DIÁLOGO CATÓLICO-JUCAICO


            
Rabino Henry Sobel

            

O VATICANO E OS JUDEUS
          

O documento sobre a Shoah, divulgado pelo Vaticano no mês de março, após 11 anos de preparação, foi descrito pelas autoridades da Igreja Católica como um "ato de arrependimento" em nome daqueles cristãos que pouco ou nada fizeram para deter o assassinato em massa dos judeus durante a Segunda guerra Mundial. Os líderes judaicos, em sua grande maioria, receberam o documento com frieza. Muitas organizações judaicas internacionais, entre as quais o Congresso Mundial e a B’nai B’rith, apressaram-se em apontar falhas. Criticaram especialmente três pontos: as elogiosas referências ao Papa Pio XII, retratado como um pontífice que se empenhou em salvar vidas judaicas; o fato de o documento reconhecer apenas a omissão de indivíduos católicos diante das atrocidades nazistas, e não a omissão da igreja como instituição; e a afirmação de que o anti-semitismo nazista foi de cunho sócio-político, não tendo nada a ver com os ensinamentos anti-judaicos do cristianismo.

Confesso que fiquei um tanto decepcionado quando li o documento pela primeira vez. Não há dúvida de que Nós Recordamos: uma reflexão sobre a Shoah deixa muito a desejar, principalmente se a compararmos às recentes declarações das Conferências Episcopais na Alemanha e na França, muito mais enfáticas na admissão de culpa pela disseminação de preconceitos, que criaram, na Europa católica, um terreno fértil para a ideologia nazista.

Mesmo assim, não podemos subestimar a importância e o impacto histórico do pronunciamento do Vaticano. Ao invés de analisarmos e criticarmos cada virgula no texto, creio que devemos tentar captar o espírito do documento. No mínimo, é um primeiro passo razoável e, a partir dele, poderão futuramente nascer outras declarações mais incisivas. Ouvi de alguns amigos católicos que talvez o próprio Papa esteja preparando uma carta apostólica sobre o assunto, que seria possivelmente divulgada por ocasião de sua visita a Jerusalém na virada do milênio.

Seja como for, os dirigentes judaicos que tão duramente atacaram o documento parecem ter se esquecido de um princípio elementar da psicologia humana: criticar todos os defeitos do outro e não valorizar suas virtudes é o meio mais eficaz para destruir um relacionamento. Isto vale para as relações entre marido e mulher, entre pais e filhos, entre judeus e católicos também.

A dureza é válida e necessária em muitas circunstâncias. Sem ela, a comunidade judaica mundial não estaria comemorando agora o 50º aniversário do Estado de Israel. Mas em nossa relação com a Igreja Católica, a abordagem tem que ser outra, a meu ver. Nesse caso, um posicionamento rígido de nossa parte só pode pôr a perder a boa vontade dos católicos progressistas e fortalecer os reacionários que gostariam de ver a Igreja retornar às doutrinas anti-judaicas de antigamente. A esta altura, eles devem estar dizendo aos adeptos do diálogo: ‘Estão vendo só? Vocês fazem de tudo para agradar aos judeus, e eles não se contentam nunca!".

Nós que testemunhamos dentro da nossa própria comunidade tão graves conflitos entre alas ortodoxas e liberais, temos que entender as tensões internas na Igreja.

Não deve ter sido fácil para nossos irmãos católicos elaborar esta reflexão sobre a Shoah. A própria inclusão dos termos Shoah e teshuvali deve ter sido objeto de acaloradas discussões. Que tal pensarmos nisso com sensibilidade, a mesma sensibilidade que exigimos da Igreja Católica para conosco?

Sejam quais forem nossas mágoas ou frustrações em relação ao documento do Vaticano, elas certamente não invalidam nem diminuem os inúmeros elementos positivos nele contidos. O fato é que as mudanças ocorridas, desde o Segundo Concílio, na atitude da Igreja para com os judeus e o judaísmo são monumentais. Talvez em nenhuma outra área de sua vida interna a Igreja tenha alterado suas percepções religiosas tão significativamente quanto alterou nesta área.

E, embora eu compreenda a impaciência dos dirigentes judaicos que julgaram o documento "fraco’, não posso nem quero deixar de reconhecer os enormes avanços que foram feitos. Qualquer pessoa que conheça o fluxo e refluxo da história das religiões sabe que é tolo esperar que, a cada ano, ocorra uma transformação, teológica ou política, revolucionária.

Os processos eclesiásticos são lentos mesmo. A Igreja demorou 360 anos para reabilitar Galileu! O Cardeal Willebrands, ex-presidente da Comissão da Santa Fé para as Relações Religiosas com os judeus, disse com toda razão: "Levamos 2 mil anos para chegar até "Nostra Aetate" (a declaração do Concílio Vaticano II repudiando o anti-semitismo).

Não se pode esperar que tudo se resolva por um passe de mágica, em algumas décadas. Concordo plenamente com o Cardeal Willebrands: o máximo que podemos esperar são mudanças evolucionárias, não revolucionárias.

Além do mais, se quisermos julgar criteriosamente o progresso do lado católico, temos que fazê-lo em comparação ao progresso alcançado pelos judeus no que tange à nova realidade. E o ponto de referência judaica não pode ser os judeus liberais. Numa comparação honesta com a Igreja Católica, o paralelo judaico adequado é o judaísmo ortodoxo, que – assim como o catolicismo – tem que se ater aos textos sagrados e à Revelação Divina.

Eu diria que, diante da resistência da ortodoxia judaica a qualquer espécie de alteração, o progresso da Igreja Católica tem sido fenomenal. Para citar apenas um exemplo, os judeus ortodoxos até hoje recitam diariamente em suas preces matutinas uma bênção agradecendo a Deus "por não me ter feito um não-judeu" ( shelo assani goy).

Imaginem a reação dos judeus, se na liturgia cristã, houvesse um louvor a Deus "por não me ter feito um judeu!".

Sejamos honestos: o que nós, os judeus, temos feito em benefício do diálogo católico-judaico que possa se comparar à corajosa decisão do Papa João II de visitar a principal sinagoga de Roma, 12 anos atrás? Jamais na história da Igreja Católica Romana havia um Papa tomado tal iniciativa. Quem podia sonhar que um Papa falaria do púlpito de uma sinagoga, referindo-se aos judeus como seus " irmãos amados", seus "irmãos mais velhos"?

Será que os supostos porta-vozes judaicos realmente entendem a magnitude do progresso alcançado nos últimos 30 anos?

Meus amigos: é natural querermos um pedido inequívoco de perdão por parte da Igreja Católica pelos males que seus ensinamentos nos causaram ao longo dos tempos e, em especial, neste século que ora chega ao fim. Mas, enquanto não vem esse mea culpa amplo, geral e irrestrito, vamos aceitar de bom grado o arrependimento do Vaticano, ainda que limitado. E vamos acolhê-lo com um pouco mais de humildade da que vêm demonstrando alguns líderes judaicos. Humildade não é sinal de submissão. Humildade é prova de grandeza de espírito.

 

O Rabino Henry I. Sobel é Presidente do
Rabinato da Congregação Israelita Paulista)
Enviado por Leon M.Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da
B'nai B'rith do RJ

 

 

Editoração e Coordenação:
IRENE SERRA
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