Ano 16 - Semana 800


 

 

      17 de agosto, 2012
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Um desafio demorado: o intercâmbio diplomático entre
a Santa Sé e o Estado de Israel


A IGREJA CATÓLICA E O POVO JUDAICO
       

O acordo estabelecido não contém nenhuma cláusula sobre o relacionamento entre cristãos e judeus. No entanto, não despreza o problemático passado histórico que existia, conforme referido no preâmbulo, que trata da "natureza do relacionamento entre a Igreja Católica e o povo judeu" e do processo histórico de reconciliação de ambos.

Um dos tópicos mais importantes nesse contexto é o Artigo 2, que se refere à cooperação no combate ao anti-semitismo. Do ponto de vista de Israel, no que concerne à história entre católicos e judeus, o desejo de ambas as partes de lutar contra "todas as formas de anti-semitismo e qualquer espécie de racismo e intolerância religiosa" é uma das maiores conquistas do acordo.

De fato, o Artigo 2 adota uma posição clara e decisiva contra o anti-semitismo. O comprometimento da Santa Sé é explicitamente expressado na condenação do ódio, perseguição e outras manifestações de anti-semitismo perpetradas contra o povo judaico como um todo e os judeus individualmente em qualquer parte do mundo. Nesse caso, também, o acordo ultrapassa os aspectos bilaterais, legais e políticos. "Nunca mais deverá existir anti-semitismo e nunca mais genocídio", disse João Paulo II na cerimônia do 50º aniversário da liberação do campo de concentração Auschwitz, onde os nazistas trucidaram quase 1,5 milhões de judeus. Em seu livro "Crossing the Threshold of Hope" o Papa usa termos bastante duros.

Começando com a Nostra Aetate, os cristãos são advertidos a absterem-se de usar termos pejorativos, pois os laços espirituais e as relações históricas que unem a Igreja ao Judaísmo condenam todas as formas de anti-semitismo e rejeição, contrárias ao verdadeiro espírito cristão. A dignidade humana por si só é suficiente para condenar tal comportamento.

Em janeiro de 1975, as Dioceses das Igrejas Católicas da Polônia e da Alemanha publicaram dois documentos nos quais, abertamente, reconhecem a responsabilidade da Igreja na criação de um clima de anti-semitismo que instigou o espírito existente durante muitos séculos e ajudou a criar as condições que levaram ao genocídio nazista. Também se julgam culpadas por terem feito muito pouco para repudiar ou evitar esse genocídio.

Durante uma palestra na Universidade Hebraica, em Jerusalém, no dia 23 de março deste ano, o Cardeal Bernardin referiu-se à carta apostólica de João Paulo II, "Na véspera do terceiro Milênio", na qual ele convoca os católicos a se arrepender pela intolerância e uso da violência "a serviço da verdade". Uma verdadeira cooperação entre a Santa Sé e o Estado de Israel pode auxiliar a suplantar um passado muito difícil que aflige muitas consciências.

No Artigo 7 do acordo, Israel e Santa Sé reconhecem seus interesse mútuos na promoção e encorajamento do intercâmbio cultural entre suas instituições em todo o mundo e as instituições educacionais, culturais e de pesquisa israelenses. Esse comprometimento mútuo é de grande importância do ponto de vista de Israel.

O diálogo cultural católico-judaico abre novos horizontes no reconhecimento mútuo que certamente pode contribuir para uma melhor compreensão de ambas as partes. O acordo com a Santa Sé dará a Israel uma posição ativa nesse sentido.

Num discurso aos membros de uma delegação do Comitê Judaico Americano, em 6 de fevereiro deste ano, por ocasião do 30º aniversário da Nostra Aetate e do 50º aniversário da liberação de Auschwitz, João Paulo II insistiu na necessidade urgente de continuar a construir sobre as bases já estabelecidas. Um dos nossos maiores desafios, disse, encontra-se na área de educação e informação, onde, definitivamente, os resultados de nossa cooperação devem ser postos em prática.

Tal cooperação é talvez um dos grandes desafios que os diplomatas do Vaticano e de Israel precisam assumir. Na realidade, as relações entre católicos e judeus melhoraram consideravelmente nos últimos anos, e a ignorância, os preconceitos e os estereótipos estão sendo substituídos por uma crescente compreensão e respeito mútuo, disse o Papa.

Porém, ainda existem preconceitos. Ainda há muito a ser feito, conforme os resultados obtidos recentemente numa pesquisa realizada nos principais países europeus. Essa pesquisa traz à tona a grande ignorância que existe em amplos setores da população: 48% dos entrevistados não conheciam a Torá; 12% acreditavam ser o hino nacional de Israel, 8% acreditavam ser uma religião em Israel; somente 11% sabem que se trata do que os católicos chamam de Pentateuco. Nessa pesquisa perguntou-se aos entrevistados quem foi responsável pela crucificação de Jesus e 43% responderam: o povo judeu. É importante frisar que 87% não se consideravam anti-semitas.

Quando perguntados qual é a característica dos judeus, 20% responderam "avareza", 15% ainda acreditam que os judeus podem ser reconhecidos pelos seus traços fisionômicos, tais como nariz adunco e testa estreita. Na verdade, tais preconceitos persistem.

Tudo que se possa obter através da cooperação ativa contribuirá para a compreensão mútua e a estima entre judeus e católicos. Boas intenções não são suficientes. O diálogo deve penetrar na consciência das pessoas e tocar seus corações - e isso só pode ser conseguido com paciência e perseverança.

 

Colaboração de Leon M.Mayer
lmmayer@openlink.com.br


 


Editoria e Direção
IRENE SERRA
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