Um
dos mais delicados problemas para os diplomatas
do Vaticano e de Israel é o futuro de
Jerusalém. O significado de Jerusalém para
judeus, cristãos e muçulmanos é mais do que
sabido. No entanto, infelizmente, sob o plano
político e internacional, ao invés de ser um
símbolo de paz e santidade, Jerusalém se tornou
um foco de aspirações conflitantes.
Nas
perspectivas israelenses, basta citar o trabalho
de Zvi Werblowsky, O Significado de
Jerusalém para Judeus, Cristãos e Muçulmanos (Centro
de Informações de Israel em Jerusalém, segunda
edição, 1994):
Para o povo judaico:
Jerusalém não representa somente uma cidade
com locais sagrados ou para celebrar eventos
religiosos. A cidade é sagrada e vem
servindo como símbolo da existência
histórica de um povo perseguido, humilhado,
massacrado, pelo menos durante os últimos 2
e meio milênios, mas esse povo jamais
desistiu da promessa de sua reintegração.
Jerusalém e Sion têm... se tornado a
"moradia e o nome" para a
esperança e o significado da existência
judaica...
Pode-se
resumir a posição de Israel como segue:
Jerusalém tem duas dimensões: política e
religiosa. A política é "fechada",
pois é a capital histórica e política de
Israel. Por outro lado, a dimensão religiosa é
"aberta". O governo israelense se
propõe a discutir quaisquer assuntos que se
relacionem com os interesses religiosos com os
representantes das religiões monoteístas, com
as necessárias garantias.
Israel
comprometeu-se a não violar os direitos de
grupos religiosos em Jerusalém e não pretende
privar ninguém desses direitos. A distinção
entre a dimensão política e religiosa deve
facilitar um futuro acordo entre Israel e a Santa
Sé, assim como com outras religiões cristãs e
o Islã.
Concluindo,
a fim de resumir o que Jerusalém significa para
Israel, citamos novamente o Professor Werblowsky:
Os sinônimos Jerusalém e
Sion simbolizam a realidade histórica do
povo e seus laços com a terra. Nesse caso,
nos aproximamos mais de como reconhecer
(embora isso não seja necessariamente uma
afirmação) os estágios modernos e
secularizados dessa história. O nome dado ao
movimento nacional judaico moderno veio, não
do país ou do povo, mas sim da cidade:
Sionismo. O hino do movimento sionista, que
tornou-se o hino nacional de Israel em 1948,
menciona o "olho que vela por Sion"
e a esperança milenar de retornar à
"terra de Sion e Jerusalém". O
hino Hatikva" (Esperança) é
muito pobre poeticamente, porém, seu
sentimentalismo capta a consciência
essencial do povo judeu, no centro da qual
há um laço indissolúvel com a terra, e que
em seu núcleo está Sion, a cidade de Davi.
Jeruslém e Sion são termos geográficos
além da mera geografia: eles são "o
berço e o nome" de uma existência
histórica e sua continuidade...
Ao escrever sobre o futuro,
não posso deixar de citar David Ben-Gurion,
o fundador do Estado de Israel: "Todos
os peritos são peritos no que já aconteceu.
Ninguém pode prever o futuro e quem
pretender fazê-lo estará se arriscando
desnecessariamente". Devo admitir, no
entanto, que a profecia não é uma de minhas
qualidades. Nesse ponto, concordo com o autor
do provérbio chinês que diz que é difícil
fazer prognósticos, especialmente quanto ao
futuro.
Às vésperas do terceiro
milênio e no momento em que o mundo
católico prepara-se para o Ano Santo 2000, o
maior desafio das novas relações será
conseguir uma cooperação sincera entre a
Santa Sé e o Estado de Israel, em assuntos
bilaterais e regionais e no diálogo
judeu-católico.
A participação de Israel
neste diálogo acrescentará uma dimensão
nova e construtiva às seguintes relações:
cooperação na luta pela justiça, contra o
racismo e, muito especialmente, contra o
anti-semitismo e pela paz. "A Santa Sé
está convencida", disse o Monsenhor
Claudio Celli após a assinatura do acordo
"que o diálogo e a cooperação
respeitosa entre católicos e judeus
receberá novo ímpeto e energia, tanto em
Israel quanto no resto do mundo."
O desejo sincero de
aproximação entre judeus e católicos
pareceria, às vezes, uma misão impossível.
No entanto o desafio longamente adiado
envolveu muitos bons judeus e católicos
durante anos. Devemos intensificar os
esforços e dar atenção preferencial a esta
questão hitórica. Sem dúvida, não estamos
de acordo quanto a importantes pricipios
teológicos, porém, nossos pontos de vista
em questões sociais e éticas, sobre a paz
mundial e tais problemas universais como
saúde, justiça e família, convergem
freqüentemente. Judeus e cristãos
compartilham uma visão social comum: a dos
profetas hebreus. Acredito que, neste ponto,
o diálogo pode ser construtivo e significar
uma contribuição importante para a
humanidade.
O acordo assinado em 30 de
dezembro de 1993 e o subseqüente
estabelecimento de relações diplomáticas
abriram o caminho, criando novas
possibilidades que somente um diálogo
permanente, franco e respeitoso poderá
tornar realidade. Concordamos em estabelecer
um canal de comunicação direta entre dois
serviços diplomáticos muito diferentes. O
de Israel é dinâmico, sempre sob pressão,
procurando resultados imediatos. O outro é o
do Vaticano, um dos mais experientes e
renomados protagonistas do cenário
internacional que, conforme o Cardeal
Gaspari, pensa em termos de eternidade.
Na
ocasião da assinatura do acordo, Shimon Peres,
então Ministro de Relações Exteriores de
Israel, expressou um desejo compartilhado por
muitos de seus compatriotas:
"Esperamos - e
reitero - que algum dia mais um parceiro - os
muçulmanos - farão parte desse acordo; que
também chegaremoa a um acordo sobre as
relações trilaterais entre as três
principais religiões: judaismo, cristianismo
e islamismo. Repito: não desejamos que os
católicos se tornem judeus, nem que os
judeus se tornem católicos, ou que ambos se
tornem muçulmanos. Não pretendemos
modificar a religião nem as crenças
religiosas dos fiéis. Não queremos mudar a
religião nem a identidade religiosa, mas sim
as relações entre as religiões."
Colaboração de Leon M.Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da B'nai
B'rith do RJ
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