Ano 3

 

 

      12 de março, 1999
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O Futuro de Jerusalém


Um dos mais delicados problemas para os diplomatas do Vaticano e de Israel é o futuro de Jerusalém. O significado de Jerusalém para judeus, cristãos e muçulmanos é mais do que sabido. No entanto, infelizmente, sob o plano político e internacional, ao invés de ser um símbolo de paz e santidade, Jerusalém se tornou um foco de aspirações conflitantes.

Nas perspectivas israelenses, basta citar o trabalho de Zvi Werblowsky, O Significado de Jerusalém para Judeus, Cristãos e Muçulmanos (Centro de Informações de Israel em Jerusalém, segunda edição, 1994):

Para o povo judaico: Jerusalém não representa somente uma cidade com locais sagrados ou para celebrar eventos religiosos. A cidade é sagrada e vem servindo como símbolo da existência histórica de um povo perseguido, humilhado, massacrado, pelo menos durante os últimos 2 e meio milênios, mas esse povo jamais desistiu da promessa de sua reintegração. Jerusalém e Sion têm... se tornado a "moradia e o nome" para a esperança e o significado da existência judaica...

Pode-se resumir a posição de Israel como segue: Jerusalém tem duas dimensões: política e religiosa. A política é "fechada", pois é a capital histórica e política de Israel. Por outro lado, a dimensão religiosa é "aberta". O governo israelense se propõe a discutir quaisquer assuntos que se relacionem com os interesses religiosos com os representantes das religiões monoteístas, com as necessárias garantias.

Israel comprometeu-se a não violar os direitos de grupos religiosos em Jerusalém e não pretende privar ninguém desses direitos. A distinção entre a dimensão política e religiosa deve facilitar um futuro acordo entre Israel e a Santa Sé, assim como com outras religiões cristãs e o Islã.

Concluindo, a fim de resumir o que Jerusalém significa para Israel, citamos novamente o Professor Werblowsky:

Os sinônimos Jerusalém e Sion simbolizam a realidade histórica do povo e seus laços com a terra. Nesse caso, nos aproximamos mais de como reconhecer (embora isso não seja necessariamente uma afirmação) os estágios modernos e secularizados dessa história. O nome dado ao movimento nacional judaico moderno veio, não do país ou do povo, mas sim da cidade: Sionismo. O hino do movimento sionista, que tornou-se o hino nacional de Israel em 1948, menciona o "olho que vela por Sion" e a esperança milenar de retornar à "terra de Sion e Jerusalém". O hino Hatikva" (Esperança) é muito pobre poeticamente, porém, seu sentimentalismo capta a consciência essencial do povo judeu, no centro da qual há um laço indissolúvel com a terra, e que em seu núcleo está Sion, a cidade de Davi. Jeruslém e Sion são termos geográficos além da mera geografia: eles são "o berço e o nome" de uma existência histórica e sua continuidade...

Ao escrever sobre o futuro, não posso deixar de citar David Ben-Gurion, o fundador do Estado de Israel: "Todos os peritos são peritos no que já aconteceu. Ninguém pode prever o futuro e quem pretender fazê-lo estará se arriscando desnecessariamente". Devo admitir, no entanto, que a profecia não é uma de minhas qualidades. Nesse ponto, concordo com o autor do provérbio chinês que diz que é difícil fazer prognósticos, especialmente quanto ao futuro.

Às vésperas do terceiro milênio e no momento em que o mundo católico prepara-se para o Ano Santo 2000, o maior desafio das novas relações será conseguir uma cooperação sincera entre a Santa Sé e o Estado de Israel, em assuntos bilaterais e regionais e no diálogo judeu-católico.

A participação de Israel neste diálogo acrescentará uma dimensão nova e construtiva às seguintes relações: cooperação na luta pela justiça, contra o racismo e, muito especialmente, contra o anti-semitismo e pela paz. "A Santa Sé está convencida", disse o Monsenhor Claudio Celli após a assinatura do acordo "que o diálogo e a cooperação respeitosa entre católicos e judeus receberá novo ímpeto e energia, tanto em Israel quanto no resto do mundo."

O desejo sincero de aproximação entre judeus e católicos pareceria, às vezes, uma missão impossível. No entanto o desafio longamente adiado envolveu muitos bons judeus e católicos durante anos. Devemos intensificar os esforços e dar atenção preferencial a esta questão hitórica. Sem dúvida, não estamos de acordo quanto a importantes pricipios teológicos, porém, nossos pontos de vista em questões sociais e éticas, sobre a paz mundial e tais problemas universais como saúde, justiça e família, convergem freqüentemente. Judeus e cristãos compartilham uma visão social comum: a dos profetas hebreus. Acredito que, neste ponto, o diálogo pode ser construtivo e significar uma contribuição importante para a humanidade.

O acordo assinado em 30 de dezembro de 1993 e o subseqüente estabelecimento de relações diplomáticas abriram o caminho, criando novas possibilidades que somente um diálogo permanente, franco e respeitoso poderá tornar realidade. Concordamos em estabelecer um canal de comunicação direta entre dois serviços diplomáticos muito diferentes. O de Israel é dinâmico, sempre sob pressão, procurando resultados imediatos. O outro é o do Vaticano, um dos mais experientes e renomados protagonistas do cenário internacional que, conforme o Cardeal Gaspari, pensa em termos de eternidade.

Na ocasião da assinatura do acordo, Shimon Peres, então Ministro de Relações Exteriores de Israel, expressou um desejo compartilhado por muitos de seus compatriotas:

"Esperamos - e reitero - que algum dia mais um parceiro - os muçulmanos - farão parte desse acordo; que também chegaremos a um acordo sobre as relações trilaterais entre as três principais religiões: judaismo, cristianismo e islamismo. Repito: não desejamos que os católicos se tornem judeus, nem que os judeus se tornem católicos, ou que ambos se tornem muçulmanos. Não pretendemos modificar a religião nem as crenças religiosas dos fiéis. Não queremos mudar a religião nem a identidade religiosa, mas sim as relações entre as religiões."
 

Colaboração de Leon M.Mayer
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