DIÁLOGO CATÓLICO-JUDAICO

          
EXAME DO PASSADO
         

Vaticano reconhece omissão dos católicos durante o holocausto, mas defende Pio XII

         
Com cinqüenta anos de atraso e onze de discussões internas, a Igreja Católica finalmente se pronunciou a respeito de seu próprio silêncio durante o extermínio dos judeus na II Guerra Mundial. O documento, divulgado é descrito como "ato de arrependimento" pelos erros e omissões dos católicos diante das atrocidades do período, mas fica longe de ser o pedido de desculpas ou a condenação do papa Pio XII que muitos judeus gostariam de ouvir. A Igreja prefere pedir desculpas pelos erros individuais de católicos, mas não se sente responsável pelas atrocidades e ignora as acusações de que Pio XII poderia ter tentado impedir o genocídio. Alertado diversas vezes sobre o andamento da "solução final" - o projeto nazista de exterminar a população judaica da Europa, ele tocou no assunto publicamente numa única ocasião, e de passagem, na mensagem de Natal de 1942.
O documento, ao contrário, faz duas referências a Pio XII, ambas para lembrar que depois da guerra líderes judeus o procuraram para agradecer por ter salvo milhares de vidas. Não era mesmo de esperar que a Igreja fosse condenar um papa recente e, no momento, alvo de um processo de beatificação. O texto do Vaticano prefere dizer que as "tormentosas" relações cristãs-judaicas foram pioradas por "interpretações errôneas e injustas do Novo Testamento" - a mesma frase usada por João Paulo II no ano passado, num simpósio sobre anti-semitismo no Vaticano.

Exame de consciência - O estudo sobre o comportamento da Igreja durante a II Guerra foi encomendado por João Paulo II na esteira da aproximação com os judeus iniciada nos anos 60, mas acelerada sob seu papado. Em seus dezenove anos como papa, ele tem conduzido um verdadeiro exame de consciência da Igreja e um esforço pela conciliação entre católicos e judeus. Tendo vivido sob a ocupação da Polônia, João Paulo II conheceu de perto o drama do nazismo, testemunhou a deportação de amigos e vizinhos judeus, assim como o massacre de poloneses cristãos. Dois anos atrás, os bispos da Alemanha reconheceram a responsabilidade da Igreja alemã na tragédia. No ano passado, foi a vez de os bispos franceses lançarem um pedido de desculpas. Quem esperava a mesma atitude do Vaticano ficou decepcionado. "A frustação é a falta de um pedido formal de perdão", diz o rabino Henry Sobel, da Congregação Israelita Paulista. "Mas o documento é uma evolução importante por deixar claro que a Igreja Católica já não visa ao desaparecimento do judaísmo".
O exame de consciência com que João Paulo II pretende preparar a Igreja Católica para o ano 2000 já produziu outros resultados notáveis. Cinco anos atrás, por exemplo, reabilitou o astrônomo Galileu Galilei, obrigado pela Inquisição em 1633 a renegar a teoria de que a Terra orbita em torno do sol. E, no que parece ter sido um novo gesto conciliatório aos judeus, a Santa Sé suspendeu indefinidamente o processo de beatificação de Isabel, a Católica. Rainha de Castela, ela foi responsável pela expulsão dos judeus da Espanha, em 1492.

 

Colaboração de Leon M.Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da B'nai B'rith do RJ
lmmayer@openlink.com.br



Revista Rio Total