DIÁLOGO CATÓLICO-JUCAICO

            

CONVERTER O POVO JUDEU - ALAIN GOLDMAN

             

O antigo Grande Rabino de Paris, Alain Goldman há muitos anos é membro do Conselho Nacional das Amizades Judeu - Cristã. Ele aqui enfoca um ponto de vista não muito favorável à Igreja,

A.J.: V.S. acha chocante a recente canonização de Edith Stein e a declaração do Papa que quer estabelecer um dia para a Shoah?

A.G.: Estou chocado e triste. A decisão do papa em canonizar Edith Stein demonstra uma vontade de anexar a Shoah ao cristianismo e esquecer o seu caráter específico. A data escolhida é 9 de agosto. A cada ano, no mês de agosto, teremos de agora em diante a impressão que o Templo de Jerusalém está sendo destruído pela terceira vez. Não podemos aceitar esta beatificação e canonização porque a Igreja está tentando englobar os judeus que morreram como judeus. Isto me atinge particularmente porque muitos membros da minha família morreram vítimas da Shoah.

A.J.: A floresta de cruzes que surgiram em Auschwitz desde o mês de julho procede, na sua opinião, à mesma vontade?

A.G.: Já tem a cruz do papa. O falecido Mgr. Decourtray tinha se comprometido em transferi-la. Disseram-me que são os poloneses que estariam se opondo a essa transferência. Todavia penso que se o papa estivesse disposto a exercer uma pressão neste sentido, as coisas seriam bem diferentes. Outros pequenos incidentes desse tipo nos dão a pensar que existe uma vontade da Igreja católica ir mais longe ainda. Até Jerusalém talvez. Tudo isso sem dúvida faz parte de uma lógica da Igreja.

A.J.: V.S. poderia explicar um pouco a respeito desta lógica?

A.G.: A lógica de converter o povo judeu. Tertullien dizia: "Fora da igreja não há salvação". Talvez estejam tentando atualizar esta idéia de maneira mais insidiosa. Todavia nunca podemos esquecer que muitos padres e freiras nos ajudaram durante a guerra, como também civis.

A.J.: V.S. estaria sob a impressão de que existe um distanciamento ao nível elevado da Igreja em relação ao v~Vaticano?

A.G. Acho que sim. Após séculos de perseguições e sofrimentos nós tivemos a esperança de uma aproximação entre as diversas crenças.
Não podemos nos contentar com um pequeno gesto por parte do Papa de visitar a sinagoga de Roma. Eu pessoalmente desejaria que o Papa um dia declarasse que ser judeu perante Deus é também ser o seu filho da mesma maneira que um cristão, sem termos que negar a nossa fé que nos custou tantas vítimas durante séculos.

 

Entrevista efetuada por Claude Meyer
Fonte: Journal Actualité Juive/11-1998
Enviado por Leon M.Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da
B'nai B'rith do RJ

 

Editoração e Coordenação:
IRENE SERRA
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