DIÁLOGO CATÓLICO-JUCAICO

           

Trechos do livro "ENCONTROS MARCADOS COM DEUS: EXPRESSÃO DA UNIDADE DO POVO DE DEUS "

ANTÔNIO CARLOS COELHO
EDITORA PAULINAS

        
PREFÁCIO

Durante os nove anos como rabino da Comunidade Israelita de Curitiba-PR tive a sorte de compartilhar junto ao caro amigo professor Antônio Carlos da Costa Coelho a responsabilidade da delegação no Paraná da Comissão Nacional de Diálogo Religioso Católico-Judaico da CNBB. No entanto, o que mais nos uniu foram as aulas que demos no Studiam Theologicum e outros estabelecimentos educacionais sobre o judaísmo e, sobretudo, as festividades judaicas, da minha parte, e a complementação cristã, por Antônio Carlos. Agora estou diante de um livro que, no meu entender, tem a virtude de compendiar e apresentar para o leigo ou o religioso a essência viva das festas judaicas, acompanhada de citações bíblicas e comentários pertinentes que se complementam com a menção nos Evangelhos. Este livro, à parte ser muito didático, é um aporte muito importante ao diálogo judeu-católico, pois o verdadeiro diálogo deseja, como primeiro passo para entender-se, o estudo como modo de compreender as raízes e a ação social aliada para solucionar angustiosos problemas sociais. Sabemos pelo menos aquilo que nos une: a crença em um Deus único, a afirmação de um universo espiritual onde desenvolvemos a vida religiosa, a crença no valor de cada indivíduo e seu lugar especial no desenvolvimento da história. E finalmente, temos em comum compartilhar a fé messiânica em um futuro que dará ao homem a possibilidade de algo melhor que o presente do nosso tempo.

Buenos Aires, julho, 1998
Dr. Simón Moguilevsky
Rabino da Congregação Israelita da República Argentina

INTRODUÇÃO

As festividades descrevam a vida de um povo. Suas datas marcam os acontecimentos da vida política, econômica, religiosa, cultural. No calendário, algumas têm maior importância, são observadas com festejos especiais e feriados parciais. No calendário ocidental, o gregoriano, normalmente as festas nacionais têm pouca relação com as festas religiosas, salvo algumas exceções, como é o caso das datas religiosas já integradas na cultura do povo, ou por um digno respeito à religião da maioria da população: Natal, Páscoa, Sexta-feira Santa, Corpus Christi. As outras festas das Igrejas são observadas apenas pela liturgia. Há também as datas importantes apenas para grupos minoritários, que são guardadas somente em suas comunidades. As festividades judaicas são observadas, em sua grande maioria, com rigor pela comunidade. Há festas maiores e menores. Há algumas que exigem maior observância do que outra. No judaísmo, elas freqüentemente têm mais de um significado: são datas nacionais com caráter espiritual. A vida da nação judaica está profundamente ligada à vida religiosa. Explica-se: é o povo da Bíblia. Um povo que nasceu entre fatos humanos e divinos. Que interpretou sua vida na ótica do espírito e, sempre soube encontrar nos acontecimentos mundanos a presença da divindade. Ora, se as festas marcam os passos da vida, os judeus deram seus passos na história acompanhados por Deus. Isto está gravado profundamente no caráter do povo. Os primeiros cristãos eram judeus. Assim trouxeram em sua bagagem religiosa e cultural elementos fundamentais para a vida cristã. Embora a experiência cristã seja muito diferente da judaica, eles a fizeram com um coração judeu: a "judaidade" nos cristãos, por divergente que fosse da fé em Jesus Cristo, não poderia ser abandonado. Isto trouxe para a Igreja uma riqueza única, constituindo assim, a base da liturgia, da exegese, da doutrina. O Novo Testamento foi quase que, totalmente, escrito por esses judeus cristãos. Nas próximas páginas é isso que procurarei mostrar: as festas judaicas no Novo Testamento; minha intenção é transmitir para cristãos a riqueza espiritual que se traduz na liturgia hebraica. Por outro lado, os judeus, obviamente conhecedores dessas festas, poderão perceber o quanto transmitiram para os seus irmãos mais novos, os cristãos. Embora as festas não sejam descritas com fidelidade no testamento cristão, pois não era esse o interesse dos autores, elas servem para ilustrar situações, reforçando o sentido das palavras e gestos de Jesus; também, muitas vezes, têm seu sentido retomado dentro do pensamento dos evangelistas. O Conhecimento das festas judaicas permite melhor compreensão da liturgia cristã, embora este livro seja apenas um começo. Acredito que com ele possa levar a um maior e melhor conhecimento do judaísmo, contribuindo para diminuir a distância que separou os dois credos e para recuperar as semelhanças que unem judeus e cristãos. Espero, também, que possa facilitar a "repatriação" de Jesus ao seu povo e, de certa forma, "repatriar" o espírito cristão às suas origens. Não tratarei de todas as datas festivas, mas apenas das mais importantes e daquelas que aparecem nos escritos cristãos, excetuando o Pudim, uma festa importante que não poderia ser deixada de lado. O estudo das festas é uma bela maneira de aproximação. Aliás, festa é encontro de amigos, de gente que deseja celebrar com a mesma alegria um fato muito importante para a vida. Escrevo este livro a partir das pesquisas, das anotações das minhas aulas e da experiência. Falo das festas que vivenciei em Israel, nas sinagogas e na casa de amigos. Escrevo a partir da experiência que tenho no convívio com meus irmãos judeus. Um convívio grato que me faz tanto bem e hoje me é imprescindível. Portanto, ao escrever sobre as festas, escrevo sobre meus amigos, aqueles com quem festejo e rezo na sinagoga da minha cidade.


Enviado por Leon M.Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da
B'nai B'rith do RJ

 

 

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