DIÁLOGO CATÓLICO-JUDAICO

                    
       André Schwob

              

Notícias da Fraternidade Cristã-Judaica

              
No dia 16 de abril houve mais uma reunião de Fraternidade Cristã-Judaica da Sinagoga da Associação Religiosa Israelita.
Como das outras vezes, sob a presidência da Irmã Alda de Sion, a assistência era muito numerosa. Tanto de membros judeus quanto cristãos; aliás, é interessante notar que além dos que normalmente vêm assistir a estas palestras, a cada vez aparecem mais pessoas de ambas as fés interessadas no "conhecimento do outro".
Afinal este é o programa e a finalidade. Cada um curte a sua fé religiosa, mas está querendo, está precisando conhecer "o outro"; conhecer não só a vivência religiosa, muito além das distorções difamatórias utilizadas durante séculos em caráter oficial, mas a história conhecida pelos mais sagrados documentos religiosos, história esta que não tem apenas dois mil anos de caminhada paralela, mas quatro mil anos! O Antigo Testamento faz parte da Bíblia Sagrada, suporte do ensinamento cristão de cada dia.

Trata-se dessa vez da Páscoa que este ano teve data coincidente. Coincidente? perguntarão alguns. Relembramos por um instante: os povos cristãos seguem o calendário solar chamado Gregoriano - editado no século XVI pelo Papa Gregório XIII (que reformou o calendário antigo, dito Juliano), no qual temos o ano de 12 meses, com 365 dias, sendo que de quatro em quatro anos há um ano bissexto de 366 dias quando fevereiro tem 29 em vez de 28 dias. Já os iraelitas do mundo inteiro e os israelenses, cidadãos de Israel, seguem o calendário lunar constituido de 12 meses de 29 e 30 dias, meses que principiam sempre na lua nova, ano de 354 dias mas que em 7 de cada 19 anos (anos ditos embolísticos) têm 13 meses.

A Páscoa Judaica comemora a saída do povo hebreu do Egito, sob o comando de Moisés. Ela relembra como o faraó resistiu a esta libertação pois os hebreus trabalhavam virtualmente como escravos dos egípcios; ele só aceitou finalmente a sua saída depois do Egito ter sofrido as famosas 7 pragas, cada uma mais terrível que a precedente. Este é o simples relato dos fatos acontecidos, mas o sentido da Páscoa, sua importância, crescem quando estudados à luz do seu conteúdo religioso.
Moisés, que tomou a liderança do povo hebreu sofredor, clamou ao Senhor para ajudá-lo a transmitir a sua fé, sua confiança e sua determinação ao povo, de que já o iria libertar. Ele pediu ao faraó, anunciando-lhe ser esta a vontade de Deus.
Os sacerdotes do templo egípcio, para reforçar a negativa do faraó, produziram diversos prodígios que Aarão, irmão de Moisés e por sua ordem, reproduziu, mostrando assim que o Senhor seu Deus lhe dava iguais poderes. O faraó, desconcertado e derrotado pelo efeito das pragas que lhe tinham sido anunciadas, como castigo da sua perseguição e sofridas uma após a outra, concordou.
Mas a proteção especial de Deus ao seu povo ainda produziu mais milagres como a travessia do Mar Vermelho pelo povo todo e o afogamento do exército egípcio que vinha em sua perseguição, o maná que caía cada dia do céu para alimentar o povo no deserto e o rochedo que Moisés feriu e deu água onde tudo à vista era secura.

Enfim o povo hebreu, até os nossos contemporâneos os judeus, vê na Páscoa a definitiva Aliança. Aliança que sustenta a fé absoluta no poder do Senhor e garante aos homens sua proteção frente à vida e seus problemas, sustenta na confiança, sua persistência e, conforme as circunstâncias, seu desassombro ou estoicismo ante as provações.
A Páscoa judaica é portanto a festa da vida, da proteção do Senhor ao seu povo na sua caminhada.

A Páscoa cristã, embora alicerçada na Páscoa judaica, apresenta outros caracteres. Sabemos que Jesus na última ceia estava comemorando a Páscoa judaica, pois Jesus e seus discípulos eram judeus: Ele tinha sido instruído no Templo em Jerusalém, Ele vivia como hebreu do seu tempo e respeitava a Lei. Finalmente, sendo Rabi ensinava nas Sinagogas, que são ainda hoje escolas da Lei (religiosa).
Mas a Páscoa cristã acrescenta elementos diferentes: além de confirmar a pertença do fiel a Jesus e a Deus, ela lhe acena com a remissão dos pecados, quando deles se arrepende e confessa antes de aproximar-se da mesa da comunhão.
Ela, sobretudo, lhe garante a vida eterna, já que o Cristo por sua ressurreição, venceu a morte.


Publicado na Folha Paroquial da Santíssima Trindade
Julho de 1998 número 39


Revista Rio Total