O
acordo estabelecido não contém nenhuma clásula
sobre o relacionamento entre cristãos e judeus.
No entanto, não despreza o problemático passado
histórico que existia, conforme referido no
preâmbulo, que trata da "natureza do
relacionamento entre a Igreja Católica e o povo
judeu" e do processo histórico de
reconciliação de ambos.
Um
dos tópicos mais importantes nesse contexto é o
Artigo 2, que se refere à cooperação no
combate ao anti-semitismo. Do ponto de vista de
Israel, no que concerne à história entre
católicos e judeus, o desejo de ambas as partes
de lutar contra "todas as formas de
anti-semitismo e qualquer espécie de racismo e
intolerância religiosa" é uma das maiores
conquistas do acordo.
De
fato, o Artigo 2 adota uma posição clara e
decisiva contra o anti-semitismo. O
comprometimento da Santa Sé é explicitamente
expressado na condenação do ódio,
perseguição e outras manifestações de
anti-semitismo perpetradas contra o povo judaico
como um todo e os judeus individualmente em
qualquer parte do mundo. Nesse caso, também, o
acordo ultrapassa os aspectos bilaterais, legais
e políticos. "Nunca mais deverá existir
anti-semitismo e nunca mais genocídio",
disse João Paulo II na cerimônia do 50º
aniversário da liberação do campo de
concentração Auschwitz, onde os nazistas
trucidaram quase 1,5 milhões de judeus. Em seu
livro "Crossing the Threshold of Hope"
o Papa usa termos bastante duros.
Começando
com a Nostra Aetate, os cristãos são
advertidos a absterem-se de usar termos
pejorativos, pois os laços espirituais e as
relações históricas que unem a Igreja ao
Judaísmo condenam todas as formas de
anti-semitismo e rejeição, contrárias ao
verdadeiro espírito cristão. A dignidade humana
por si só é suficiente para condenar tal
comportamento.
Em
janeiro de 1975, as Dioceses das Igrejas
Católicas da Polônia e da Alemanha publicaram
dois documentos nos quais, abertamente,
reconhecem a responsabilidade da Igreja na
criação de um clima de anti-semitismo que
instigou o espírito existente durante muitos
séculos e ajudou a criar as condições que
levaram ao genocídio nazista. Também se julgam
culpadas por terem feito muito pouco para
repudiar ou evitar esse genocídio.
Durante
uma palestra na Universidade Hebraica, em
Jerusalém, no dia 23 de março deste ano, o
Cardeal Bernardin referiu-se à carta apostólica
de João Paulo II, "Na véspera do terceiro
Milênio", na qual ele convoca os católicos
a se arrepender pela intolerância e uso da
violência "a serviço da verdade". Uma
verdadeira cooperação entre a Santa Sé e o
Estado de Israel pode auxiliar a suplantar um
passado muito difícil que aflige muitas
consciências.
No
Artigo 7 do acordo, Israel e Santa Sé reconhecem
seus interesse mútuos na promoção e
encorajamento do intercâmbio cultural entre suas
instituições em todo o mundo e as
instituições educacionais, culturais e de
pesquisa israelenses. Esse comprometimento mútuo
é de grande importância do ponto de vista de
Israel.
O
diálogo cultural católico-judaico abre novos
horizontes no reconhecimento mútuo que
certamente pode contribuir para uma melhor
compreensão de ambas as partes. O acordo com a
Santa Sé dará a Israel uma posição ativa
nesse sentido.
Num
discurso aos membros de uma delegação do
Comitê Judaico Americano, em 6 de fevereiro
deste ano, por ocasião do 30º aniversário da Nostra
Aetate e do 50º aniversário da liberação
de Auschwitz, João Paulo II insistiu na
necessidade urgente de continuar a construir
sobre as bases já estabelecidas. Um dos nossos
maiores desafios, disse, encontra-se na área de
educação e informação, onde, definitivamente,
os resultados de nossa cooperação devem ser
postos em prática.
Tal
cooperação é talvez um dos grandes desafios
que os diplomatas do Vaticano e de Israel
precisam assumir. Na realidade, as relações
entre católicos e judeus melhoraram
consideravelmente nos últimos anos, e a
ignorância, os preconceitos e os estereótipos
estão sendo substituídos por uma crescente
compreensão e respeito mútuo, disse o Papa.
Porém,
ainda existem preconceitos. Ainda há muito a ser
feito, conforme os resultados obtidos
recentemente numa pesquisa realizada nos
principais países europeus. Essa pesquisa traz
à tona a grande ignorância que existe em amplos
setores da população: 48% dos entrevistados
não conheciam a Torá; 12% acreditavam ser o
hino nacional de Israel, 8% acreditavam ser uma
religião em Israel; somente 11% sabem que se
trata do que os católicos chamam de Pentateuco.
Nessa pesquisa perguntou-se aos entrevistados
quem foi responsável pela crucificação de
Jesus e 43% responderam: o povo judeu. É
importante frisar que 87% não se consideravam
anti-semitas.
Quando
perguntados qual é a caractéristica dos judeus,
20% responderam "avareza", 15% ainda
acreditam que os judeus podem ser reconhecidos
pelos seus traços fisionômicos, tais como nariz
adunco e testa estreita. Na verdade, tais
preconceitos persistem.
Tudo
que se possa obter através da cooperação ativa
contribuirá para a compreensão mútua e a
estima entre judeus e católicos. Boas
intenções não são sufucientes. O diálogo
deve penetrar na consciência das pessoas e tocar
seus corações - e isso só pode ser conseguido
com paciência e perseverança.
Colaboração de Leon M.Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da B'nai
B'rith do RJ
lmmayer@openlink.com.b