VARIEDADES



Osias Wurman

Lágrimas de Abraão

 
O patriarca bíblico Abraão teve dois filhos - Ismael e Isaac. O primeiro foi filho de Agar, serva de sua mulher Sara que, não conseguindo conceber, cedeu a seu marido a escrava para procriar. Ismael é o pai do povo árabe. O segundo filho foi gerado posteriormente por Sara, já em idade avançada, e é a raiz do povo judeu. Abraão era descendente do filho de Noé – Sem – de onde se origina a designação de "semitas" para árabes e judeus. Muitos foram os inimigos que historicamente atentaram contra a existência dos "filhos de Abraão", porém a força da fé em um Deus único, trazida ao mundo de maneira clara e definitiva pelo patriarca, serviu para mantê-los resistentes e vibrantes até nossos dias. O pacto da circuncisão, marca física do monoteísmo, é respeitado há mais de 3800 anos. Estas profundas afinidades de origem também estão presentes nas religiões em que se desdobraram estes dois ramos familiares: o judaísmo de Moisés e o islamismo de Maomé.

Em nossos dias, merece uma especial atenção o momento de ódio e terror que vigora na outrora Canaã, a terra prometida aos descendentes de Abraão, conforme consta no Velho Testamento. Israelenses e palestinos encontram-se numa terrível e perigosa escalada nos conflitos diários que, por tornarem-se rotina nos últimos seis meses, já nem merecem as manchetes dos noticiários. Uma perigosa radicalização das partes envolvidas poderá resultar num banho de sangue que sepultará, definitivamente, as esperanças de paz para a região, construída após os acordos de Oslo, em 1993. Desde então, já foram mortos em combates ou atentados, mais de 500 israelenses e, apenas nos últimos conflitos, mais de 360 palestinos. Lamentavelmente, a história desta geração está sendo manchada pelo ódio e a intolerância entre povos com a mesma origem e destinados a viverem como vizinhos.

No próximo sábado, o povo judeu estará comemorando o início da Páscoa – o Pessach. Este evento histórico marca a passagem da escravidão para a liberdade; a saída do Egito para a terra de Canaã; a transformação de um povo nômade em mensageiros de um novo padrão ético e moral da humanidade. O povo judeu recebeu de Moisés, figura maior do judaísmo, as tábuas da lei, no Deserto do Sinai e dividiu com o mundo um legado de sabedoria, cuja essência é baseada na verdade, justiça e paz.

Esta é, pois, a melhor época para um balanço nos atos e nas posturas de ambas as partes em conflito no Oriente Médio. O símbolo maior do Pessach é a liberdade, aquela que garante a um povo sem um Estado, o direito de ir e vir em suas terras, sem restrições ou submissão a ocupantes estrangeiros. É também o respeito à liberdade de um outro povo existir como uma nação livre, soberana e segura, representando a aspiração histórica de terra firme, onde se encontram suas milenares raízes históricas.

Neste Pessach imaginamos a dor do patriarca Abraão, nos céus, vendo o conflito mortal entre seus descendentes, carregando em um de seus braços o jovem palestino Mohammed Jamal, de 12 anos, assassinado por uma bala perdida no fogo cruzado em que permaneceu por mais de 45 minutos, fragilmente escoltado por seu pai, e no outro braço, Shalhevet Pass, a menina de 10 meses alvejada na cabeça por um tiro de um franco-atirador palestino enquanto adormecia no colo de sua mãe, num assentamento judaico na cidade de Hebron – a mesma cidade bíblica que abriga a tumba de Machpelá, comprada pelo patriarca para sepultar sua mulher Sara e abrigo de seu próprio corpo, ao lado de Isaac, Jacob, Rebeca e Léa, também patriarcas e matriarcas do povo judeu.

Os amantes da verdade, justiça e paz esperam que no próximo Pessach não haja mais razão para serem derramadas as lágrimas de Abraão.
  

Osias Wurman é jornalista.

 

                 

Direção
IRENE SERRA
irene@riototal.com.br

        

Esta página é parte integrante da Revista Rio Total