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Opinião Acadêmica



Opinião Acadêmica

PORTELLA E A POÉTICA DA RECONSTRUÇÃO

Leodegário Amarante de Azevedo Filho


       No livro Introdução ao estudo da nova crítica no Brasil (Rio de Janeiro, Acadêmica, 1965) e na Revista Brasileira de Língua e Literatura (Rio de Janeiro, SBLL, Ano II, n 4, 1980), já tivemos oportunidade de apreciar, até aquele momento, a evolução do processo ensaístico do escritor Eduardo Portella. De lá para cá, a gênese do seu pensamento naturalmente ganhou novas dimensões, movimentando-se em busca de novos caminhos de reflexão crítica, num percurso teórico ainda não suficientemente analisado pela crítica brasileira.

       De início, vamos partir do pressuposto de que o gênero ensaístico sempre manteve inevitáveis relações com a filosofia, justificando- se assim o seu interesse inicial pelo racio-vitalismo de Ortega y Gasset ou culturalismo espanhol, e pela estilística espanhola de Dámaso Alonso e Carlos Bousoño, enveredando, depois, pelos caminhos do new criticism anglo-americano, contagiado pelo entusiasmo do saudoso amigo Afrânio Coutinho, daí chegando à crítica de base ontológica, com fundamento em Heidegger, atraído ainda pela dialética de fundo social e pelas seduções do pensamento, por vezes contraditório, da Escola de Frankfurt.

       Em seu estágio atual, é verdade que o escritor brasileiro continua a desenvolver um ensaísmo de permanente indagação e busca, na linha remota de Montaigne (Essais, 1580), com presença de espírito, leveza e senso de humor apurados. Mas indo muito além disso, pois o seu ensaio sempre foi filosoficamente formal e não apenas informal. Dizemos ensaio formal no sentido de que se estrutura com penetrante reflexão filosófica, pensando e repensando a realidade brasileira em dois movimentos: o primeiro, negativo, de desconstrução fragmentária ou ruptura; e o segundo de reconstrução positiva, em busca de novos caminhos, quase sempre alimentados por aberturas utópicas no ato de pensar e repensar continuamente tudo. Cremos mesmo que aqui poderíamos falar numa espécie de poética fragmentária ou pulverizadora da desconstrução inicial, com a rejeição de forças que outrora até poderiam ter sido criativas ou produtivas e que hoje se mostram parasitárias ou estagnadas nas malhas rotineiras ou estáticas do marasmo institucionalizado. Daí a recusa de um tecido social, presente e em ruínas para que, sobre os fragmentos do passado inaceitável, seja possível a reconstrução de um mundo novo, num segundo movimento. Os conceitos de tempo, de ideologia e de utopia são naturalmente uma constante nesse percurso teórico. Bergson, Heidegger e Ernst Bloch estão sempre presentes, o primeiro com a valorização subjetiva da duração interior (la durée), pois o passado deixa de ser um tempo morto, quando tem forças para interferir no presente; o segundo com a noção dominante de tempo presente, o estar sendo como centro ontológico do Ser; e o terceiro com a valorização do futuro, e isso com tal intensidade, que forças utópicas passam a atuar no presente, até mesmo como mola propulsora de revoluções, reconstruções e renovações. Dentro dessa reflexão totalizante e totalizadora, aos poucos, vai percolando (do lat. percolare) a substância ideológica e a perspectiva utópica, como insinua Paul Ricoeur, em sua vasta obra teórica.

       Certamente por causa do pensamento marxista e pós- marxista, a bibliografia sobre ideologia é imensa, não ocorrendo o mesmo, pelo menos com igual intensidade, quando se trata de utopia, aqui entendida não apenas em seu sentido etimológico ou morusiano de não-lugar (u-não e topia-lugar), mas também no sentido teórico de uma estrutura realizável em dois momentos. No primeiro, há a recusa de uma realidade injusta ou perversa a ser fragmentada, pulverizada e rejeitada. Abre-se então espaço para o segundo momento, com a projeção de uma realidade futura, sem os erros e vícios do presente. Exemplo clássico disso se encontra no episódio camoniano da "Ilha dos Amores", em Os Lusíadas, como procuramos analisar no livro Camões, o desconcerto do mundo e a estética da utopia (Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1995). No citado episódio, o Poeta imortal condena, em várias e sucessivas estrofes, as injustiças, erros e desconcertos do presente, para projetar no futuro a sua concepção de uma "progênie forte e bela", que irá reformar o mundo. Forte e bela por descender da copulatio entre heróis portugueses e ninfas (figuras míticas da cultura helênica), dando origem a uma nova humanidade ou novo ciclo na história humana. A ordem econômica, social e política do mundo, conforme denuncia Camões nas estrofes de 25 a 29 do Canto IX, apresenta-se corrompida, tornando-se necessário emendar "os erros grandes que há dias nele estão", como se lê em IX, 25, 6. Portanto, são recriminados todos os corruptos que pervertem o amor, o poder e a justiça. Contrapondo-se a esse mundo corrupto e pervertido, toda a simbologia e todos os mitos da "ínsula divina" afinal configuram, nitidamente, "o desejo, o desígnio, a vontade e o advento de uma ordem nova, de um futuro radiosamente diferente", inserindo-se assim no conceito de utopia em sua versão atenuada, segundo a concepção de Karl Mannheim, bem analisada por Vítor Manuel de Aguiar e Silva, no ensaio intitulado "Imaginação e pensamento utópicos no episódio da Ilha dos Amores", publicado na Miscelânea em honra do Doutor A. J. da Costa Pimpão, segunda parte da revista Biblos, vol. LXIV, 1988, p. 82- 90, com base em excelente bibliografia, a partir mesmo, do livro de Raymond Trousson, Voyages aux pays de nulle part. Histoire littéraire de la pensée utopique. Bruxelles, Université Libre, 1979.

       Mas é do pensamento teórico do escritor Eduardo Portella que devemos tratar, desde logo observando que é sempre o outro que nos diz sermos vítimas da própria ideologia. Assim, a ideologia é negada, enquanto a utopia é afirmada, não havendo aqui paralelismo entre elas. Em segundo lugar, a ideologia é tratada em termos francamente negativos ou de desmascaramento (vamos desmascarar a ideologia dele), não ocorrendo o mesmo com a utopia, a despeito daquela conotação de ingenuidade romântica que lhe é atribuída por grupos dominantes, quando se julgam ameaçados. Para tais grupos, a utopia é ou tem que ser irrealizável dentro da própria ordem que instituíram, por ser visionária, esquecidos de que a utopia de hoje, como costuma observar o pensador brasileiro, "pode transformar-se na realidade de amanhã." Na verdade, todos nós temos inclinação para assumir certas e indispensáveis utopias, pelo menos como hipótese desejante e perfeitamente plausível. Aliás, não raro, por meio da ficção, o escritor busca a cumplicidade do leitor para a sua própria visão utópica, como se pode ver em contos e romances de Lygia Fagundes Telles, por nós analisados em outra parte. Corroborando tal posição, isso mesmo se encontra em A história das utopias, de Lewis Munford, onde se apontam duas famílias básicas: a utopia de escape e a utopia de reconstrução. No pensamento ensaístico de Eduardo Portella logo se vê que, após a ação pulverizadora ou fragmentária exercida sobre um passado ou um presente injustos, imediatamente surge, num segundo momento, uma utopia positiva ou de reconstrução, jamais de escape.

       Na verdade, a distinção entre utopia e ideologia tende a desaparecer, não apenas no pensamento teórico de Eduardo Portella, mas no próprio pensamento marxista ou pós-marxista da modernidade. Se o marxismo opõe a ideologia à práxis, naturalmente se opõe ao imaginário, de tal forma que tanto a ideologia como a utopia passam a ser irreais. Daí se conclui que se as pessoas se mostram muito ajustadas à realidade, obtendo sempre grau dez de comportamento, isso vai representar a morte das utopias, que assim deixam de ser realizáveis. Mas a utopia não se reduz ao preconceito do sonho, na medida em que, com ela, se possa fragmentar e recusar uma dada ordem ou uma topia, nascendo daí espaços para a abertura de novos caminhos de reconstrução, como se pode depreender dos últimos ensaios do pensador brasileiro, a exemplo do que escreveu como presidente da Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, intitulada "A terceira universidade". Com ela, inaugurou a Conferência Mundial sobre Educação Superior, em Paris, sob a organização da UNESCO. O importante texto foi inserido no Anuário de educação, da Editora Tempo Brasileiro (1998), superiormente organizado por Bárbara Freitag, competente professora das Universidades Livre de Berlim e de Brasília. Na citada conferência, o pensamento de Eduardo Portella não se mostra estático ou contemplativo diante da experiência negativa, pois tenta, admitindo uma tipologia tripartida da universidade, reconstruir a experiência anterior, na medida em que o próprio pensamento utópico seja capaz de fornecer uma imagem imediatamente perceptível à poética da reconstrução. Trata-se de um pensamento que desconstrói para reconstruir, aproximando-se assim da conceituação teórica de Karl Mannheim, até certo ponto discípulo de Ernst Bloch. De fato, a noção de contra-utopia permitiu a Mannheim enquadrar o conservadorismo numa espécie de utopia da decadência, que deve ser fragmentada ou pulverizada, em proveito da poética da abertura reconstrutiva. Não é verdade que as utopias têm um sentido particular no tempo histórico, como igualmente pensa Cândido Mendes, leitor assíduo de Mannheim? Assim, o sentido de tempo histórico é largamente atingido pelo declínio das utopias, deixando a história de ser um processo dinâmico. Por isso mesmo, em face dos que apregoam o fim da história (Francis Fukuyama), o pensador brasileiro proclama que estamos diante do começo da história ou de outra história, já que ela , a história, é um contínuo refazer-se. Isso mesmo está no número 136 da revista Tempo Brasileiro, dedicado aos "Caminhos do pensamento hoje: novas linguagens no limiar do terceiro milênio", onde escreve sobre "O começo da história", ao lado de Sérgio Paulo Rouanet, que discorre sobre "A ilustração e o fim da história", com muita afinidade entre os dois. Portella declara, na p. 117: "O começo da história partiria da avaliação impiedosa do nosso percurso, para identificar nela os extremados ou engessados, e divisar indícios, veredas, vestígios, caminhos provavelmente entreabertos." Mais adiante conclui: "Pensar implica renunciar ao lugar fixo." Afinal, na p. 122, observa: "O começo é sempre de interrogações. Começar é não saber." E daí facilmente se conclui que a história é um contínuo recomeçar, não tendo fim, mas sempre novos começos.

       Como pensador moderno, pensa e repensa, desconstrói e reconstrói, inventando caminhos "nunca dantes navegados" em torno de vários temas atuais, tais como: "A racionalidade aberta", na revista Tempo Brasileiro, nº 135, 98; "Querela de modernos e pós-modernos", onde discute a reconstrução do pensamento da modernidade, à luz da teoria da ação comunicativa de Jürgen Habermas, em artigo que resume a polêmica suscitada pela conferência de Peter Sloterdijk, em julho de 99, na Baviera, aí apontando os seus desencontros com Martin Heidegger e Jürgen Habermas, na revista Tempo Brasileiro, nº 138, 99. E isso entre muitos outros temas, como o da modernidade extraviada, na revista Tempo Brasileiro, nº 139, 99, ou "As impurezas da modernidade", discutindo o pensamento de Gilberto Freyre, nosso saudoso amigo comum, na revista Tempo Brasileiro, nº 140, 2000.

       Como os intelectuais nunca se encontram inteiramente de acordo com a situação existente, é natural que busquem fragmentá-la, para reconstruí-la, como nos mostra a leitura do livro O intelectual e o poder (Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1983), onde se inclui importante capítulo final sobre o "Renascimento da utopia", que assim termina: "A esperança é o caminhar da verdade. E ela nos aponta para uma urbes em construção; em instante algum na direção de uma cidade acabada. O fundamental é continuar erguendo tijolo sobre tijolo: sempre." (op. cit.p.126).

       O certo é que seria impossível imaginar uma sociedade sem metas. A renúncia à utopia significaria assim uma espécie de perda de vontade ou interesse em moldar a história, daí surgindo o desejo incontido de assassiná-la, exatamente por não compreendê-la. Uma história que, no caso, iria envolver o próprio conceito de universidade, segundo tipologia tripartida proposta na conferência já aqui indicada. A primeira universidade, na visão crítica do pensador brasileiro, teria sido a da tomada de consciência, em busca da razão pura, por isso mesmo preocupada em estabelecer certezas possíveis e até impossíveis, marginalizando a dúvida criadora, por ser a universidade autoritária do magister dixit. A segunda seria a universidade voltada para a habilitação profissional, para a carteira de trabalho, transformando-se assim em agência de emprego ou de desemprego. No caso, estamos diante da chamada "universidade cidadã, ancorada nos pulmões poluídos da cidade", para formar o novo cidadão. Mas há a terceira universidade, como há a terceira margem do rio na visão de Guimarães Rosa, em que a canoa, desgovernada pela correnteza, busca outras paragens, como buscamos novos caminhos pela utopia. Por ter o vício de pensar, a sua experiência como Ministro da Educação, que seguimos de perto, lhe daria base para verticalizar as suas reflexões em torno da tipologia tripartida que sugere, a partir mesmo da atual e já antiga crise universitária. Uma crise desejável, pois, sem ela, a universidade estaria estagnada. Não é certo que as situações de crise sempre nos levam à procura de novos caminhos, movidos pelo impulso criador da reconstrução? Portella fragmenta o conceito de universidade, não para destruí-la, mas para que ela seja reconstruída. Ele pensa e repensa, antes de avaliar, sempre em busca de sentidos extraviados e de promissores caminhos bafejados pelos ares benfazejos da utopia reconstrutiva. Superada a universidade da razão pura, a que fazia do autoritarismo e da consciência "o seu domicílio", e não seria esta "a última vez em que a razão iria patrocinar causas distorcidas", como superada está a universidade da "doença do diploma", bem cedo transformada em fábrica de emprego ou de desemprego, chega-se ao conceito de terceira universidade, que já não será "o oásis da falsa consciência", nem "o balcão de empregos duvidosos." Aqui já não se discute se a universidade fica com a consciência ou com o trabalho. O que se procura, na etapa inicial da desconstrução, é "denegar o regime de certezas até bem pouco predominante", colocando-se assim "o cidadão no cerne do sistema aberto". São, é claro, os primeiros passos da desconstrução para que a reconstrução projete, no futuro, uma universidade que possa realmente preservar "o lugar reservado ao cidadão no seio das ações educacionais. Porque o cidadão é a esperança - só ele sobreviverá aos cataclismos. E somente a educação, a escola, a tela, a universidade, conjugadamente, se acham em condições de formar cidadãos aptos." (op. cit. p.114).

       Por certo, devemos discutir e debater as suas proposições, pois elas foram apresentadas com essa finalidade. Se é função alta da universidade a formação de "cidadãos aptos", certamente ela estará voltada para a instauração do conhecimento novo, valorizando-se assim a pesquisa. Não a pesquisa que por aí anda, raquítica e centrada na "pedagogia da mesmice", consumindo, desavergonhadamente, verbas públicas que deveriam ter outro destino. Mas a verdadeira pesquisa universitária, unicamente comprometida com o saber ainda desconhecido. Uma universidade que, se já está comprometida, não deve então comprometer-se com nenhum outro valor, até mesmo por motivos éticos.

       Como se vê, é pela fragmentação histórica que a poética da reconstrução se instaura no pensamento de Eduardo Portella. Um pensamento que desconstrói para reconstruir, continuamente, a sua visão crítica da realidade brasileira. Não como algo isolado, mas como força integrante de um diálogo, verdadeiramente intercultural, colocando-se a universidade no centro das mudanças, como mola propulsora do desenvolvimento e da esperança . E se aguarda, com muito interesse, a publicação do seu novo livro, com o título de O começo da história, para que se complemente a análise aqui proposta.


Leodegário A. de Azevedo Filho
Nasceu no Recife, estado de Pernambuco, no dia 28 de janeiro de 1927. Estudou, já no Rio de Janeiro, no Internato do Colégio Pedro II e cursou a Faculdade de Letras e a Faculdade de Direito da UERJ. É Doutor em Letras pela UERJ e Professor Titular de Literatura Portuguesa da UERJ e da UFRJ. Estudou em Paris e foi Professor Visitante nas Universidades de Colônia e de Coimbra. Autor de numerosos livros, entre os quais «Anchieta, a Idade Média e o Barroco», «As Cantigas de Pero Meogo» e «O Cânone Lírico de Camões».
Prepara para a Imprensa Nacional - Casa da Moeda, de Lisboa, uma edição crítica da lírica de Camões em doze volumes.
Recebeu dois prêmios da Academia Brasileira de Letras: Sílvio Romero, de Crítica Literária, e José Veríssimo, de Ensaio e Erudição.
É membro efetivo da Academia Brasileira de Filologia, do Círculo Lingüístico do Rio de Janeiro, da Academia Carioca de Letras e da Academia Brasileira de Literatura.
Foi agraciado com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique e com a Comenda da Ordem do Mérito, ambas concedidas pelo governo de Portugal.
Em 1955, recebeu o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de obras, conferido pela Academia Brasileira de Letras.
É membro da Academia Internacional da Cultura Portuguesa, com sede em Lisboa.
Delegado Permanente do Brasil junto ao Programa Interamericano de Lingüistica e Vice-Presidente do IBECC (Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura), durante a administração do Ministro Eduardo Portella.
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