DIÁLOGO CATÓLICO-JUCAICO

          
     Katherina E. Wolff
          

Conseqüências da Shoah na Teologia cristã

           
Em primeiro lugar, quero agradecer-lhes muito cordialmente pelo convite que me fizeram para falar-lhes hoje. Considero um privilégio poder contribuir de algum modo ao trabalho que vocês estão fazendo sobre a Shoah (*). Estou feliz de poder também aprender com vocês neste seminário.

Depois de agradecer, quero pedir desculpas por não ser capaz de falar-lhes em português. Gostaria que isto tivesse sido possível, não apenas porque estou em seu país, mas sobretudo por causa de nosso tema. Sei que Gisa vai traduzir muito bem e desde já lhe agradeço.

Antes de começar a falar sobre as conseqüências teológicas da Shoah, quero contar-lhes um pouquinho sobre mim mesma - acredito que isto também tem a ver com nosso tema. Sou filha de um pai judeu de Berlim, Alemanha, e de mãe cristã, americana de ascendência sueca. Meu pai deixou a Alemanha no final de 1935, foi primeiro para o Panamá e depois para os Estados Unidos. Seu irmão mais novo foi para a Criméia, onde foi morto em 1941. Um tio e uma tia vieram para o Brasil e viveram em São Paulo até 1955. Assim, desde a infância, São Paulo esteve presente em mim - e de modo muito positivo. Então me alegro enormemente de poder conhecer um pouco sua cidade. Se São Paulo me era presente, a Shoah o era ainda mais, não em palavras mas na realidade de nossas e de minha vida. Com este pano de fundo, as conseqüências teológicas de Shoah são absolutamente mais importante para mim, não só por causa do país de onde venho, mas pelo o que eu sou, como ser humano.

No final dos anos 60, uma de nossas irmãs contava a seguinte história:

Ela visitava uma classe de crianças pequenas e, depois de lhes ter falado de Jesus e de suas origens judaicas, ela as convidou a repetir com ela: " Jesus era judeu". Pediu que repetissem várias vezes com ela e notou que a cada vez, menos crianças o repetiam. Finalmente ela perguntou-lhes por que não estavam dizendo isto. Então eu esperava que respondessem que era aborrecido ficar repetindo sempre a mesma coisa. Mas não foi isto que responderam. Pelo contrário, uma criança lhe disse porque eles não estavam repetindo aquela frase tão simples: " dizer que Jesus era um judeu parece tão desrespeitoso."

Esta resposta me parece, apesar de gentil, ser um exemplo significativo dos efeitos do "ensinamento do desprezo", para usar a expressão de Jules Isaac. Eu me pergunto se está resposta ainda viria hoje - e certamente espero que seja menos freqüente. Porque ela mostra uma primeira conseqüência da Shoah na teologia cristã. O fato de que Jesus era um judeu é muito mais presente e aceito hoje em dia (embora muitos ainda fiquem chocados com a idéia de que Maria era uma judia). Para retornar à pergunta de Emil Fackenheim, "onde estaria um Jesus europeu durante um regime nazista?", Acredito que certo número de cristãos hoje responderia com Michael MacGarriy e diria: "em um dos campos de exterminação, com os judeus, seus irmãos e suas irmãs". Se isto representa uma mudança na consciência dos cristãos, acredito que já seja uma conseqüência da Shoah.

O fato de algo tão indescritível como a Shoah ter acontecido no meio da Europa cristã - uma das mais antigas civilizações do mundo - deve questionar os cristãos seja da onde forem. Eu não diria que o cristianismo foi a causa da Shoah. Mas também não posso dizer que foram somente os não cristãos ou os cristãos só de nome que fizeram isto acontecer, nem que a cristandade como tal não tenha nada a ver com isto. O ensino da Igreja sobre o judaísmo e sobre os judeus ajudou a preparar o campo e permitiu o desenvolvimento de uma atmosfera de desprezo, de tal modo que a matança sistemática e industrializada de judeus pareça apenas a conseqüência final e lógica daquilo que os cristãos fizeram tantas vezes no passado e no qual tantos acreditavam.

Depois de 1945, o conhecimento de tais fatos veio como um choque terrível para alguns cristãos - mas, para muitos ainda coloca questões difíceis de serem enfrentadas. No entanto, vários teólogos de grande prestígio estão aprofundando esta questão e, como Johann Baptist Metz disse diante de Auschwitz, "toda a teologia cristã, não apenas a teologia sobre o judaísmo, deve ser revista". (ef Concilium, 1984, pág.47) Vai ser impossível, é lógico, enfocar aqui todas as áreas da teologia em uma única e breve palestra. Posso somente abordar algumas áreas e pedir sua compreensão por ser incompleta.

A primeira área é quase evidente: as relações entre a Igreja e o povo judeu. Durante séculos, a teologia cristã, baseada nos escritos dos padres da Igreja, foi marcada pela crença de que o povo judeu, pelo fato de ter recusado de aceitar Jesus como Messias, e Filho de Deus..., foi repudiado. De acordo com esta teologia, ou pseudo-teologia, a aliança do Sinai com Israel foi revogada e deu lugar à nova aliança em Jesus. Assim a Igreja é o "novo Israel" ou até o "verdadeiro Israel" que, em contraste com o povo de Israel, vive na fidelidade a Deus.

Como se está linha de pensamento não bastasse por si mesma, continuam proclamando que a dispersão do povo judeu através do mundo e o seu sofrimento através dos séculos - muitas vezes nas mãos dos cristãos - são conseqüência, para não dizer castigo, pela não aceitação de Jesus e pelo fato de o terem crucificado - o que, até pouco tempo, era considerado deicídio. Sobre esta base, a melhor coisa que todo cristão poderia desejar para os judeus, era sua "conversão" ao cristianismo.

Com o Concílio Vaticano II, começou uma nova era na Igreja católica, que repercutiu também mais tarde em algumas Igrejas protestantes da Europa. Neste meio tempo, alguns documentos eclesiais foram promulgados, começando pelos católicos com "Nostra Aetate". Em termos de Igreja católica, eles incluem afirmações iguais às das conferências episcopais e suas comissões. Houve também bom número de declarações de várias igrejas protestantes. Nós, irmãs de Sion, participamos deste processo de mudança e nossas constituições, aprovadas pelo Vaticano em 1984, refletem isto muito claramente.

Todos estes documentos revelam um espírito novo e muito diferente. O povo judeu não é mais responsável de deicídio e não é mais considerado rejeitado por Deus, portanto, irrelevante para a teologia. Sua experiência de quase 2000 anos não é considerada como conseqüência necessária e castigo. Ao contrário, teólogos começaram a ver a permanência do povo judeu através dos tempos como um sinal da fidelidade tanto da Palavra de Deus a Israel como das promessas messiânicas feitas a Israel em vista da toda a humanidade e da criação. Alguns compreendem o povo judeu como tendo um significado teológico que atinge a Igreja. Desde o princípio da comunidade cristã, os cristãos viam os judeus como uma ameaça, pelo fato de não terem dado a mesma resposta à pergunta: "e vocês, quem dizem que é Jesus?" (cf .Mt. 16,13 e paralelos).

Hoje teólogos começaram a ver que, por causa mesmo da grande diferença de sua resposta, os judeus ajudam os cristãos a lembrar algo de essencial para sua própria resposta a esta pergunta. Alguns vêem a permanência do povo judeu como querida por Deus e, portanto, teologicamente necessária. A Igreja não tenta mais fazer prosélitos entre os judeus e alguns consideram este esforço de proselitismo como a continuação do desejo de ver desaparecer os judeus como povo autônomo e como religião. Ao contrário do passado, quando os cristãos olhavam para os judeus, sua fé e sua prática apenas através dos olhos da interpretação cristã, agora os documentos da Igreja convidam os cristãos a ouvirem o que os judeus dizem de si mesmos e como eles se vêem eles mesmos. Isto pode parecer uma coisa simples e óbvia, mas já é uma mudança tremenda por reconhecer-lhes o direito de existir como outro.

Neste resumo rápido e incompleto de algumas das conseqüências da Shoah na teologia cristã, toquei, ou apenas me referi a algumas saídas que agora gostaria de aprofundar um pouco mais.

A primeira se refere à Cristologia: quem é Jesus para nós? Logicamente não é o momento de tratar disto em profundidade. Deixem-me apenas pincelar dois aspectos. Diante da Shoah, uma das maiores questões refere-se à fé cristã em Jesus como Messias. Muitas vezes judeus dizem aos cristãos: como podem vocês acreditar que o Messias já veio? Olhem o nosso mundo. O que é messiânico nele? Se consideramos a Shoah confrontando-a com esta pergunta, a resposta se torna mais difícil. Então podemos ainda dizer que Jesus é o Messias? E o que queremos dizer quando a afirmamos que sim? E se o que queremos dizer tem alguma coisa a ver com o conceito e a expectativa dos judeus em relação ao Messias ou aos tempos messiânicos, devemos refletir e explicar muita coisa. O mesmo pode ser dito relativamente à redenção. Face à Shoah, o que pode significar dizer que a redenção já se realizou?

Não é fácil responder a várias destas questões. Teólogos estão trabalhando sobre isto, em diálogo também com judeus. Uma de suas linhas de respostas conduz-nos à outra área de questionamento teológico, a escatologia.

A resposta cristã a esta pergunta "quem é Jesus?" inclui a certeza de que, em Jesus, se realizaram as Escrituras e as promessas de Deus. De novo, diante da Shoah, o que significa isto? Se nós aceitamos seriamente o fato de que vivemos no espaço e no tempo e de que nossa fé não pode significar uma espiritualização total da vida, mas tem algo a ver com este espaço e este tempo __ uma premissa que, por isto mesmo, cresceu através do diálogo com judeus depois da Shoah __ então não podemos continuar proclamando uma plenitude já realizada. Não se deve dizer que abandonaríamos nossa fé na ressurreição de Jesus. Mas, como o apóstolo Tomé, não perderíamos de vista as chagas, as de Jesus e as dos outros seres humanos espalhados pelo mundo todo, e as nossas também. Se acreditamos que alguma coisa foi realizada em Jesus, reconheceríamos também que nele nos foram dadas as primícias e não toda a colheita. Nossas chagas permanecem, nós ainda não experimentamos a plenitude das promessas. Pelo contrário, vivemos na esperança.

Esta esperança me leva a uma terceira área de novas pesquisas teológicas: a Igreja ou a Eclesiologia. Se vivemos na esperança, não somos a igreja triunfante que já tem tudo isto e na qual o reino de Deus já é uma realidade _ pontos muito enfatizados no passado. Nós somos, sim a comunidade dos que crêem, dos que caminham para a revelação plena daquilo que esperamos. E estamos indo junto com que também caminham para a realização de sua esperança, os judeus em primeiro lugar. Se isto é verdade, podemos nos encontrar, uns e outros, e a igreja não virá mais com espírito de arrogante dominação em relação aos judeus, mas buscando, procurando, questionando-se, dando e recebendo apoio enquanto caminhamos juntos.

Isto é bem diferente da convicção triunfalista de que a Igreja é o único caminho para alcançar a plenitude. Nos últimos anos, a Igreja assim como a teologia cristã, se tornou mais consciente da experiência e do valor não apenas do povo judeu mas também de outras crenças. Esta consciência levou a outros questionamentos importantes: "o que é único em Jesus? Qual é o caminho para a "salvação" - e o que é salvação? - Ou haverá vários caminhos"... e eu posso continuar fazendo perguntas.

Vocês poderiam dizer, depois de tudo isto, que não fiz mais do que mostrar algumas saídas teológicas que são importantes para o diálogo cristão-judaico em nossos dias. Isto pode ser verdade. Mas eu creio que este é precisamente o ponto principal: respostas importantes para o diálogo com judeus são respostas centrais na teologia cristã e, como diz Baptist Metz, toda a teologia cristã deve ser revista face à Shoah. Ser confrontado com a Shoah vai dar muito trabalho. Nestes últimos 50 anos alguns progressos têm sido feitos, mas ainda fica muito por fazer.

Certamente vocês perceberam que até agora não fiz nenhuma menção à Bíblia. Nesta área muito já tem sido feito - e muito trabalho ainda precisa ser feito. Por outro lado, a Bíblia se tornou a base a qual os cristãos se prendem, os católicos sobretudo, porque tinham deixado a Bíblia mais radicalmente esquecida. Esta volta à Palavra de Deus é maravilhosa sob vários aspectos. E também está relacionada com nosso tema. Comecei falando sobre o conteúdo do magistério do cristianismo, com forte base nos escritos dos padres da Igreja.

O que eles escreveram, muitas vezes, eram comentários sobre textos bíblicos, tanto da Bíblia hebraica como do novo testamento. Hoje em dia, os mais jovens, mas também os escritos exegéticos clássicos têm sido usados pelos estudantes de Bíblia no mundo todo e estes escritos contém sempre uma teologia de substituição que só vêem nos textos da Bíblia hebraica a imagem daquilo que se encontra no Novo Testamento. Assim, a exigência de Metz para que toda teologia seja revista, deve incluir também a área da exegese e da teologia bíblica.

Dependendo do modo como compreendemos e interpretamos a Bíblia, seu estudo pode nos levar a bons encontros com os judeus ou novas e velhas formas de anti-judaismo. Para melhor ilustrar o que eu quero dizer, vou dar-lhes dois exemplos desencorajadores do trabalho bíblico moderno. Nos Estados Unidos, e na Europa muitos estudos bíblicos têm sido feito em ligação com a teologia feminina. No início foram feitos muitos comentários anti-judaicos errados no que se refere às Escrituras e à realidade judaica, o que levou, mais uma vez, a denegrir o judaísmo. O outro exemplo é a teologia da Libertação, pelo menos em alguns de seus escritos. Alguns teólogos da libertação interpretam os acontecimentos da Bíblia hebraica de tal modo que parece que o povo de Israel não existe mais. Os textos são compreendidos apenas em vista da experiência atual. Mesmo que seja válido apresentar textos relacionando-os com nossa própria vida, quando isto significa que o povo judeu, cuja experiência está na origem, é esquecido ou deliberadamente deixado de lado, isto constitui uma forma moderna da teologia de substituição. Israel é substituído pela Igreja, ou por uma parte da Igreja.

Alguns exegetas e teólogos começaram a considerar importante e proveitoso estudar a Bíblia junto com judeus e à luz da interpretação judaica. O povo que, primeiro, recebeu a revelação da Palavra de Deus teve longa experiência de acolher esta Palavra e de viver dela, experimentando o que ela pode significar em suas vidas. Os cristãos estão apenas começando a compreender que a interpretação judaica também pode ser uma luz para eles.

Mas há outro aspecto que toca especialmente os cristãos. Não só os Padres da Igreja foram causas de reações anti-judaicas através dos séculos. Muitos textos do Novo Testamento também foram. Vou mencionar alguns exemplos: As narrativas da Paixão; O modo de apresentar os Fariseus; A expressão de João "os judeus" ; alguns argumentos de Paulo, principalmente acerca da lei, etc. Também através da má interpretação, da ignorância histórica, ou porque o próprio texto é anti-judaico, tais textos contribuíram para perseguição aos judeus através dos séculos - e esta perseguição culminou finalmente na Shoah.

Tal afirmação é chocante e dura de aceitar. No entanto, se queremos evitar que alguma coisa, mesmo longínqua, comparável à Shoah, possa jamais acontecer, devemos enfrentar esta realidade e trabalhar em cima dela. Este trabalho envolverá muito questionamento e áreas: estudo do contexto histórico dos textos; questões de tradução; questões referentes ao emprego de alguns textos - ou não - no contexto litúrgico, etc. é preciso também que aqueles que estão envolvidos com a exegese, e todos os que ouvem o Novo Testamento à luz de sua fé cristã se tornem cada vez mais impregnados do Espírito de Jesus de modo que possam distinguir o que está de acordo com este Espírito e aquilo que não poderá nunca coincidir com o que Jesus viveu e ensinou.

Falei de várias áreas da teologia onde um trabalho foi feito e ainda continua. Não falei ainda da própria Shoah. É mais difícil, mais não posso terminar sem o fazer. Se a Shoah não nos deixa totalmente sem palavras, ela levanta muitas questões. Eu gostaria de falar de duas delas: Em confronto com a Shoah, quem é Deus? E quem são os seres humanos?

Lembro-me da conversa com um rabino em Jerusalém sobre a possibilidade de crer depois de Auschwitz. Ele dizia: " Deus nos salvou do Egito, com a mão poderosa e braço estendido - e no Egito nós estávamos bem em comparação a Auschwitz. Porque Deus não nos livrou das câmaras de gás? Mas, continuou o rabino, " Deus estava conosco em Auschwitz, e por isto eu posso crer ". Em outra conversa, desta vez com um sobrevivente de Auschwitz-Birkenau, uma razão foi dada para crer que Deus estava conosco em Auschwitz. Meu amigo disse " Deus estava conosco porque onde estava o povo, havia alguém para repartir a sua ultima caneca de sopa."

Voltemos ao rabino e sua afirmação. Para mim isto resume as questões que vêm sobre Deus em face da Shoah. De fato, seu comentário pode suscitar muitas discussões. Mas o fato permanece que seis milhões de judeus foram mortos - sem mencionar muitos milhões de outros - do mesmo modo como Deus parece calar-se e não interferir em tantas outras situações de nosso mundo de hoje. Por quê? O que podemos dizer deste Deus?

Refletindo sobre a Shoah, o filósofo judeu Hans Jonas, chegou à conclusão de que Deus não pode ser totalmente-justo, totalmente-misericordioso e totalmente-poderoso ao mesmo tempo. Se a Shoah foi possível, então é impossível para Deus ser uma destas três. Jonas concluiu que Deus não é Todo-Poderoso. Deus entregou a criação e, nela, a humanidade, a sua próprias fraquezas, e Deus não pode interferir. Isto se liga, me parece, à tradição mística judaica do "tsimtsum", pela qual Deus se esvaziou quando decidiu criar o universo, com a finalidade de fazer espaço para aquilo que seria outro que não Deus.

Esta linha de pensamento tem, naturalmente, conseqüências sobre o modo como a pessoa humana e a humanidade como um todo deve ser compreendida. Nós não somos visceralmente dependentes de Deus, mas criado com a característica essencial da liberdade. Junto com esta liberdade, recebemos uma grande carga de responsabilidade. Como coloca o teólogo católico John Pawlikowski, somos co-criadores com Deus - tarefa que é nitidamente mostrada no relato da criação. Pawlikowski chega a dizer que isto significa também que a redenção não se pode realizar sem a cooperação humana. Deus não pode interferir se nós não participamos e não permitimos que Ele o faça.

Pawlikowski chega a falar da Shoah como de uma terrível conseqüência de uma nova falta de consciência da liberdade, que se desenvolveu na humanidade desde de o iluminismo e em particular com os novos conhecimentos tecnológicos. Ele vê a Shoah como a conseqüência do desejo de colocar o ser humano no lugar de Deus. Pawlikowski acredita que agora precisamos é de um novo sentido de Deus transcendente e de novas experiências deste Deus, assim como de um novo sentido e experiência da relação entre Deus e a pessoa humana e toda a humanidade.

Gosto muito e partilho da linha de pensamentos de Pawlikowski. Tenho outros questionamentos ainda e não quero deixar Deus fora da luta tão facilmente. Por que Deus criou o mal, como diz o profeta Isaías (cf.Is.45,7)? Ou, se isto é muito forte para se dizer, porque Deus criou a possibilidade de fazermos o mal em tão enorme extensão?

Mas ao mesmo tempo, estou convencida de que o esforço para exterminar o povo judeu foi também o esforço para exterminar Deus - o Deus que falou e fala em nosso mundo e à nossa realidade humana através deste povo. Elie Wiesel, outro sobrevivente, fala sobre isto no seu livro, A Noite , quando três prisioneiros eram levados ao campo, entre eles um jovem, um prisioneiro através de Wiesel pergunta "Onde está Deus?" e uma voz dentro de Wiesel diz "Ele está aqui. Deus está sendo levado aos trabalhos forçados". Sim, eu penso que a chamada "Solução final do problema judeu" significou também a solução do final do problema de Deus. Como resultado, junto com meu questionamento sobre Deus, eu quero também consolar Deus e acolhê-lo, dando-lhe motivo para se alegrar por nos ter criado homens e mulheres.

Tal acolhimento a Deus deve estar ligado ao acolhimento do outro. Falei de novas atitudes cristãs para com os judeus e isto deve ser a primeira conseqüência da Shoah. Agora, entretanto, quero abrir nossa reflexão, nem que seja brevemente, para dizer que esta acolhida deve incluir todo ser humano de um modo ou de outro. A Shoah fez cristãos, ao menos alguns, mais conscientes de sua responsabilidade de conservar e intensificar a vida em todos os aspectos da nossa existência na terra. Isto para dizer que, frente à Shoah, a teologia moral também deve ser revista. Racismo, problema da fome, direitos humanos, ecologia, armamento nuclear - para nomear alguns dos problemas mais graves com os quais lidamos em nossos dias - essencialmente têm alguma coisa a ver conosco e devem ter lugar em nossa teologia.

A Shoah não deve apenas nos fazer mais conscientes de nossa responsabilidade em relação a grandes problemas. Para nós, que estamos vivos hoje, depois da Shoah, isto nos deve dar uma sensibilidade maior às necessidades dos seres humanos, nosso próximo independentemente de nacionalidade, religião, sexo, cor da pele, habilidades ou falta de habilidades. O confronto com a Shoah começou a tornar alguns cristãos mais conscientes da encarnação - Deus se tornou homem judeu entre judeus. Possa isto também nos fazer muito conscientes da encarnação no sentido mais profundo do sagrado da vida humana, embora a vejamos tão limitada e estranha, e com ela toda a criação.

Espero e rezo para que cristãos e judeus, se lembrando do que aconteceu, possamos continuar mais unidos e ser cada vez mais capazes de trabalhar juntos, como livres e responsáveis parceiros de Deus na obra da criação e da redenção, e partilhar a esperança comum - a plenitude que Deus nos dará.

São Paulo, 05 Junho de 1996.

Katherina E. Wolff - NDS

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(*) Shoah é uma palavra hebraica que se encontra na Bíblia e que quer dizer destruição, catástrofe. Cada vez mais, na América do Norte e na Europa, se prefere usar este termo, em vez de Holocausto, para indicar a perseguição do povo judeu sob o regime nazista. Holocausto vem do domínio sacrifical. Designar a perseguição maciça dos judeus pela palavra Holocausto pode ter conotações de algo desejado por Deus, alguma coisa que presta homenagem a Deus. E isto parece mais uma blasfêmia no contexto do assassinato de 6.000.000 de judeus sob Hitler. Mesmo se não há palavras que possam expressar o horror desta realidade, o termo Shoah parece ser mais exato que outros.

 

Enviado por Leon M.Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da
B'nai B'rith do RJ

 

Editoração e Coordenação:
IRENE SERRA
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