DIÁLOGO CATÓLICO-JUDAICO
A identidade dos cristãos é inseparável
da sua relação
com o Antigo Testamento
Discurso de João Paulo II durante audiência concedida
no dia 11 de Abril de 97 aos membros da Pontifícia Comissão Bíblica.
A atitude de Jesus
Na realidade, não se pode exprimir de maneira plena o mistério de Cristo sem recorrer ao Antigo Testamento. A idade humana de Jesus define-se a partir do Seu vínculo com o povo de Israel com a dinastia de David e a descendência de Abraão. E não se trata de uma pertença física. Participando das celebrações na sinagoga, onde eram lidos e comentados os textos do Antigo Testamento, Jesus adquiria humanamente conciência destes textos, com estes nutria o espírito e o coração, servindo-Se dos mesmos na oração e neles inspirando o Seu comportamento.
Ele tornou-se um autêntico filho de Israel, profundamente arraigado na longa história do próprio povo. Quando começou a pregar e a ensinar, hauriu abundantemente do tesouro das Escrituras, enriquecendo este tesouro com novas inspirações e iniciativas inesperadas.
Estas - notemo-lo - não tinham em vista abolir a antiga revelação mas, ao contrário, levá-la ao seu cumprimento perfeito. A oposição cada vez mais consistente, com que Jesus teve de se confrontar até ao Calvário, foi por Ele compreendida à luz do Antigo Testamento, que Lhe revelava a sorte reservada aos profetas. Sabia também, do Antigo Testamento, que no fim o amor de Deus resulta sempre vitorioso.
Portanto, privar Cristo da relação com o Antigo Testamento é separá-lo das Suas raízes e desvirtuar o Seu mistério de todo o sentido. Com efeito, a fim de ser significativa, a Encarnação teve necessidade de se arraigar em séculos de preparação. De outra forma, Cristo teria sido um meteoro caído acidentalmente sobre a terra, isento de conexões com a história dos homens.O arraigamento da Encarnação
A Igreja compreendeu bem, desde as origens, o arraigamento da Encarnação na história e, por conseguinte, acolheu plenamente a inserção de Cristo na história do povo de Israel. Considerou as Escrituras hebraicas como Palavra de Deus perenemente válida, dirigida a si mesma e também aos filhos de Israel. É de importância primordial manter e renovar esta consciência eclesial dos relacionamentos essenciais com o Antigo Tetamento. Estou certo de que os vossos trabalhos hão-de contribuir de maneira excelente neste sentido, e desde já sinto-me feliz por isso, agradecendo-vos do íntimo do coraçào.
Sois chamados a ajudar os cristãos a compreender bem a própria identidade. Identidade que se define em primeiro lugar graças à fé em Cristo, Filho de Deus. Contudo, esta fé é inseparável da relação com o Antigo Testamento, dado que se trata da fé em Cristo, morto pelos nossos pecados, conforme as escrituras, e ressuscitado... conforme as Escrituras! (cf. 1 Cor. 15, 3.4).
O cristão deve saber que, com a sua adesão a Cristo, se tornou "descendênte de Abraão" (Gal. 3, 29) e foi enxertado na oliveira boa boa (cf. Rm. 11, 17.24), isto é, inserido no povo de Israel, para ser "participante da raiz e da seiva da oliveira" (Rm. 11, 17). Se possuir esta forte convicção, já não poderá aceitar que os judeus enquanto judeus sejam desprezados ou, pior ainda, maltratados.A missão dos exegetas
Ao dizê-lo, não pretendo ignorar que o Novo Testamento conserva os vestígios de claras tensões existidas entre comunidades cristãs primitivas e alguns grupos de hebreus não cristãos.
São Paulo mesmo atesta nas suas cartas que, como hebreu não cristão, perseguira orgulhosamente a Igreja de Deus (cf. Gal. 1, 13; 1 Cor. 15, 9). Estas dolorosas recordações devem ser superadas na caridade, em conformidade com os preceitos de Cristo. O trabalho exegético deve preocupar-se em progredir sempre nesta direção e, assim, contribuir para diminuir as tensões e dissipar os mal -entendidos.
Precisamente à luz de tudo isto, o trabalho que iniciastes é altamente importante e merece ser desempenhado com atenção e esmero. Sem dúvida, comporta aspectos difíceis e pontos delicados, mas é muito prometedor. Todavia, é rico de grande esperança. Faço votos por que seja deveras fecundo para glória do Senhor. Com estes bons votos, asseguro-vos uma recordação constante na oração e concedo a todos vós uma especial Benção Apostólica.
FONTE: L'OSSERVATORE ROMANO
Colaboração de Leon M.Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da B'nai B'rith do RJ
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