No dia 16 de abril houve mais uma reunião de
Fraternidade Cristã-Judaica da Sinagoga da
Associação Religiosa Israelita.
Como das outras vezes, sob a presidência da
Irmã Alda de Sion, a assistência era muito
numerosa. Tanto de membros judeus quanto
cristãos; aliás, é interessante notar que
além dos que normalmente vêm assistir a estas
palestras, a cada vez aparecem mais pessoas de
ambas as fés interessadas no "conhecimento
do outro".
Afinal este é o programa e a finalidade. Cada um
curte a sua fé religiosa, mas está querendo,
está precisando conhecer "o outro";
conhecer não só a vivência religiosa, muito
além das distorções difamatórias utilizadas
durante séculos em caráter oficial, mas a
história conhecida pelos mais sagrados
documentos religiosos, história esta que não
tem apenas dois mil anos de caminhada paralela,
mas quatro mil anos! O Antigo Testamento faz
parte da Bíblia Sagrada, suporte do ensinamento
cristão de cada dia.
Trata-se
dessa vez da Páscoa que este ano teve data
coincidente. Coincidente? perguntarão alguns.
Relembramos por um instante: os povos cristãos
seguem o calendário solar chamado Gregoriano -
editado no século XVI pelo Papa Gregório XIII
(que reformou o calendário antigo, dito
Juliano), no qual temos o ano de 12 meses, com
365 dias, sendo que de quatro em quatro anos há
um ano bissexto de 366 dias quando fevereiro tem
29 em vez de 28 dias. Já os iraelitas do mundo
inteiro e os israelenses, cidadãos de Israel,
seguem o calendário lunar constituido de 12
meses de 29 e 30 dias, meses que principiam
sempre na lua nova, ano de 354 dias mas que em 7
de cada 19 anos (anos ditos embolísticos) têm
13 meses.
A
Páscoa Judaica comemora a saída do povo hebreu
do Egito, sob o comando de Moisés. Ela relembra
como o faraó resistiu a esta libertação pois
os hebreus trabalhavam virtualmente como escravos
dos egípcios; ele só aceitou finalmente a sua
saída depois do Egito ter sofrido as famosas 7
pragas, cada uma mais terrível que a precedente.
Este é o simples relato dos fatos acontecidos,
mas o sentido da Páscoa, sua importância,
crescem quando estudados à luz do seu conteúdo
religioso.
Moisés, que tomou a liderança do povo hebreu
sofredor, clamou ao Senhor para ajudá-lo a
transmitir a sua fé, sua confiança e sua
determinação ao povo, de que já o iria
libertar. Ele pediu ao faraó, anunciando-lhe ser
esta a vontade de Deus.
Os sacerdotes do templo egípcio, para reforçar
a negativa do faraó, produziram diversos
prodígios que Aarão, irmão de Moisés e por
sua ordem, reproduziu, mostrando assim que o
Senhor seu Deus lhe dava iguais poderes. O
faraó, desconcertado e derrotado pelo efeito das
pragas que lhe tinham sido anunciadas, como
castigo da sua perseguição e sofridas uma após
a outra, concordou.
Mas a proteção especial de Deus ao seu povo
ainda produziu mais milagres como a travessia do
Mar Vermelho pelo povo todo e o afogamento do
exército egípcio que vinha em sua
perseguição, o maná que caía cada dia do céu
para alimentar o povo no deserto e o rochedo que
Moisés feriu e deu água onde tudo à vista era
secura.
Enfim
o povo hebreu, até os nossos contemporâneos os
judeus, vê na Páscoa a definitiva Aliança.
Aliança que sustenta a fé absoluta no poder do
Senhor e garante aos homens sua proteção frente
à vida e seus problemas, sustenta na confiança,
sua persistência e, conforme as circunstâncias,
seu desassombro ou estoicismo ante as
provações.
A Páscoa judaica é portanto a festa da vida, da
proteção do Senhor ao seu povo na sua
caminhada.
A
Páscoa cristã, embora alicerçada na Páscoa
judaica, apresenta outros caracteres. Sabemos que
Jesus na última ceia estava comemorando a
Páscoa judaica, pois Jesus e seus discípulos
eram judeus: Ele tinha sido instruído no Templo
em Jerusalém, Ele vivia como hebreu do seu tempo
e respeitava a Lei. Finalmente, sendo Rabi
ensinava nas Sinagogas, que são ainda hoje
escolas da Lei (religiosa).
Mas a Páscoa cristã acrescenta elementos
diferentes: além de confirmar a pertença do
fiel a Jesus e a Deus, ela lhe acena com a
remissão dos pecados, quando deles se arrepende
e confessa antes de aproximar-se da mesa da
comunhão.
Ela, sobretudo, lhe garante a vida eterna, já
que o Cristo por sua ressurreição, venceu a
morte.
Publicado na Folha Paroquial da
Santíssima Trindade
Julho de 1998 número 39