DIÁLOGO CATÓLICO-JUCAICO

            
Confissão de pecados

Jubileu do ano 2.000 marcará o exame de consciência da Igreja
           


No livro O ano mil, o medievalista francês Georges Duby identificou um movimento coletivo semelhante ao que acontece agora às vésperas do ano 2000: os atos de purificação do pecado se multiplicaram. "Para o cristianismo, a História é orientada. Deus, em um certo momento, a criou. Num certo ano, num certo dia, tornou-se homem", explicou Duby em seu livro. "A função do millenium para o cristão é ordenar sua história."

"A situação agora é completamente diferente", afirma o padre Jesus Orthal, teólogo da PUC do Rio de Janeiro. "Na chegada do ano mil, havia uma espécie de clima apocalítico". Para o padre, o exame de consciência que a Igreja pretende promover no ano 2000 é algo como uma revisão de vida. "É uma prática muito comum na vida dos católicos. Não tem como objetivo o planejamento do futuro, mas sobretudo a penitência, a confissão dos pecados", diz.

O padre reconhece que o processo de reavaliação dos erros da Igreja, que começou com um Sínodo extraordinário em 1985, tocou em questões fundamentais, como as Cruzadas, a Inquisição, o Judaísmo, o Ecumenismo, o erro em relação a Galileu. "Mas talvez ainda esteja faltando uma revisão da própria vida interna da Igreja ao longo desses quase 2 mil anos", afirma o teólogo.

"A proliferação de pedidos de perdão é uma tentativa de acerto de contas com a história, algo que demonstra muito claramente que os tempos mudaram", analisa Beatriz Jaguaribe, autora de Fins de século: cidade e cultura no Rio de Janeiro. "É o fim de uma retórica legitimizadora de religiões e impérios, o fim de uma visão colonialista da história", acredita. "Mas isso não quer dizer que, de agora em diante, a gente vá viver no melhor dos mundos.

Tradicionalmente, surgem temores milenaristas com a aproximação de um aniversário: no cristianismo, mil ou 2 mil anos após o nascimento de Cristo, no islamismo, mil anos após o início da hégira. Mas é importante distinguir entre o temor de um fim de milênio e o conceito de milenarismo para a Igreja Católica. "Milenarismo não é a expectativa do ano 1000 ou 2000, mas a de mil anos de felicidade na Terra, a última etapa antes do Juízo Final", esclarece o historiador Jean Delumeau, em Mil anos de felicidade. Segundo ele, os temores milenaristas surgem quando se pensa que o fim do mundo, o Juízo Final, pode chegar antes desses tais "mil anos de felicidade". Aí, é melhor estar com as confissões em dia.



Enviado por Leon M.Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da
B'nai B'rith do RJ

 

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