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Opinião Acadêmica



Opinião Acadêmica

UM ROMANCE DE COSTUMES COM SABOR DE CRÔNICA

Leodegário Amarante de Azevedo Filho


       A crônica, como gênero literário, caracteriza-se pela leveza de estilo, pelo comentário ligeiro, pelo tom poético-lírico, pela graça na análise de pessoas e fatos, pela variedade de temas e pela atualidade. Entre nós, após a trovoada modernista de 22, a crônica se desenvolveu e se consolidou a partir mesmo de um Antônio de Alcântara Machado, de um Manuel Bandeira, de um Mário de Andrade, de um Carlos Drummond de Andrade, de um Aníbal Machado, de um Genolino Amado, de um Álvaro Moreira, de um Ribeiro Couto, de um Rubem Braga, de uma Cecília Meireles, de uma Rachel de Queiroz, de um Fernando Sabino, de um Paulo Mendes Campos, de um Joel Silveira e de tantos outros. Todos praticaram com elegância - e ainda hoje alguns o fazem - o gênero da crônica, em sua flexibilidade. Há mesmo vários escritores de qualidade que ficaram em nossa historiografia literária apenas como cronistas, a exemplo do inesquecível Rubem Braga.

       Em nossos dias, a relação de cronistas brasileiros é imensa. Entre eles, situa-se o escritor Arnaldo Niskier, autor do romance Maria da Paz (Rio de Janeiro, Mondrian, 2001), com delicioso sabor de crônica e, também, de romance psicológico de costumes.

       A propósito, diga-se que o costumismo urbano ( evitamos o castelhanismo costumbrismo, de todo desnecessário ) ocupa largo espaço na narrativa ficcional brasileira. A partir de D. Mariano José de Larra ( 1809-1837 ), na Península Ibérica, teve origem o moderno romance de costumes, com descrição, crítica social e, também, como forma de narrativa própria da estética romântica em sua fase final e já antecipadora do Realismo. Na literatura portuguesa, D. Mariano José de Larra inspirou livros como as Novelas do Minho, de Camilo Castelo Branco, ou como As pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis. Tal influência Ibérica penetrou pelas mãos de Manuel Antônio de Almeida ( 1831-1861 ), filho de portugueses e autor de Memórias de um sargento de milícias, publicadas inicialmente no Correio Mercantil, ainda sem indicação de autor. Mais tarde, tal crônica de costumes ou maneiras, voltada para a pequena burguesia da época, foi impressa em livro, que se tornou um clássico entre nós. No caso, predominou a preocupação de fixar costumes, hábitos, instituições, modos de vida, tradições, superstições, clima moral, tipos, até mesmo linguagens características da época, como lembra Aderaldo Castelo em seus Aspectos do Romantismo Brasileiro ( Rio de Janeiro, MEC, s.d., p. 35 ).

       Pois bem, a leitura crítica do romance Maria da Paz, de Arnaldo Niskier, naturalmente nos induz a essas reflexões iniciais sobre a crônica, como gênero literário, e sobre a sua inclusão no terreno do costumismo. No último caso, o saudoso Afrânio Coutinho, em A literatura no Brasil, segunda edição, vol. V, p.344-402, ao tratar do «Modernismo na ficção», da p.203 à p.227, indica as duas modernas linhas de força da nossa ficção literária, na primeira metade do século XX: a regionalista de um lado, e a psicológico-costumista de outro. No que se refere ao psicologismo e ao costumismo, assunto que nos interessa aqui, Afrânio Coutinho menciona vários escritores: Cornélio Pena, Lúcio Cardoso, Octávio de Faria, Marques Rebelo, Josué Montelo, Ciro dos Anjos, Érico Veríssimo, João Alphonsus, Gilberto Amado, Jorge de Lima, Joel Silveira, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Dinah Silveira de Queirós, Aníbal Machado, Lúcia Miguel Pereira, Fernando Sabino, Oto Lara Resende, Murilo Rubião, Autran Dourado, Gustavo Corção, entre muitos e muitos outros. A linha de força psicológico-costumista está presente na obra ficcional de todos, segundo Afrânio Coutinho, a despeito da grande diversidade temática de suas obras. Em nossos dias, já agora pode-se incluir o nome de Arnaldo Niskier na extensa e diversificada relação aqui lembrada.

       Maria da Paz é um romance, sem dúvida alguma, escrito com sabor de crônica e que se insere no vasto campo da ficção psicológico-costumista. Como diz Antônio Olinto, na orelha do livro, a ficção de Arnaldo Niskier recria "a Paquetá dos séculos XX e XXI, que não é mais do tempo de Macedo, mas conserva a beleza panorâmica de antigamente." Realmente, é de ressaltar-se, no romance, no que se refere à descrição dos festejos populares, a festa de São Roque, padroeiro da Ilha de Paquetá, com lembranças históricas que nos remetem aos tempos de D. João VI e aos tempos de D. Pedro II. Eis parte da descrição: « À noite, foram para a festa, onde milhares de pessoas se reuniram na Praça de São Roque, esbarrando entre barraquinhas de comida, pescaria, tiro-ao-alvo, jogo de argolas. Na noite fria, muito calor humano. Uma festa menos santa, de menor espírito beneficente, mas ainda uma explosão de alegria para a comunidade.» (op.cit. p.168-169). E a descrição prossegue: «A capela de São Roque estava totalmente iluminada. Flores amarelas, vermelhas, brancas ornamentavam o templo onde um grande número de pedidos e promessas foram feitos, e onde, entre lágrimas, os fiéis se ajoelham curvados pela dor e pela esperança. A capela é muito pequena para tantos corações e um painel de rara beleza, a mais pura expressão da arte do pintor Pedro Bruno, retrata São Roque de corpo inteiro.» (op.cit.p.169). A transcrição demonstra, claramente, a tese de que se trata de um romance de costumes, na linha psicológica.

       O romance em foco foi escrito em homenagem à carreira de enfermagem no Brasil, inserindo-se na Coleção Anjos de Branco, dirigida e idealizada por Itacolomy Pires e coordenada pelo veterano Antônio Olinto. O ambiente é o da Ilha de Paquetá, poeticamente apresentado pelo narrador. Veja-se: «As ondas serenas murmuravam em preces histórias e lendas antigas sob os acenos, também distantes das fragatas.» (op.cit.p.9-10). As personagens nos são reveladas não apenas pelo método intrínseco ou dramático, mas também pelo extrínseco. Assim, Maria da Paz, a protagonista, era «mulata, de olhos negros, grandes e expressivos, seus lábios bem delineados, ao sorrir, exibiam dentes muito brancos e perfeitos. O corpo escultural, desde a adolescência, chamava a atenção dos homens e até das mulheres que buscavam, quem sabe, uma comparação; isso contrastava com seus gestos simples.» (op.cit.p.13). O co-protagonista é Carlos, «aquele menino tímido, de olhos verdes e cabelos castanhos.» (op.cit.p.38), filho de família tradicional e de posses, ao contrário dos pais de Maria, humildes pescadores. A mãe dele, dona Ondina, literalmente, « não desejava para esposa do seu filho a filha de um pescador.» (op.cit.p.42). Aqui, como se percebe, já se delineia o principal núcleo dramático da narrativa, centrado no amor de Carlos e Maria. Veja-se o seguinte diálogo, quando Maria entrou, pela primeira vez, como visita, na casa de Carlos:

       «-Quer tomar guaraná? perguntou-lhe a senhora, sem sorrir, indiferente ao nervosismo e à expectativa dos dois jovens.

       -Não senhora, obrigada.

       -Aproveita porque bem sei que em sua casa não costuma tomar refrigerante.

       -Mamãe prefere limonada ou laranjada , que tem vitamina C.

       -Eu sei, respondeu dona Ondina sorrindo com sarcasmo.» (op.cit.p.44).

       Como principal personagem-antagonista, a mãe de Carlos, dona Ondina, não escondia o seu preconceito de cor, vendo em Maria uma descendente de negros e escravos. A narrativa, quanto à expressão do tempo, decorre da memória, com a valorização do passado, tido como acúmulo secreto de vivências. Filosoficamente, Bergson explicaria, com o seu conceito de duração interior (la durée), o próprio fluir dessa narrativa lírica, até que se chega à separação do casal, sempre pungente. Maria se recorda de tudo, de sua memória nascem os fios narrativos, as lembranças de Carlos, a oposição sistemática de dona Ondina, que se tornava cada vez mais ostensiva, avizinhando-se assim o segundo núcleo dramático da narrativa, com a nomeação de seu Olavo, pai de Carlos, para a função de adido militar, afastando-se do Brasil, devendo o filho acompanhar os pais, por ser deles dependente e de menor idade. A distância entre os dois, aliada ao bloqueio das cartas por dona Ondina, favoreceu a triste separação, mas não o esquecimento, pois ambos, tempos depois, e após novo insucesso amoroso de Maria da Paz, se reencontram e, afinal, realizam, triunfalmente, já então com dona Ondina morta, o seu grande sonho de amor.

       O desfecho da narrativa, entretanto, muito longe de ser imediato, foi entrecortado por numerosos núcleos dramáticos: casamento, aliás mal sucedido de Maria da Paz, que se torna mãe de Pedrinho; desquite inevitável; e, bem mais adiante, retorno de Carlos, já formado em Direito. Afinal, após uma transfusão de sangue em pessoa religiosa, transfusão não autorizada pela família, Maria da Paz seria processada e teria, como advogado, o seu antigo amor: Dr. Carlos, já agora competente causídico. O processo, mais tarde, seria arquivado, por falta de amparo legal. E a narrativa se conclui em nome do amor triunfante.

       Em rápidas pinceladas, acima, procuramos indicar as peripécias da narrativa, aliás bem construídas, com múltiplos núcleos dramáticos periféricos, envolvendo o núcleo dramático central: o amor de Maria da Paz e Carlos. Por certo, o romancista soube construir, em seu romance, o verossímil, desvendando assim um mundo fictício, mas de existência possível. No caso, transparece claramente um compromisso com o humano que se projeta numa narrativa empenhada em exaltar a nobre profissão de enfermagem, atingindo assim o romance a sua finalidade maior.

       Para honrar o compromisso assumido, entretanto, a narrativa nem sempre se liberta, abrindo espaço para amplas indagações existenciais sobre a vida e sobre a morte, por exemplo, porque vida e morte estão presentes no romance. Também a visão de educador transparece em alguns pontos, onde a figura do professor se impõe ao narrador, ensinando coisas de natureza médica e coisas de direito, aliás didaticamente. Mas não há dúvida de que temos diante de nós um romance bem construído em suas linhas gerais, aguardando-se com interesse nova experiência do autor, com outro romance, que nos apresente um realismo libertado de compromissos anteriormente estabelecidos. Como primeira experiência na difícil arte do romance, muito mais complexo que a novela e que o conto, a obra é digna de aplausos, merecendo a ampla aceitação pública que teve.


Leodegário A. de Azevedo Filho é Doutor em Letras e Docente Livre pela UERJ / Professor Emérito pela UERJ / Professor Titular da Faculdade de Letras da UFRJ / Professor-visitante na Universidade de Colônia / Professor-visitante na Universidade de Coimbra / Professor-conferencista nas Universidades de Santiago de Compostela, Granada, Vigo, Cáceres e Salamanca / Prêmio Sílvio Romero de crítica literária, conferido pela A.B.L. / Prêmio José Veríssimo de ensaio e erudição, conferido pela A.B.L./ Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de obras, conferido pela A.B.L. / Prêmio Antenor Nascentes, de Filologia Portuguesa, conferido pelo P.E.N. Clube do Brasil / Medalha Anchieta conferida pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro / Medalha Luís de Camões conferida pela União Brasileira de Escritores / Comenda da Ordem do Infante D. Henrique conferida pelo Governo de Portugal / Comenda da Ordem do Mérito conferida pelo Governo de Portugal / Autor de mais de 70 livros na área de Letras, entre os quais se evidenciam: As Cantigas de Pero Meogo, edição crítica, já em terceira edição, publicada na Galiza, pela Editora Laiovento; Anchieta, a Idade Média e o Barroco; Edição crítica da Lírica de Camões, com 8 livros publicados pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda de Lisboa, Portugal; e A obra em prosa de Cecília Meireles, já com 9 volumes publicados pela Editora Nova Fronteira.
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