Ano 9 - Semana 448
 




 

 

29 de outubro, 2005
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Leon Mayer

 Dabru Emet
(Falar a Verdade)

Judeus e cristãos em busca de uma base religiosa comum
para contribuir para um mundo melhor



Dabru Emet surgiu como uma iniciativa de líderes judeus religiosos e acadêmicos, provenientes do Estados Unidos (maioria), Israel, Inglaterra e Canadá tendo mais ou menos 170 assinaturas, sendo quase 10% mulheres. Resultado de 5 anos de diálogo e estudo. O documento foi assinado por quatro líderes escolhidos pelo grupo, representando os quatro ramos do judaísmo atual: ortodoxo, conservador, reformado e reconstrucionista.

Com a publicação de "Dabru Emet", pela primeira vez em mais de 1.900 anos, importantes líderes do judaísmo e do cristianismo encontram-se face a face, vendo-se uns aos outros como servidores do mesmo Deus, até mesmo como membros de um povo que fez com Ele uma aliança, quaisquer que sejam as diferenças não resolvidas entre as duas comunidades de fé.

Agora temos "Uma declaração judaica sobre os cristãos e a cristandade", a mais positiva apreciação do cristianismo jamais feita por um grupo judaico. Ela afirma, inequivocamente, que os cristãos adoram o Deus de Israel e se baseiam legitimamente na Bíblia judaica - apesar de nossas contradições. A declaração confirma a ética cristã e elogia a possibilidade de uma parceria judaico-cristã, em prol da paz e da justiça.

Dabru Emet é o reconhecimento dos esforços dos cristãos para honrar o judaísmo. Um dos fatos mais significativos deste manifesto é o momento de sua divulgação: no domingo seguinte à beatificação de João XXIII e Pio IX e poucos dias após a divulgação do documento Dominus Iesus! Podemos e queremos ler este fato como um sinal da certeza que anima o coração dos signatários do documento de que o diálogo cristão judaico é irreversível.

Dabru Emet convida aos judeus a terem um novo olhar sobre o mundo cristão dizendo que talvez tenha chegado o momento, para os judeus, de refletirem sobre o que possam dizer ao cristianismo.

São 8 breves afirmações sobre o porquê e como judeus e cristãos podem relacionar-se:

1. Judeus e cristãos adoram o mesmo Deus
2. Judeus e cristãos respeitam a autoridade do mesmo livro - a Bíblia (que os judeus chamam "tanakn" e os cristãos de "antigo testamento")
3. Os cristãos podem respeitar a reivindicação do povo judeu à Terra de Israel
4. Os judeus e cristãos aceitam os princípios morais da Tora
5. O nazismo não foi um fenômeno cristão
6. A diferença humanamente irreconciliável entre judeus e cristãos não será resolvida até que Deus redima todo o mundo, conforme o prometido nas Escrituras
7. Um novo relacionamento entre judeus e cristãos não enfraquecerá a prática judaica
8. Os judeus e cristãos devem trabalhar juntos pela justiça e pela paz


Vejamos nas palavras de João XXIII no Natal de 1960 o verdadeiro significado de Dabru Emet.
"Considerando como ideal o fato de pensar, honrar e dizer a verdade e vendo no cotidiano a traição a este ideal de forma aberta ou disfarçada o coração consegue reprimir a nossa angústia.
A descoberta dos rolos do Mar Morto constituíram a confirmação de uma verdade que deveria ser reconhecida universalmente, porém isto não se limita a confirmá-la e sim lhe dá substância e claridade, e demonstra que as raízes judaicas do cristianismo, muito mais profundas do que pensava se fundem num solo fértil dum judaísmo austero, com uma fé ardente e pura como foi a do "maestro da justiça".

No livro de Jules Isaac "RAÍZES CRISTÃS DO ANTI-SEMITISMO' encontramos como, uma vez por todas, transmitir a TODOS OS CATÓLICOS E TODO CRISTÃO, o que foi decidido em 1947, como conseqüência dum colóquio Judeu-cristão realizado em Paris no qual Jules Isaac redigiu um programa de RETIFICAÇÃO de dezoito pontos, onde o ponto 4 estava assim formulado:
"Ensinar, inspirando-se nas investigações históricas verdadeiras, que o cristianismo nasceu dum judaísmo que não estava degenerado (como se tinha sempre inculcado, sino que conservava toda sua vitalidade como bem pode demonstrar a riqueza da literatura judaica, a resistência indômita do judaísmo ao paganismo, a espiritualização do culto nas sinagogas, a irradiação do proselitismo, a ampliação das crenças e a multiplicidade das seitas.

SE EVITAR A REBAIXAR O JUDAÍSMO BÍBLICO OU PÓS-BÍBLICO COM O FIM DE EXALTAR O CRISTIANISMO.

DAR UMA IMAGEM VERÍDICA DO JUDAÍSMO CONTEMPORÂNEO DE JESUS, COM SUA ATMOSFERA DE CRISES E EXPECTATIVA, os desvios mas também as riquezas, sem simplificações excessivas que a considerem uma verdadeira decadência.

QUERER EXALTAR A CRISTO OU AO CRISTIANISMO DENEGRINDO SISTEMATICAMENTE O JUDAÍSMO SERIA TÃO INDIGNO COMO INEXATO.

NO CORAÇÃO DA RELIGIÃO DE ISRAEL TEM UMA CONFIANÇA ILIMITADA NUM DEUS INFINITAMENTE MISERICORDIOSO E O PRIMEIRO PRECEITO E O DE AMAR DEUS COM TODA A ALMA.

Palavras da Embaixadora de Israel

A "Nostra Aetate" introduziu uma verdadeira revolução no trabalho dos teólogos e estudiosos Católicos. Não se podia justificar mais uma atitude negativa em relação aos Judeus e ao Judaísmo. Isso significa que quaisquer manifestações de anti-semitismo devem ser combatidos.
Esse importante documento encorajou e inspirou o diálogo para melhorar as relações entre todas as religiões. Encontros inter-religiosos no mundo inteiro, incluindo o Brasil e Israel, buscam a tolerância entre as religiões. O Papa João Paulo II fez com que a mensagem do "Nostra Aetate" avançasse mais, demonstrando essa mensagem, e permitindo que os povos se familiarizassem com as profundas mudanças nas atitudes Católicas em relação ao Judaísmo e aos Judeus. Um povo particular, antes visto como rejeitado e condenado, tem sido considerado, nas palavras do Papa, como "os queridos amados irmãos mais velhos da Igreja".

Se Cristo traz a plenitude dessa revelação insiste tanto como o Antigo Testamento nas exigências divinas e nas saudações eternas.

Deveremos homenagear esses esforços de retificação e de submissão a verdade.

Temos que fazer votos para que essas fórmulas sejam incorporadas na prática
cotidiana do ensino cristão em todas as paróquias, numa palavra em toda a cristandade.

Conforme a mensagem do Cardeal Dom Cláudio Hummes, Arcebispo de São Paulo, por ocasião do evento em São Paulo pelos 40 anos da Encíclica Nostra Aetate.

A Igreja revoga toda e qualquer discriminação ou vexame contra seres humanos por causa de raça ou cor, classe social ou religião, como algo incompatível como o Espírito de Cristo.

Assim pedimos que as autoridades competentes nas Igrejas e nas Secretarias de Educação divulguem a Encíclica Nostra Aetate e Dabru Emet para que as novas gerações possam já trabalhar para realmente um mundo melhor para todos.

De Simon Wiesenthal aprendemos que é preciso se manter alerta. Necessitamos criar mecanismos de controle da sociedade investindo na mais poderosa arma que liberta o homem de seus preconceitos. Essa arma é a educação. Toda a população mundial deve ter como norte o respeito às diferenças, sejam elas religiosas, culturais, raciais, de gênero, étnicas ou outras.

Só nos sentiremos absolutamente tranqüilos e esperançosos quando a humanidade demonstrar, na prática, que aprendeu as lições emanadas de "Nostra Aetate" e de um homem como Simon Wiesenthal.

Vou concluir com a frase do inicio da minha explanação sobre falar a verdade, Dabru Emet.

Judeus e Cristãos em busca de uma base religiosa comum para contribuir para um mundo melhor.

 


Seu artigo será bem recebido em comunidade-judaica@riototal.com.br


Direção
IRENE SERRA
irene@riototal.com.br