VARIEDADES


   
Nathan Sharansky

O nexo da vida judaica

 
Recentemente, 400.000 judeus reuniram-se fora dos muros da Cidade Velha e juraram fidelidade à Jerusalém. Agindo dessa forma, os que assistiram à reunião, juntamente com seus partidários, em Israel e no exterior, uniram as incontáveis gerações de nosso povo que afirmaram nossa patriótica recusa permanente de voltar atrás naquilo que mantemos de mais sagrado.

Em todas as gerações, o povo judeu enfrentou uma clara e freqüente escolha dolorosa. Estas opções assumiram muitas formas diferentes ao longo de nossa história:- desde a conversão na Idade Média até a assimilação na Idade Moderna, ela permaneceu essencialmente a mesma –ser fiel à nossa fé, tradição e povo, não importando as conseqüências, ou fugir à nossa identidade na esperança de que isto permitiria um certo grau de paz, quietude e aceitação.

Nós estamos aqui em Israel, hoje, precisamente como judeus, porque nossos antepassados recusaram-se a optar por soluções do tipo "paz agora", não importando o quanto difícil seria a alternativa. É por isso que o espírito dos judeus, tão diverso como os que lutaram contra a assimilação grega, rebelaram-se contra a tirania romana, preferiram morrer a se converterem e rejeitaram um plano para construir um lar nacional em Uganda, estavam todos conosco esta semana. Ainda que não estivessem presentes fisicamente, a idéia que justificou sua luta perdura.

Nas últimas semanas e meses, as intenções hostis daqueles com quem nós buscamos fazer a paz foram desmascaradas. Não resta dúvida de que é óbvio para todos que não são cegos que a liderança palestina ainda não está preparada para viver em paz conosco e que nestas circunstâncias as concessões somente conduzirão a mais violência. Mas quando se trata de Jerusalém, isto foge à questão principal. O povo judeu precisa recusar dividir Jerusalém, não porque nossos vizinhos não desejam a paz, mas porque até mesmo a paz não vale qualquer preço, e a paz que exige que nós sacrifiquemos nossa identidade como nação e arruinemos nossa conexão como um povo é uma paz que deve ser rejeitada.

Jerusalém não é somente a capital de nosso país, mas também o pilar de nossa existência – a ligação da vida judaica nacional e religiosa. Durante 1000 anos de vida na Terra de Israel, foi aqui que nossos sacerdotes rezaram  nossos profetas pregaram e nossos reis reinaram. Durante os 2000 anos de exílio, foi a fonte de nossas esperanças e aspirações, simbolizando nosso sonho de retorno à Sion, reunindo nosso povo e reconstruindo nossa nação.

Aqueles que apóiam a divisão de Jerusalém nos dizem que isto é apenas um "símbolo". Mas se houve um povo baseado em símbolos, foram os judeus. Nós preenchemos nossos dias, meses e anos com uma multidão de símbolos de fé, tradição e herança que dão significado às nossas vidas e propósito à nossa história. Jerusalém, talvez mais que qualquer outro, provou ser o mais forte símbolo de todos.

Eu sei a imensa capacidade deste "símbolo" para autorizar aqueles que invocam seu nome e acreditam em sua força. Mais de duas décadas atrás, eu disse as seguintes palavras a um Tribunal Soviético que me condenou a 15 anos de prisão por meu trabalho como ativista judeu: "Por 2000 anos o povo judeu foi dispersado ao redor do mundo e aparentemente privado de qualquer esperança de retorno. Ainda assim, cada ano judeus tem obstinadamente dito uns aos outros "No ano que vem em Jerusalém", e hoje, quando muitos anos difíceis de prisões e campos de detenção aparecem diante de mim  eu disse para minha esposa e para meu povo : "No ano que vem em Jerusalém".

Nesta semana, juntamente com minha família, escrevendo estas palavras em nossa histórica cidade-capital, com o líder do Estado Judeu virando as costas às centenas de gerações que vieram antes dele e concordando em negociar a mais sagrada parte da nação por uma promessa de paz, eu digo ao meu velho povo: "No ano que vem em Jerusalém".

 Nathan Sharansky – foi dissidente na antiga União Soviética onde cumpriu pena de prisão até imigrar para Israel em 11 de fevereiro de 1986. Já foi ministro de estado, é membro do Knesset (parlamento) e líder do partido Israel Ba’aliya que congrega os imigrantes russos. Este artigo foi escrito alguns dias antes das eleições em Israel.
       

Traduzido e adaptado por Suzana Wurman.

 

                 

Direção
IRENE SERRA
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