Ano 18 - Semana 855




 

     25 de março, 2014
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Espoliação das Obras de Arte

de 1939 a 1945

(Intrigas e cumplicidades)


Uma unidade americana encarregada do inquérito a respeito do tráfego das obras confiscadas pelos nazistas, durante a segunda guerra mundial, entregou o seu relatório em 1946. Este foi mantido em sigilo desde então, e foi somente transmitido ao Congresso Judaico Mundial em janeiro de 1998.

Trata-se de um caderno de 170 páginas, medindo 18 x 32cm, datado de 1º de maio de 1946 com um endereço de localidade: Washington, DC. Na capa está impressa a palavra CONFIDENCIAL, duas vezes e em letras maiúsculas. O título dele é: FINAL REPORT (relatório Definitivo). O seu autor: A Unidade de Investigação do Roubo de Artes. Essa foi uma unidade americana encarregada da investigação a respeito da espoliação de obras de artes efetuada pelos nazistas durante o período de 1939 até 1945. Ela foi criada em 1944 pelo Office of Strategic Services (Escritório de Serviços Estratégicos), pertencente ao serviço secreto americano. Esta unidade reunia um grupo de especialistas de arte e historiadores que centralizavam seus achados, em locais escondidos de castelos alemães, Igrejas ou minas. Podiam interrogar testemunhas e suspeitos e trabalhavam em coordenação com os ingleses e os franceses.

Na primavera de 1946, quando se encerraram algumas disposições das forças de ocupação, em certas localidades europeias, a unidade entregou o balanço de suas pesquisas, sob a forma de um relatório, onde constam cerca de 2.000 nomes: alemães, franceses, suíços e luxemburgueses, todos comprometidos no tráfego de obras de artes sequestradas pelos nazistas, todavia em diversos níveis.

Biografias e conexões

As diversas nacionalidades ocupam diversos níveis de responsabilidades. As quatro primeiras nacionalidades, acima mencionadas, respondem por muito mais do que os outros, cerca de 136 páginas de nomes, constando biografias e endereços. Um sistema de símbolos permite uma colocação hierárquica das responsabilidades e suas conexões. Esse trabalho enorme tem os seguintes méritos: as biografias sucintas são elaboradas da melhor forma possível e mencionam as profissões, as origens sociais, os laços familiares: estuda a questão ao nível europeu e ressalta as ligações administrativas, comerciais e pessoais que interligam os diversos países e fazem da Europa Hitleriana um grande e único mercado de artes.

Este relatório mantido em segredo, foi liberado em 29 de janeiro de 1998 e transmitido ao Congresso Judaico Mundial. Sob diversos aspectos ele confirma o trabalho de Hector Feliciano, Le Musée Disparu (O Museu Desconhecido), editado em 1995, e o trabalho Lynn Nicholas, Le Pillage de l’Europe (A Pilhagem da Europa), editado também em 1995 e que foi a primeira síntese a respeito dessa questão. Ele se refere especialmente à lista Schenker, que foi um transportador especializado em obras de artes e que trabalhou entre Paris e a Alemanha durante o período da Ocupação e cujos arquivos foram encontrados. Ele verifica alguns suspeitos, circunstâncias e transações. Libera alguns nomes e faz o inventário das múltiplas ligações do tráfego. Inicialmente tem a ligação oficial alemã, a principal representante em Paris. A ERR procura as coleções judaicas na Bélgica, Holanda e na França e procede ao seqüestro. Centraliza os roubos no Museu Jeu de Paume em Paris e faz deste museu um centro de triagem de obras. Alimenta o museu idealizado por Hitler, em Linz - o futuro grande museu do Reich - e os museus das principais cidades alemães. Fornece também para os colecionadores particulares, tais como Goerig e outros altos dignatários nazistas amadores de artes. Organiza um intercâmbio, arte antiga contra arte "degenerada" junto aos intermediários locais.

Outras ligações paralelas e também oficiais espalhadas pela Europa como a organização Muhlmann, na Holanda, o diretor do Instituto Alemã de Belas Artes em Paris, o Sr. Hermann Bunjes e o Sr. Walter Andreas Hofer que se tornam os fiéis depositários da coleção de Goerig.

Um Mercado muito rentável

Este sistema nunca foi tão próspero como naquela época. Se baseou nos objetos que os nazistas colocavam no mercado, seja para intercâmbios diretos, seja na Suíça, através de malas diplomáticas. Os comerciantes tiram vantagem das vendas forçadas de colecionadores judeus em fuga. Há comerciantes de todas as nacionalidades europeias e de todos os tipos, seja o comerciante ao acaso, como o especialista em galerias de luxo. Encabeçando esta lista, o berlinense Karl Haberstock, diretamente engajado na campanha nazista contra a arte "degenerada" e o marchand de arte nº 1 do Reich. As galerias de propriedades de judeus são "arianizadas" frequentemente em favor de funcionários subalternos que trabalham nas mesmas, se aproveitando da deportação dos proprietários. Aparecem também um grande número de aventureiros e intermediários de denominando de "comerciantes de móveis e apartamentos", que são na realidade delatores de esconderijos de judeus, para receber como prêmio os pertences deles e algumas vezes seus cofres nos bancos. Existem também colecionadores autônomos que se aproveitam para vender tudo que podem em arte germânica e flamenga até na Itália, que era aliada do Reich até 1943 e que um pedido alemão era praticamente uma ordem. É assim que o príncipe Tommaso Corsini vendeu, em 1941, ao príncipe Philippe Hesse, emissário de Hitler "O Retrato do Homem com a Carta de Memling (de 1480) por 6.9 milhões de liras italianas, uma transação entre um nobre italiano e um nobre alemão "nazificado".

Um quarto grupo também implicado nessa espoliação europeia é aquele dos especialistas da história da arte e os que tratam da conservação dos museus. Assim sendo, Josef Becker, diretor da Biblioteca da Prússia e membro da "Kulturdirektion" em Paris "trabalha" diretamente com donos de livrarias francesas. O Prof. Ludwig Curtius, diretor do Instituto de Arqueologia Alemã de Roma, ajuda o príncipe Hesse nas suas aquisições. O Dr. Dagobert Frey, diretor do Instituto da História da Arte de Breslau, especialista em arte polonesa, ajuda a esvaziar uma parte do museu de Cracóvia. A lista do relatório fornece uma série de nomes ilustres colaborando com o nazismo na espoliação das coleções europeias.

Nomes que confundem

Alguns desses nomes ilustres surpreendem. Hans Posse dirigiu a Galeria Nacional de Dresden antes de se tornar o "patrono" do projeto de Linz. Após sua morte em 1942, o seu sucessor Hermann Voss se aprofundou na pilhagem das coleções de judeus, tais como: Schloss e Manheimer, Roberto Longhi, o papa da história da arte italiana, aparece no relatório como um conselheiro do marchand florentino Eugenio Ventura, que era fornecedor de Goering e cliente do ERR. Max Friedlander, especialista em nórdicos primitivos e em particular a arte de Memling, refugiado na Holanda desde 1939, por ser de origem judaica, se torna, graças a Muhlmann, o especialista que supervisiona o mercado de pilhagens na Holanda e o centro de um grupo de especialistas judeus "protegidos" e empregados por Muhlmann e que, como recompensa, faz de Friedlander um "ariano de honra".

O relatório revela, além dos detalhes das ramificações, não só dos países ocupados, como também dos países neutros, tais como a Suíça, Espanha, Portugal e Suécia, o poder da corrupção que rapidamente gangrena no conjunto das profissões ligadas à arte.

É difícil escapar à tentação do lucro fácil, seja um comerciante, um historiador ou um colecionador, como também é difícil escapar às pressões morais e físicas que se arrastam como consequência e, também, à covardia. Mais um motivo para homenagear os que se recusaram entrar no jogo. O relatório cita dois alemães, o conde Franz Wolff Metterrnich e seu adjunto, o barão Bernhard von Tieschowitz, que se recusam a praticar confiscos e espoliações brutais. Se os conservadores alemães, austríacos e holandeses são numerosos nessas listas, podem se consolar de que nenhum conservador ou historiador de arte francesa está nelas.

Os Países Neutros não Ficam para Trás

Além da Suíça, os serviços americanos mencionam outros três países neutros: a Suécia, uma monarquia democrática e dois regimes ditatoriais, a Espanha de Franco, próxima do III Reich e Portugal de Salazar, próxima dos Aliados.

Na Escandinávia, era a filial de Himmler que funcionava; Edouard Alexandre Kersten, o principal da filial. Henry Koux, um industrial conhecido e a Sra. Editha Lundquist, que se interessava muito por objetos da arte chinesa, confiscados na França, na Holanda e na Alemanha. Na Espanha, um agente alemão, George Henri Delfanne se correspondia com Alois Miedl, que lhe enviava quadros roubados. Mercadorias roubadas em toda a Europa são escoadas através dos comerciantes tais como Pierre Lottier e Erich Schiffman, residentes em Barcelona, ou Arturo Linares, residente em Madri. Karl Buchholz, dono de uma libraria berlinense, abre em 1943, uma filial em Lisboa com um sócio português, Lehrfeld. Trabalha por conta de Goebbels e Ribbentrop.



Fonte: Journal Le Monde/1998
Enviado por Leon M. Mayer
Loja Albert Einstein da B'nai B'rith do RJ
(Artigo publicado, anteriormente, neste site, em setembro de 2005)


 


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