DIÁLOGO CATÓLICO-JUCAICO


            
Aaron Malcom Schwartz

         
Quando a Igreja deseja cristianizar o Holocausto
             

O Concílio Vaticano II habituou-nos a encarar as relações entre judeus e cristãos como normalizadas. A recente canonização de Edith Stein, a comunicação do Papa da introdução de um dia de lembrança do Holocausto, precisamente no dia do desaparecimento desta judia convertida e as múltiplas cruzes que surgiram em Aushwitz nos levam a analisar sua complacência, a atitude da Igreja em relação aos judeus.

A palavra foi dada aos especialistas.

Roma: Novo Israel? Novo Holocausto?

Pequeno histórico da vontade de hemogenização da Igreja.

"Quantas divisões militares tem o Papa?" Indagava freqüentemente Stalin. Os comunistas nunca apreciaram em seu justo valor a formidável máquina de luta pelas almas da humanidade que é a Igreja católica. Outrossim, o mundo judaico vive em seu imaginário. Esperava-se achar uma serenidade amena nas relações judaico-católicas depois de milênios perturbados pelo desprezo, mas constata-se atualmente com amargura que não há mais que ambigüidades e desencontros por parte da Igreja. Os responsáveis judeus devem compreender que antes de virar a página da história é necessário inicialmente ter lido e analisado a mesma. A Igreja que têm diante de si funciona como uma entidade político-religiosa competente e bem informada sobre o que se passa em cada país. Dirigida por meio de um colegiado, por um monarca absoluto e pela cúria romana, a Santa Sé exerce uma grande influência internacional através de seus fiéis, que sabem que todo recalcitrante é ameaçado de morte espiritual pela excomunhão.

A AVERSÃO À REPÚBLICA

O Holocausto é, em parte, um produto do confronto da Igreja com a República democrática laica saída da revolução francesa. Furiosa por ter sido descartada, Roma resistiu, enquanto que o anti-clericalismo não cessava de aumentar. Em 1905, o governo Rouvier fez votar a separação das Igrejas do Estado, com transferência dos bens das Igrejas para as associações de culto. O Papa Pio X recusa esse compromisso, e o governo responde, distribuindo os bens para as obras religiosas. Daí em diante o anti-clericalismo não é mais um assunto de alta política. Considerando, mais tarde, esta situação, o Papa Benoît XV reconhece diplomaticamente a França mas a Igreja guarda rancor contra os regimes republicanos.

O MODELO PORTUGUÊS DA AÇÃO CATÓLICA

A República turbulenta e anti-clerical de 1910 não demorou em separar a Igreja do Estado, em Portugal. Porém sete anos depois, à Igreja Portuguesa atribuiu-se um milagre oficial. A Virgem apareceu em Fátima. Há profecias, das quais uma é reservada ao Papa. Os anos futuros trarão duras provas, mas no fim, mesmo a Rússia será convertida, palavras remarcáveis considerando-se que a Rússia é ortodoxa antes de ser comunista. Para a Igreja, essa mensagem provoca um verdadeiro choque salvador e os acontecimentos se aceleram nesse sentido. Em 9 de julho de 1926, o general Carmona toma o poder em Portugal e instala o "Novo Estado" cuja ideologia é posta em vigor com o apoio do Doutor Salazar. Eles empregaram os termos desenvolvidos nas profecias de Fátima, por Mussolini e pelo Papa Pio XI em sua encíclica sobre uma reconstrução cristã do mundo, dentro da ótica da paz do Cristo no "Reino do Cristo". É uma ideologia absoluta oara os movimentos da ação católica, visando substituir a República, responsável por todos os males. Em oposição à democracia pluralista e ao laicismo, o "Novo Estado" tem um caráter unitário e corporativo. Favorece a família e exalta um nacionalismo onde a Igreja católica é o símbolo da nação.

DA POLÍTICA DO "INTER MARE" AO PESADELO DO GENOCÍDIO

Em 1922, a estabilidade do regime permitiu a proclamação da URSS. O Vaticano reage com uma linha de ação vigorosa. Denominada "Inter Mare", essa política é posta em prática, entre o Mediterrâneo e o Báltico, um conjunto de países do tipo "Novo Estado". Esse espaço de ação católica tem por missão fazer um tampão contra a expansão do comunismo e de contribuir para a conversão da URSS . A região "Inter Mare" é composta de uma sucessão de etnias muito nacionalistas e xenófobas.

Os partidários do "Novo Estado" demonstraram ser de uma força respeitável graças aos elementos das paróquias locais que participavam ativamente. Outras, conforme o núncio, encorajavam seus gestos de simpatia. Na verdade, o "Novo Estado" nos países latinos, trata duramente seus oponentes, mas não estão voltados para os genocídios. O espaço "Inter Mare", o nacionalismo exacerbado abriu a "Caixa de Pandora" para as nacionalidades já prontas demais a oprimir suas minorias. Além disso uma Igreja comprometida é moralmente ausente.

Em março de 1938 a Hungria decreta as primeiras leis sociais, sem que a Igreja proteste. Em todos os lugares dentro da "Inter Mare" existe esse mesmo consenso inexorável que vai levar à Shoah. Entretanto, em 1926, o Papa Pio XI se preocupara condenando a ação francesa e excomungando Charles Mauras.

Em 1937 ele reage contra os nazistas, em sua encíclica "Mit brenender Sorge", mas seu secretário de Estado, o Cardeal Pacelli, futuro papa Pio XII, impede sua aplicação. Já no tempo de sua nunciatura na Alemanha, ele não atacou o problema das provocações raciais do partido nazista, apesar de possuir meios para agir na Baviera, muito católica, contra um partido cujos líderes, na sua maior parte eram de origem católica. Como Papa, conhecia a extensão do mal, e se fez voluntariamente cúmplice através de seu silêncio, enquanto seus irmãos humanos corriam o perigo de serem exterminados.

EM DIREÇÃO A UMA SHOAH ECUMÊNICA

O Exército vermelho varreu tudo. De acordo com os americanos, o Vaticano colocou em andamento os movimentos que contribuíram para a queda do bloco soviético. Ora, nenhum país volta à ideologia antes da guerra. Pior, o modelo português sucumbe à cultura ocidental, e a proeminência da Igreja é contestada. No "Inter Mare", uma vez mais, os episcopados incentivam os militares da ação católica. A Igreja perde velocidade. O Papa João XXIII e o grupo do Cardeal Koening guiam uma renovação, inicialmente, o concílio Vaticano II, depois com o Papa Paulo VI, que mobiliza as massas e militantes com suas viagens e numerosas canonizações de impacto local. João Paulo II continua engajando a Igreja na "nova evangelização" e há uma reaproximação de confissões. Embora com seu rival ortodoxo, haja uma guerra não confessada. A Santa Sé pratica o ecumenismo, mas reativa os Patriarcas ligados a Roma. As relações com o judaísmo têm seus lados positivos, entre a rejeição pelo Vaticano II da acusação de deicídio, o perdão aos bispos da França sob a ocupação e o arrependimento da Igreja sobre o anti-semitismo e a Inquisição.

Entretanto, há um verdadeiro problema teológico. Saídos da Shoah, os judeus restabeleceram um Estado potente e, por este fato, não manifestam mais sinais de decadência, mas de graça. A Igreja se encontra então em uma situação de impostura, pois sua autoridade provém da eleição de um novo Israel cristão e de rejeição do antigo "povo eleito". Ela encara esses contratempos em dois fronts: através de manobras para conter o Estado e pela ecumenização da Shoah. Primeiro golpe, a ação católica exige em Carmel construções em torno de Auschwitz, depois planta uma floresta de cruzes. Chocados os líderes judeus negociam. A Igreja se mostra conciliante e pede em troca a criação comum de um centro dedicado à memória da Shoah. Apesar dos acordos, a presença católica nos campos se intensificam. Se sentindo enganados os judeus se zangam. Mas a Igreja reafirma sua boa fé e põe a culpa sobre grupos ditos incontroláveis. Entra-se numa outra fase, a da nova evangelização, com as canonizações relativas à Shoah. Primeiro a de um padre católico para testar a reação pública, em seguida a de Edith Stein, cuja ambivalência judaico-cristã abre a porta para a celebração de uma Shoah ecumênica, numa data fixada pela Igreja. Além disso, a publicidade que cerca esse fato põe em foco que uma grande intelectual judia tornou-se católica fervorosa. Apagando as distinções entre as duas religiões, a Igreja procura obscurecer seu papel na Shoah e a facilitar conversões. No empenho de continuar sua missão, ela ainda reserva surpresas para o judaísmo, talvez mesmo um Consistório, rezado em hebraico mas ligado a Roma. Afinal, será que a deterioração das relações entre a Igreja e o judaísmo é inevitável ?

Talvez não, se se acreditar na profecia católica de São Malaquias que prevê para breve um certo fim da Igreja e a eleição de um Papa judeu!!

 

Traduzido por Victoria Cardim
Fonte: Atualidade Judaica
Enviado por Leon M.Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da
B'nai B'rith do RJ

 

 

Editoração e Coordenação:
IRENE SERRA
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