O sugestivo título "Nós nos lembramos"
é do documento da Santa Sé divulgado
segunda-feira (16 de março de 98) pelo cardeal
australiano Edward Cassidy, presidente da
Comissão Pontifícia para as Relações com o
Juadísmo. Lembrar-se no caso, é assumir o
passado constrangedor, para dizer o mínimo, de
omissão da Igreja Católica diante do genocídio
da Shoah, a palavra hebraica para o Holocausto;
é a confissão de culpa, que é o prelúdio
inescapável do arrependimento sincero e da
reparação.
A
não ser tomado como tal - um prelúdio, um
primeiro passo - o documento continuará deixando
insatisfações, além das logo manifestadas. A
do grão-rabino de Israel, de rito ocidental,
Mair Lau, por exemplo, que se disse decepcionado,
por ter contado com "algo mais que uma
desculpa difusa". Ou ainda restrições
severas, como as dos que censuram no documento
seu silêncio sobre a indiferença gélida da
maioria do episcopado alemão, quando do
incêndio das sinagogas, na Noite dos Cristais;
sobre a influência de personalidades católicas
abertamente anti-semitas, como monsenhor Tiso, na
Eslováquia.
E, mais que tudo isso, discordância quanto à
figura histórica de Pio XII, papa de 1939 a 1958
e anteriormente núncio apostólico na Alemanha,
que o documento procura, de maneira sinuosa,
reabilitar.
A
"reflexão sobre a Shoah", subtítulo
do documento, levou 12 anos para vir à luz como
ato público de penitência, em 11 páginas de
texto. O que mostra quanto é doloroso
arrepender-se, mesmo em se tratando - ou
sobretudo em se tratando - de crime que
"permanece como mancha indelével na
história do século que está por
findar-se". E talvez não verá a verdadeira
cura das "feridas das incompreensões e das
injustiças". Que sempre se constituiram em
raiz última daquele crime, trazendo de volta os
"idólatras da raça e do estado"e uma
legião de "neopagãos".
Mas
esses idólatras e neopagãos, mais que legião,
expressivos grupos nacionais eram, se não todos,
quase todos herdeiros do patrimônio cristão que
por muito tempo fez a identidade cultural da
Europa, a distingui-la e a manter à distância
os demais - os de além-fronteiras, como os
islâmicos e os de dentro das fronteiras, como os
judeus. Então, fica difícil ver, na práxis
cotidiana, aquela separação conceitual que o
documento faz entre antijudaísmo e
anti-semitismo. Ao contrário, aguça-se a
indagação sobre as possíveis origens
ideológico-teológicas do anti-semitismo.
Historicamente,
o cristianismo nasceu como uma dissidência do
judaísmo: Jesus era judeu e se orgulhava de tal
condição. A dissidência, porém, deu cedo
sinais de se estar transformando em hostilidade.
O documento da Santa Sé lembra e deplora os
grupos radicais de cristãos, que, na época dos
imperadores bizantinos, incendiavam sinagogas no
Oriente, bem mais de um milênio antes de Hitler.
Mas se esquece de que, quando o imperador
Teodósio forçou um bispo a mandar reconstruir
uma de tais sinagogas, recebeu uma carta
indignada do bispo de Milão Santo Ambrósio,
interpelando-o; "Levarás, então, os
hebreus a triunfar sobre a Igreja de Cristo? Eles
incluirão em seu calendário festivo o
aniversário de tal triunfo."
Essa
cultura da hostilidade impregnaria a identidade
cristã européia. E João Paulo II foi
testemunha sofrida e inconformada dessa
hostilidade desabrida em sua terra natal, a
Polônia. Destino, por sinal, dos judeus
deportados pelos nazistas. Mas será sempre
difícil e penoso, para João Paulo II como para
seu antecessor Pio XII, reconhecer o grau de
profundidade dessa impregnação. Eis por que o
documento de agora é um prelúdio; auspicioso,
sem dúvida, porque é o primeiro caso de
reconhecimento oficial e público, entre tantos
Estados e nações, igualmente ou mais culpados,
de responsabilidade pela Shoah.
Há
um longo caminho a percorrer, antes de se chegar
à reconciliação - entre cristãos (católicos
e protestantes), mulçumanos, judeus e outras
filiações religiosas - que João Paulo II sonha
ver consumar-se no jubileu do ano 2000.
Mas nessa via-crúcis haverá uma lição
preciosa a se tirar do arrependimento: vivendo no
tempo, como deve viver por ora, a Igreja
Católica será sempre tributária desse tempo.
Deve habituar-se a purgar-se do ranço de cada
época histórica. Só assim merecerão título,
que tantas vezes tem invocado nos últimos anos,
de "perita em humanidade".
FONTE: O ESTADO DE S. PAULO
Enviado por Leon Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da B'nai
B'rith do RJ