Ano 9 - Semana 445

 

 

08 de outubro, 2005
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Gabriela Carelli

O pecado da Ignorância

Walter Kasper - O cardeal que trabalha pela reconciliação entre judeus e católicos diz que é preciso educar para evitar a intolerância e o radicalismo.

Foto de Fabiano AccorsiO cardeal alemão Walter Kasper, de 72 anos, é uma das vozes mais influentes da Igreja Católica. Assessor de João Paulo II, foi citado como um dos possíveis candidatos a sua sucessão. Hoje, está entre os colaboradores mais próximos de Bento XVI, de quem é amigo há quarenta anos. Teólogo respeitado, ele demonstrou um estilo pastoral inovador quando era bispo na Alemanha. Foi um dos três bispos a permitir a comunhão de fiéis divorciados, em 1993. Essa prática foi interrompida no ano seguinte, a pedido do Vaticano. Desde 2001 Kasper preside o Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, um órgão ecumênico, e também a Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo, destinada a pôr fim ao cisma milenar entre o cristianismo e o judaísmo. Ele empenha-se principalmente no combate ao anti-semitismo, que ressurgiu com renovado vigor devido aos conflitos no Oriente Médio. Kasper esteve no Brasil na semana passada para participar de uma celebração inter-religiosa com a comunidade judaica. Em São Paulo, deu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – O Concílio Vaticano II inaugurou uma nova era no diálogo entre a Igreja Católica e outras religiões, em especial o judaísmo. Mas muitas feridas ainda estão abertas. Como fechá-las?
Kasper – O diálogo entre lideranças religiosas de judeus e católicos avançou muito nessas quatro décadas. Desde a publicação do documento Nostra Aetate, que absolveu os judeus da responsabilidade pela crucificação de Cristo, a Igreja Católica não tem medido esforços para demonstrar publicamente seu arrependimento pela injustiça contida naquela acusação. João Paulo II avançou muito no diálogo com os judeus e foi o primeiro papa a visitar uma sinagoga. Mas é muito difícil apagar 2.000 anos de história em tão pouco tempo, principalmente entre a população de fiéis. Não é difícil encontrar entre os católicos quem ainda acredite que os judeus assassinaram Jesus. Entre os judeus, o ressentimento em relação aos católicos ainda é grande. Acredito que a ferida ainda está aberta e há muito que fazer.

Veja – O anti-semitismo pode refluir com uma aproximação mais intensa entre o Vaticano e os judeus?
Kasper – Há dois motivos principais para que essa aproximação se consolide. O primeiro é o impacto que a reconciliação entre as duas religiões tem na paz mundial. O entendimento envolve questões humanitárias, de valores, de família, de solidariedade. Por isso, a intenção da Igreja é partir o mais breve possível para o que chamamos de cooperação prática. Não devemos manter o diálogo e a reconciliação circunscritos às considerações teóricas e aos encontros entre líderes religiosos. Devemos agir. Levantar dinheiro para crianças judias famintas na Argentina, como fizemos há pouco tempo, por exemplo. Não por elas serem judias ou católicas. Mas por serem crianças famintas. Os problemas do mundo de hoje, como o terrorismo, afetam a todos da mesma forma e temos de buscar uma solução em conjunto. Criar um clima de amizade é uma forma de inibir o ódio. O segundo motivo da necessidade desse diálogo é a busca da Igreja Católica por sua própria identidade. Não podemos mais negar nosso passado. Jesus era judeu, vivia como um judeu, rezava como um judeu. Somos complementares. Para os judeus, acredito que o apoio da Igreja Católica e a reconciliação sejam essenciais para o combate ao anti-semitismo.

Veja – Um dos maiores obstáculos para a melhora das relações entre judeus e católicos é a recusa da Igreja em permitir o acesso a todos os documentos do Vaticano sobre o papa Pio XII, acusado de se omitir diante do holocausto durante a II Guerra. A Igreja vai manter essa posição?
Kasper – É obrigação da Igreja Católica investigar tudo o que houve em seu passado. Não posso afirmar que o novo papa irá permitir o acesso a esses documentos, apenas que o Vaticano está tentando apressar o acesso a eles. Não acredito, porém, que a revelação desses documentos irá trazer grandes mudanças. Nem posso precisar que a abertura total desses arquivos irá mudar o sentimento do povo judeu em relação à Igreja Católica, para o bem ou para o mal. Há questões maiores por trás desse sentimento.

Veja – A revelação desses arquivos poderia, enfim, encerrar a discussão?
Kasper – O que consta desses arquivos são fatos, mas que passarão indubitavelmente por interpretações. É muito perigoso afirmar que Pio XII era anti-semita só pelo que está escrito. Apesar de tudo o que ocorria durante a II Guerra, as pessoas estavam a salvo em Roma. Os tempos eram totalmente diferentes. Podemos perpetuar injustiças.

Veja – O senhor acredita que as acusações contra o papa Pio XII sejam infundadas?
Kasper – Não há dúvida de que há acusações injustas. Chamá-lo de o papa de Hitler, por exemplo. Isso é sensacionalismo. Pio XII viveu um período muito conturbado. Os problemas não eram só de ordem humanitária. Havia questões políticas. Há quem defenda a tese de que ele poderia ter falado mais publicamente sobre as atrocidades nazistas e, assim, salvado mais judeus. É uma hipótese. Mas há outra, muito importante: e se ele tivesse falado mais sobre o assunto publicamente? Ele poderia, em contrapartida, ter sido vítima da vingança de Hitler. O que fazer numa situação dessas? O papa Pio XII deve ter passado por uma intensa batalha interna. Não deve ter sido fácil. Todo cuidado era pouco nesses tempos difíceis.

Veja – Esses documentos podem, de alguma forma, impedir a canonização do papa Pio XII?
Kasper – Não. A Igreja leva em conta muitos aspectos para admitir um novo santo, e não me parece que esses documentos sejam decisivos no caso da canonização de Pio XII.

Veja – João Paulo II foi o papa que mais avançou na reconciliação com os judeus. Como Bento XVI pretende continuar a busca pelo entendimento entre as duas religiões?
Kasper – O novo papa vai continuar o trabalho de João Paulo II. Bento XVI demonstrou isso recentemente ao visitar uma sinagoga na cidade alemã de Colônia. Foi um ato repleto de simbolismo: um papa alemão numa sinagoga destruída pelos nazistas na II Guerra. Não há maior prova do interesse dos católicos na continuidade da reconciliação. Joseph Ratzinger sempre foi muito próximo de João Paulo II. Era um dos principais pensadores por trás do antigo papa. Logo depois de sua eleição, falava-se nos bastidores do Vaticano que Bento XVI era abençoado, numa referência a sua amizade com João Paulo II. Recém-eleito, ele disse às pessoas a seu redor que o importante era continuar o trabalho do antecessor.

Veja – O anti-semitismo voltou a crescer no mundo. O senhor acredita que as posições da Igreja Católica ao longo da história sejam em parte responsáveis por esse crescimento?
Kasper – O anti-semitismo é uma realidade há muito tempo. Existe muito antes do cristianismo. Não podemos pôr a culpa apenas na Igreja Católica. Não temos de ficar remoendo acontecimentos. O importante é educar as novas gerações para evitar a disseminação dessa praga. A ignorância é a chave para a intolerância e para o radicalismo. Por isso mesmo a solução é educar, mostrar quem foram os judeus e contar a verdadeira história.

Veja – Quais as razões principais dessa nova onda de anti-semitismo?
Kasper – Esse novo sentimento tem uma base política. Hoje, o anti-semitismo é justificado pelo anti-sionismo. As pessoas que rejeitam o Estado de Israel e sua política usam essa posição para justificar o ódio aos judeus. Mas os elementos principais continuam os mesmos: estupidez e xenofobia.

Veja – Entre os desafios atuais da Igreja, qual o senhor destacaria?
Kasper – Há um grande desafio que preocupa a Igreja Católica: o terrorismo. Ele ofende a Deus e aos homens e tem de ser combatido.

Veja – O que a religião pode fazer para combater o terrorismo?
Kasper – A Igreja não pode interferir em termos políticos, muito menos militares, é óbvio. Mas no Oriente Médio, em especial nas áreas em conflito em Israel, a Igreja pode ser a intermediária entre judeus e muçulmanos. Temos obtido bons resultados na aproximação de membros das duas comunidades. Em relação ao Islã, apesar de a Igreja não admitir oficialmente a ligação direta do terrorismo com a religião muçulmana, o papa Bento XVI tomou uma atitude importante recentemente. Pela primeira vez, pediu a líderes islâmicos que rejeitem qualquer interpretação do Islã que inspire o terrorismo. Trata-se de uma atitude imprescindível no momento atual. Vivemos uma era em que ninguém pode se dar ao luxo da apatia.

Veja – Qual sua opinião sobre o tratamento dado às mulheres nos países muçulmanos?
Kasper – Pessoalmente, acho aquelas roupas e aqueles véus muito feios... Mas isso é uma questão pessoal. O fato é que Deus criou o homem e a mulher com suas diferenças, mas com a mesma dignidade. Temos de encarar homens e mulheres como seres complementares, detentores dos mesmos direitos.

Veja – Na Igreja Católica as mulheres não podem ser sacerdotisas. Isso não é discriminação?
Kasper – A discussão sobre o papel da mulher no catolicismo não envolve direitos humanos. É uma questão de tradição. A ordenação feminina é uma mudança há muito comentada na Igreja e há quem espere que Bento XVI adote uma nova posição a respeito do assunto. O novo papa não deu sinais de que esteja disposto a isso. Mesmo se aprovada, a ordenação feminina é algo que demorará décadas para ser aceita e implementada.

Veja – A debandada de fiéis é um dos grandes problemas da Igreja atualmente. O senhor acredita que o papado de João Paulo II, conservador em muitos aspectos, tenha contribuído para afastar os fiéis?
Kasper – Eu tenho uma visão diferente. O que pode ser avaliado como muito conservador na Igreja Católica talvez seja julgado como progressista em outras igrejas mais conservadoras, como a Igreja Ortodoxa e o islamismo. Não vejo o papado de João Paulo II como conservador. De qualquer forma, rejeito a eterna discussão conservadores versus progressistas. É simplória. A crise atual é primariamente uma crise de fé.

Veja – Há muitas críticas em relação à posição de João Paulo II quanto às chamadas questões morais, como aborto, uso de células-tronco e o divórcio. O novo papa pretende adotar novas posturas com relação a essas questões?
Kasper – O aborto é um crime contra o ser humano. A missão da Igreja não é tornar o mundo mais desumano. A missão da Igreja é oposta: humanizar. Os avanços da ciência e da modernidade são assuntos muito complexos. Alguns deles ameaçam a dignidade da vida.

Veja – Mudar de posição em relação a esses temas não serviria para evitar a perda de fiéis para outras religiões, como as evangélicas?
Kasper – Não acho coerente conquistar fiéis se, para isso, é necessário desumanizar as pessoas. Também não creio que haverá grandes mudanças neste papado em relação a esses temas. O mundo atual se transforma muito rapidamente, de uma forma frenética. Discordo de que só mudanças são capazes de manter os fiéis. Para mantermos os católicos conosco, temos de mostrar justamente o contrário: que somos uma instituição firme, sólida, que não se deixa influenciar levianamente. Precisamos mostrar que temos princípios e que os seguimos.

Veja – Mas o senhor mostrou-se bastante progressista ao permitir a comunhão para divorciados na Alemanha.
Kasper – A Igreja nunca deixa de discutir as questões morais que surgem no mundo. Os temas contemporâneos precisam ser analisados. O caso do divórcio é diferente. Não está relacionado diretamente à vida humana, como o aborto e o uso das chamadas células-tronco.

Veja – Já é possível dizer em que o pontificado de Bento XVI será diferente do de João Paulo II?
Kasper – Houve conquistas inegáveis no papado de João Paulo II, como a iniciativa do diálogo com outras religiões, a preocupação extrema com os direitos humanos e com a modernidade de uma forma geral. Bento XVI não irá abandonar a posição de seu antecessor diante dessas questões. O novo papa também não pode prescindir de usar os meios de comunicação como um instrumento de propagação da fé. As inovações de João Paulo II transformaram a Igreja Católica numa referência ainda maior para todos os povos. Nunca um funeral de um papa reuniu tantos líderes de tantos credos diferentes, pessoas de todas as idades e condições sociais. Claro que tudo isso se explica em parte pelo carisma pessoal de João Paulo II. Bento XVI é diferente, muito mais reservado. Igualar-se a João Paulo II em popularidade será, sem dúvida, um de seus desafios.

Revista Veja
Enviado por Leon Mayer

 


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