Osias Wurman 

Lembranças do gueto   


O episódio conhecido como o levante do Gueto de Varsóvia teve início em 19 de abril de l943. Quatro semanas depois, as tropas alemãs incendiaram e destruíram totalmente o local. Nenhum sobrevivente restou em seu interior. A resistência judaica tinha que ser eliminada rapidamente pois já começava a repercutir em outros países. Em seu relatório, o comandante da SS Jurgen Stroop, que dirigiu o ataque final dos alemães, diz ter matado 56.065 residentes do gueto.

Todas as comunidades judaicas do mundo estarão relembrando o levante até o dia 16 de maio, data da destruição final do gueto. No último fim de semana, em São Paulo, cerca de mil pessoas participaram de uma caminhada silenciosa, a Marcha da Vida, com a participação de sobreviventes do Holocausto. Em Auschwitz, na Polônia, 2.500 jovens judeus de diversos lugares do mundo caminharam até o antigo campo de concentração para homenagear os mortos.

- Eles transformavam as cidades em bairros, os bairros em ruas, as ruas em casas, as casas em estábulos e os estábulos em vagões - disse Elie Wiesel, escritor e Nobel da Paz, sobre os guetos.

Em dezembro de 1939, os judeus foram obrigados a usar uma braçadeira com a estrela de David e foram iniciadas as transferências em massa para os guetos na Europa. Somente no de Varsóvia chegaram a morar mais de 450 mil pessoas, em precárias condições de higiene e com um racionamento de comida que restringia a apenas 183 calorias por dia a porção para cada judeu.

Em l942, por ordem de Himmler, comandante da Gestapo, a destruição dos guetos teve início. Os próprios membros do Conselho Judaico do Gueto de Varsóvia eram obrigados a selecionar seis mil judeus diariamente, que seriam transportados para o campo de concentração de Treblinka. Os alemães criaram o termo reassentamento para camuflar o extermínio.

Após a remoção de mais de 300 mil moradores para os campos de concentração, os sobreviventes em Varsóvia começaram a receber informações do real propósito da relocação. Ainda havia 60 mil judeus no gueto e um movimento de resistência foi montado. O esconderijo ficava no subsolo do prédio na Rua Mila 18. Ali foi tramada, por 750 jovens, uma ação que conseguiu combater os alemães por 28 dias.

A lembrança do último gueto da história tem levado os especialistas a discutir a origem da palavra gueto - praticamente desconhecida entre os brasileiros. A idéia nasceu em Veneza. Em 1516, o patriarca da Igreja veneziana, Zaccaria Dolfin, inspirado no ambiente da Inquisição antijudaica de seus vizinhos, determinou que todos os judeus fossem confinados numa área denominada Ghetto Nuovo, que seria cercada por muros, com acesso unicamente por pontes levadiças. Um decreto determinou que a área de San Girolamo seria o único local de moradia permitido para os judeus venezianos.

A crueldade incluía a limitação de entrada e saída do local até meia-noite, quando os portões deveriam ser fechados por quatro guardas cristãos obrigatoriamente contratados e pagos pelos próprios judeus. Ainda segundo o decreto, os mesmos guardas deveriam voltar a abrir os portões pela manhã, quando tocassem os sinos de Marangona.

A origem da palavra gueto está na localização do velho bairro judaico da cidade, onde anteriormente havia uma fundição de canhões. Gettare significa despejar um líquido e getto é a denominação veneziana para fundição.

Em 1541 e 1633, respectivamente, foram criados os guetos Vecchio e Nuovissimo. A história dos 300 anos de existência dos guetos de Veneza está preservada até hoje, sendo que na praça principal foi construído um mural em homenagem às vítimas do Holocausto. Milhares de visitantes percorrem anualmente as ruas do bairro que guarda, na fachada de seus prédios, a aparência melancólica de uma invenção para servir ao confinamento humano e à discriminação religiosa.



OSIAS WURMAN é jornalista.



 

    
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