DIÁLOGO CATÓLICO-JUCAICO



A culpa da cristandade para com o povo judeu (IV)

 

Batismo Forçado

Esta expressão, significando batismo escolhido como uma alternativa entre a morte ou o exílio, tornou-se uma grande questão na Espanha Medieval. Em 1391,  quando cerca de 50.000 judeus morreram em arruaças instigadas pela pregação de Ferrand Martinez, um arquidiácono de Sevilha, muitos números multiplicados por aquele foram batizados, inclusive muitos rabinos. Contudo, o batismo forçado criou um problema, pois muitos dos convertidos ainda praticavam a sua antiga fé secretamente, enquanto outros acomodavam-se por causa de vantagens pessoais; ambos os grupos eram chamados de  “marranos”, que significa:  “porco”.

Obsessão pela Pureza de Sangue

Na Espanha, o anti-semitismo, bem como a anti-marranismo, cresceram de maneira alarmante. Surgiu a noção de que o judaísmo hereditário ou  “mala sangre” (sangue mau) era o problema: um problema que nem mesmo o batismo poderia alterar. Nasceu então o racismo espanhol, a obsessão pelo sangue puro.

Da mesma forma, o racismo foi a base do Paragráfo Ariano Nazista e das Leis de Nuremberg, barrando os judeus de qualquer cargo público e negando-lhes a cidadania alemã.

A Inquisição Espanhola

Em 1480, o Rei Fernando e a rainha Isabel da Espanha, estabeleceram um tribunal para expurgar a Igreja daqueles que clandestinamente apegavam-se à sua fé judaica. Seguiram-se prisões em massa. Em 1481, as primeiras vítimas foram executadas na fogueira. No decorrer dos anos, uma estimativa de 30.000 marranos foram entregues às chamas. A Inquisição Espanhola teve uma longa história  (do século XV até o início do século XIX)  e um vasto alcance geográfico, espalhando-se com todas as suas bem documentadas atrocidades até à América Latina.

Expulsões

Os judeus têm sido expulsos de aproximadamente todos os países onde têm residido.

Em 1290 os judeus foram expulsos da Inglaterra, 16.000 partiram para a França e a Bélgica, alguns morreram durante o caminho. Houve repetidas expulsões dos judeus da França e da Alemanha.

Fernando e Isabel expulsaram todos os judeus da Espanha em 1492, de maneira a consolidarem o seu reinado cristão. Muitos dos 300.000 refugiados escaparam para Portugal. Lá, foi-lhes permitido ficar por uns poucos meses, mas com um custo. Mais tarde foram temporariamente escravizados pelo Rei João II  (1481-1495)  e então – libertos pelo seu sucessor – foram brutalmente forçados a se batizarem.

Folias

Os sofrimentos dos judeus eram freqüentemente a atração das diversões que precediam a Quaresma.

Na Roma medieval, o membro mais fraco da comunidade judaica era atirado nu num barril perfurado com longos pregos e rolado pelo morro abaixo, até morrer, enquanto seus patrícios judeus eram forçados a assistirem ao seu martírio.

Na época da Contra-Reforma, os judeus de Roma, especialmente engordados para aquela ocasião, receberam uma saraivada de lama atirada pelas turbas -  “como merecem os infiéis”- e eram forçados a correr nus pelas ruas onde estavam as diversões, debaixo do frio e da chuva gelada.

A Reforma  Martinho Lutero  (1483-1546)  originalmente favoreceu os judeus, com a esperança de que eles aceitariam a sua forma de fé, até mesmo louvando a sua contribuição para o cristianismo. Contudo, quando não conseguiu converter os judeus, a sua atitude modificou-se drasticamente.

Todo sangue aparentado com Cristo queime no inferno, e isto é o que merecem, mesmo de acordo com as suas próprias palavras, como falaram a Pilatos... Verdadeiramente, a existência desses judeus é uma coisa sem esperança, perversa, venenosa e diabólica, que durante 1400 anos tem sido e ainda é, a nossa praga, tormento e infelicidade. Eles são simplesmente demônios e nada mais.

No folheto  “Com referência aos judeus e as suas Mentiras” (Concerning the Jews and Their Lies)  (publicado em 1542), Lutero escreveu:

Em primeiro lugar, suas sinagogas deveriam ser queimadas... Em segundo lugar, as suas casas deveriam ser destruídas e arrasadas... Em terceiro lugar, deveriam ser privados de seus livros de orações e do Talmud... Em quarto lugar, seus rabinos devem ser proibidos de ensinar sob pena de serem mortos, se não obedecerem... Em quinto lugar, os privilégios de viagens e de um passaporte deveriam ser absolutamente proibidos aos judeus... Em sexto lugar, deveriam ser impedidos de fazerem agiotagem... Em sétimo lugar, que aos jovens e fortes judeus de ambos os sexos sejam dados manguais, machados, enxadas, pás, rocas e fusos e que eles ganhem o seu pão com o suor de seus rostos... Deveríamos expulsar os preguiçosos velhacos para fora de nosso sistema... Portanto, fora com eles... Para acrescentar, caros príncipes e nobres que têm judeus em seus domínios, se este meu conselho não lhes serve, encontrem então um melhor, de maneira a que vós, e todos nós, sejamos libertos desta insuportável carga diabólica – os judeus.

Num sermão pouco antes de sua morte, ele clamou pela imediata expulsão de todos os judeus da Alemanha.

Mais tarde, os ensinamentos anti-semíticos de Lutero seriam literalmente aplicados no Terceiro Reich.

Guetos

Os papas da Renascença haviam sido razoavelmente liberais em seu tratamento para com os judeus na Itália, mas, a Contra-Reforma, especialmente com o Papa Paulo IV  (1555-1559)  na liderança, trouxe uma brusca mudança de atitude. Na segunda metade do século XVI, foram introduzidos os guetos, primeiramente na Itália e depois, no Império Austríaco.

(Guetos – era o nome que se dava aos bairros de algumas cidades em que  os judeus eram obrigados a morar. Viviam ali em muita pobreza, sendo oprimidos, perseguidos e às vezes sujeitos a regime de semi-escravidão).


(continua)

 


Esta página é parte integrante da Revista Rio Total

         

Editoração e Coordenação
IRENE SERRA
irene@riototal.com.br