Os primeiros séculos: um afastamento recíproco
Entre
os primeiros cristãos e os judeus de seu tempo
houve uma ruptura gradual precipitada pela
destruição do Templo pelos pagãos no ano 70, e
consumada entre essa data e o fim do primeiro
século. O olhar cristão de então sobre os
judeus se admira, e muitas vezes se indigna com a
sua recusa de aceitar Jesus como Messias. Na
atmosfera anti-semita do Império romano, os
apologistas cristãos acentuam as diferenças
entre a sinagoga e a Igreja. Não se pode dizer
que eles tenham recebido verdadeiramente o
mistério de Israel segundo os capítulos 9 a 11
da Carta de São Paulo aos Romanos.
A
diferenciação entre a Igreja e a Sinagoga se
acentua durante esses primeiros séculos, e a
dissimetria espiritual inicial subsiste entre
elas: a Sinagoga não tem necessidade do Novo
Testamento, ao passo que a Igreja não pode
dispensar o Antigo Testamento. A Igreja perceba
isto desde o II século, quando testemunha grande
afastamento com relação ao judaísmo, cuja
evolução a desconcerta.
Desenvolvimento de uma
teologia anti-judaica no IV século
Essa
dissimetria se acompanha duma dissimetria inversa
quando os pagãos entram em multidão na Igreja e
quando, sociologicamente, sua esmagadora
superioridade numérica recebe o poder do
Império tornado cristão. Mas, apesar de seus
trunfos políticos, a cristandade continua com
irritação a sentir a atitude religiosa dos
judeus como um espinho espiritual. O imperador
Juliano Apóstata manobra para opor os cristãos
aos judeus, e surgem conflitos teológicos em que
os cristãos se abandonam a intransigências que
aplicarão em seguida aos judeus. Tanto mais que
se ensina que estes estariam rejeitados, que a
Igreja teria substituído Israel, em vez de estar
enxertada nele, e uma teologia resolutante
anti-judaica se desenvolve neste sentido com os
temas da rejeição, da maldição, do deicídio
etc. São afirmações maciçamente repetidas
desde o IV século.
Massacres e calúnias
Do
século IV ao XVIII, a hostilidade cristã contra
os judeus é constante, com duas tendências
contraditórias. Uma, francamente anti-semita,
agrava constantemente a condição dos judeus; a
outra mantém sem concessões a necessidade de um
"povo-testemunha" judeu para que em fim
se converta. Mas este ponto teórico é
submergido as mais das vezes pela hostilidade da
cristandade. Esta encerra os judeus numa
legislação que lhes interdita funções
administrativas e ao judaísmo. As sinagogas são
fiscalizadas e freqüentemente destruídas quando
de violências populares contra os judeus.
Iniciativas locais, e às vezes imperiais,
exigem, desde os primeiros séculos cristãos, a
conversão dos judeus sob pena de exílio, e às
vezes de morte.
Essa
situação difícil dos judeus é agravada no
século XI, com a reconquista cristã da Espanha
muçulmana, e com as cruzadas. Fazendo guerra aos
infiéis que estão longe, perseguem-se os judeus
que estão perto. Os massacres são acompanhados
de calúnias: eles são acusados de crimes
rituais, de envenenamento, de magia. Queimam-se
os suspeitos e o Talmud. São suspeitos de
traição, expulsam-nos como usuários; e são
obrigados, quando poupados, a levar uma marca e a
ser encerrados num bairro, o gueto. Do século XI
ao século XV a condição judaica se agrava
constantemente, ao se acentuar o anti-semitismo
da cristandade e da Igreja. A lembrança da
catástrofe judaica de 1942, na Espanha, ainda
está viva no judaísmo atual.
Um anti-semitismo de
ressentimento
Um
segundo endurecimento anti-judaico ocorre nos
séculos XVI e XVII, na época em que a
cristandade se divide. Uma vez mais, os conflitos
entre cristãos agravam a condição judaica. A
inquisição de um lado, Lutero de outro, se
entregam ao anti-semitismo ao mesmo tempo que a
vingança e às acusações mútuas. A
cristandade viu, portanto, de século em século
os judeus como inimigos. Mas não são eles, nos
séculos XVIII ao XX que provocaram a
descristianização e a secularização (que
enfraqueceu também as comunidades judaicas).
Isto foi obra de pessoas batizadas. Numerosos
cristãos passaram, então, a um anti-semitismo
de ressentimento. As acusações de complôs
judeo-maçonicos, judeo-protestantes (ou
judeo-católicos em países protestantes)
multiplicaram-se. O ultimo anti-semitismo
cristão foi obsessivo, abrindo caminho para o
Shoah.
A memória do povo mártir
Os
perseguidos têm sempre melhor memória do que os
perseguidores. Esses judeus mortos, queimados,
massacrados em Blois ou no Vale do Reno são
mártires. Eles "santificam o Nome" de
Deus, recusando-se a apostatar sua fé fazendo-se
batizar, A sua fidelidade é lembrada nos
ofícios da sinagoga como fazemos na liturgia com
nossos próprios mártires. O mal é que
cristãos batizados tenham provocado este
martírio dos judeus. Não é uma história tão
antiga. As avanias, humilhações públicas são
moeda corrente até o século XX. O que reunimos
sobre os vocábulos da era constantiniana ou do
triunfalismo cristão, os judeus sofreram mais
duramente, mais tempo do que ninguém. Como
admirar-nos se viram na descristianização um
espaço de liberdade? É preciso ignorar a
história para ficar admirado com isto.
Shoah, ruptura ou continuidade?
Até
o século XVIII a relação entre judeus e
cristãos se confundia com a da Sinagoga e a
Igreja. A secularização da cristandade e das
diásporas judaicas complicou tudo. As relações
socio-religiosas deixam de recobrir as do
cristianismo e do judaísmo. Mas o mundo, de 1943
a 1945 perseguiu mais cruelmente que nunca os
judeus, praticantes ou não. E as vítimas
marcadas por uma história milenar dizem que são
os cristãos, pois foram os batizados que os
perseguiram.
Todos
esses massacres eram de fato sustentados por uma
aberração teológica: a substituição. A
Igreja teria totalmente substituído Israel, que
não tinha mais razão de ser. É com essa
teologia da substituição que o Vaticano II irá
romper, reconhecendo que o mistério de Israel é
intrínseco ao mistério da Igreja.
Na
verdade, o balanço histórico das relações
entre judeus e cristãos vai do século II à
Shoah, a catástrofe ao mesmo tempo anti-semita e
anti-cristã de nosso tempo. Estamos, num segundo
capítulo, muito diferente. Mas é preciso jamais
esquecer o primeiro.
(continua)
Enviado por Leon M. Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da B'nai
B'rith do RJ