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Opinião Acadêmica



Opinião Acadêmica

LÍNGUA PORTUGUESA E EXPRESSÃO BRASILEIRA

Leodegário Amarante de Azevedo Filho


       No livro «Durante aquele estranho chá» (Rio de Janeiro, Rocco, 2002), Lygia Fagundes Telles incluiu interessante crônica intitulada "A língua portuguesa à moda brasileira". Nesse texto, refere-se a um Encontro Internacional de Escritores, ocorrido no México, onde cada autor devia ler em voz alta uma página do próprio livro para que todos ouvissem a língua dele. Ela, então, leu a página de um de seus contos, ouvindo de uma loura canadense um curioso aparte, pois lhe perguntava em que língua ela havia falado. Em seguida, a loura acrescentou que residira em Portugal por alguns anos e que estranhava muito a fala da escritora brasileira, pois "não era esse o português que conhecia." (p. 112). Depois disso, fez o elogio da pronúncia brasileira, bela e sensual, mas que não coincidia com o português europeu.

       De volta ao Brasil, num chá entre amigos, Lygia conversava com dois companheiros: Paulo Vizioli e Péricles Eugênio da Silva Ramos, contando-lhes o episódio daquele encontro no México, "quando a canadense ficou seduzida pela música do português-brasileiro, mas estranhou muito." (p. 112). Então, Péricles Eugênio sentenciou: "a língua é portuguesa mas o estilo é brasileiro." Mais tarde, numa Feira de Livro em Frankfurt, com os escritores Bárbara Freitag e Paulo Sérgio Rouanet, deste último ouviu que "a língua era portuguesa, mas ao modo brasileiro."

       Como antigo leitor e, portanto, "cúmplice" de Lygia Fagundes Telles, resolvo aqui entrar na questão, prolongando um pouco a apreciação do assunto, pois ele exemplifica bem o conceito de lusofonia, como unidade de língua e variedade de expressões.

       Com efeito, o grande empenho literário do Modernismo brasileiro, a partir mesmo da famosa Semana de Arte Moderna de 22, consistia em dar uma expressão brasileira à língua portuguesa falada na América. Tal expressão, antes romanticamente buscada por José de Alencar e seus contemporâneos, foi consolidada por autores como Mário de Andrade, aqui em termos de clara ruptura com o português europeu.

       No caso em foco, recorrendo-se ao pensamento lingüístico de Eugênio Coseriu, um dos maiores teóricos da linguagem em nossa época, preliminarmente, cumpre distinguir não apenas língua de fala (ou discurso), em termos da dicotomia proposta por Ferdinand de Saussure, mas os conceitos de língua, norma e uso. A nossa língua, enquanto sistema, é a mesma de Portugal, mas com naturais diferenças de norma e de uso. A fórmula para dizer isso é muito simples: há unidade lingüística na variedade de normas e de usos do mesmo sistema, sem que nisso haja qualquer motivo de espanto. No amplo espaço da lusofonia, a língua portuguesa apresenta-se normalmente diferenciada em sua variedade, sem perder a sua unidade. Isso se verifica não apenas quanto à pronúncia (fonologia), mas também quanto à gramática propriamente dita, entendida esta como simples conhecimento prático de uma língua em sua morfologia e sintaxe, e também quanto ao vocabulário ou léxico. Nesse sentido, já Darmesteter afirmava que uma língua pode até mudar a sua gramática e o seu vocabulário, mas, se a sua morfologia (morfemas gramaticais) permanece a mesma, a língua não mudou. Sirva de significativo exemplo o caso do romeno, com mais ou menos oitenta por cento do seu vocabulário de origem eslava, sem perder a sua estrutura mórfica de língua românica. Diante disso, forçoso será reconhecer e proclamar que a língua portuguesa, enquanto sistema, é rigorosamente a mesma no vasto espaço geolingüístico em que é falada e escrita por mais de duzentos milhões de pessoas. Isso mesmo, embora com outras palavras e em adequada fundamentação filosófica, reconhecia Mário de Andrade, na década de 30, como se pode concluir do que escreveu em seu Compêndio de história da música, em 1931: "Corrigi os excessos de brasileirismos." (p. 304). Em 1941, no artigo "O baile dos pronomes", inserido no livro O empalhador de passarinho, p. 263, onde se refere às suas "impaciências de moço" que, nos verdes anos, o induziram a admitir a possibilidade de "uma língua brasileira." Em 1935, em carta a Manuel Bandeira, chegou mesmo a revelar o seu "desejinho secreto de falar bem o português e escrevê-lo sem erro." E publicou ainda, em 1940, dois artigos importantes sobre a questão: "A língua radiofônica" e "A língua viva", ambos igualmente incluídos no precioso livro O empalhador de passarinho, onde revela clara influência das boas idéias que recebeu de Manuel Bandeira e de Sousa da Silveira. E tudo isso para não falar do artigo "Feitos em França", também introduzido em O empalhador de passarinho, onde voltou a temas ligados à língua literária, chegando a escrever o seguinte: "De toda a língua portuguesa, daqui e de além-mar, não excetuando o próprio Vieira, tenho a convicção de que foi Machado de Assis quem mais conseguiu se aproximar de uma língua culta, de um verdadeiro, útil, simples, esquecido de si, mecanismo de expressão do pensamento em prosa. Se conseguirmos qualquer espécie mais constante de unidade nacional, de Machado de Assis deverá partir, creio, a sistematização de nossa língua escrita." (op. cit. p. 36). Veja-se bem: já não fala aqui em nenhuma fantasia de "língua brasileira", mas em Machado de Assis, para concluir que "é no velho Machado que irão (refere-se aos jovens de 39, a quem censurava pelas liberdades e rebeldias lingüísticas) encontrar aquela claridade, aquela pureza, aquela elegância esquecida, aquela desestilização e a fonte legítima de uniformidade infatigável." (op. cit. 36).

       Como se sabe, Mário de Andrade colocava os pronomes átonos na frase com absoluta liberdade ou conforme a língua falada no Brasil, como hoje fazem Lygia Fagundes Telles e demais escritores contemporâneos, todos conferindo admirável expressão brasileira ao português falado no Brasil. Na verdade, a colocação de pronomes átonos na frase não é uma questão de sintaxe, como queriam as velhas gramáticas equivocadas, mas uma questão de entoação frasal e melodia fônica. Em Portugal, tais pronomes são extremamente átonos e tendem, normalmente, para uma colocação enclítica no início da frase. No Brasil, como também ocorre em língua castelhana, os pronomes átonos são, por assim dizer, semitônicos (o nosso vocalismo é tenso), colocando-se naturalmente no início de frases. Tanto num caso, como noutro, continuam como variações psonominais rigorosamente iguais, o que nos lembra a frase do velho Silva Ramos: "Eu não coloco os pronomes átonos na frase. Eles é que se colocam. E onde caem, aí ficam." Portanto, a língua, como sistema, é a mesma, lá e cá, em sua variedade expressional, pois os seus sistemas fônico e mórfico são os mesmos, embora comportando variadas realizações no ato concreto da fala. E é isso que, na crônica de Lygia Fagundes Telles, aparece com a denominação de "estilo brasileiro" ou de "modo brasileiro". Tudo isso com bastante razão, pois Lygia confere, em seus textos escritos em língua portuguesa, a doce expressão brasileira, para o encanto não apenas da loura canadense, mas de todos nós.

       Para concluir, vale a pena citar aqui uma frase do meu conterrâneo Gilberto Freyre, em Casa-grande e senzala: "A ama negra fez muitas vezes com as palavras o mesmo que com a comida"machucou-as, tirou-lhes as espinhas, os ossos, as durezas, só deixando para a boca do menino branco as sílabas moles." Poderia haver melhor explicação para a pronúncia melodiosamente vocálica do português do Brasil? Claro que não; e já Eça de Queirós usava a expressão "português com açúcar", sempre que se referia à doçura da pronúncia brasileira. E Miguel Torga aconselhava duas coisas aos portugueses que vinham ao Brasil": "pronunciar as vogais e amaciar as consoantes." Na verdade, no português do Brasil, possivelmente por influência da pronúncia de línguas africanas, ou indígenas, o nosso vocalismo é tenso, ao contrário do que se verifica em Portugal, onde o consonatismo é que é tenso. Mas a língua é, rigorosamente, a mesma, embora comportando rica variedade expressional, graças a Deus.


Leodegário A. de Azevedo Filho é Professor emérito da UERJ, Titular da UFRJ e Presidente da Academia Brasileira de Filologia
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