus ou no avião no momento oportuno, na situação favorável, na ocasi«ao menos pensada, para em nome de Alá ou de Jeová ou de Elokim ou da Paz ou da Democracia ou do diabo que os carregue transformar o tudo em nada, o trem e o ônibus e o avião em cemitério coletivo, e o futuro em miragem, e a esperança em fracasso.

Isso dizem os que pensam que sabem o que dizem, enquanto nós, anônimos passageiros deste trem e deste ônibus e deste avião, o único que queremos é viajar para chegar em paz ao nosso destino.


(Pensado e escrito sob o impacto dos atentados de Madri e Ashdod. Cidades-irmãs pelo pacto de sangue imposto pelos fabricantes da desvergonha), o inferno. Que cada um escolha o seu.


Bruno Kampel  é analista político, poeta e escritor
Reside atualmente na Suécia.

 




Editoria e Direção
IRENE SERRA
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