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Opinião Acadêmica



Opinião Acadêmica

SOBRE O ROMANCE EXISTENCIAL DE CLAIR DE MATTOS

Leodegário Amarante de Azevedo Filho


       Segundo o pensamento de Sartre, uma obra de arte literária, por vezes, pode transmitir a consciência vertical da condição humana com mais intensidade que um tratado de filosofia. Assim iniciamos esta breve apreciação sobre o último romance de Clair de Mattos, As vidas de Katherine, publicado pela Razão Cultural. São vidas que se resumem apenas numa vida em acidentado percurso existencial. Com efeito, Katherine vem, com o pai, da Polônia para o Brasil, ainda em sua primeira infância. O pai, imigrante pobre, vai confiá-la a uma dama desconhecida e aparentemente rica, no porto de Santos. Katherine está no mundo (Dasein) e a sua memória registra os fatos a partir daí. De sua vida anterior nada sabe, pois ela apenas existia, sem ser. A sua memória, repetimos, registra os fatos da sua vida em viagem ao Brasil, em que perde o irmão e a própria mãe. Ela e o pai sobrevivem; e este a entrega a Madame Isabelle, a dama que a acolheu e que a levou para casa. Aliás, um prostíbulo, onde a menina seria recebida com ternura por toda a gente. Esta seria a primeira vida de Katherine, logo seguida de outras, embora a vida fosse apenas uma, num percurso de situações humanas perfeitamente diferenciadas. Mas vai haver, a par dessa existência real, a presunção de vidas pregressas, em que ela teria sido Santusa, sacrificada na fogueira inquisitorial do século XVI.

       A narrativa tem ponto de vista interno, pois se desenvolve em primeira pessoa, exatamente a primeira pessoa que, melhor que as outras, permite mais funda reflexão sobre o ser. No início (e também no fim) há penetrante indagação sobre a morte, por ela vista, pela primeira vez, nos olhinhos miúdos de Vladmir, seu irmãozinho que chorava agarrado ao seio murcho de sua mãe. Ela, a mãe, também chorava, "fraca e impotente diante da fome que lhe feria os peitos sangrados". Ambos morrem durante a viagem, ela tossindo e cuspindo sangue rompido pela tuberculose, com "seus brônquios obstruindo a traquéia." Seu corpo seguiu o de Vladmir, os dois sepultados no mar. Em função dos traumas daí decorrentes, desde cedo, aprendeu "a reprimir o pranto, como forma de sobrevivência." Pai e filha, dois estranhos, afinal desembarcaram, "silentes e assustados no sonoro bulicio do porto de Santos."

       A segunda vida de Katherine vai transcorrer no bordel de Madame Isabelle, sua madrinha, que a trata como a filha que havia perdido. Ela é entregue aos cuidados de uma antiga escrava, Josephina, a Phina, de inteira confiança. E a narrativa prossegue, sempre em estilo romântico, próprio da época, embora com traços realistas, por força de minúcias descritivas. Aliás, Madame Bovary, do grande escritor realista Gustave Flaubert, também era romântica. Nisso não há estranheza alguma, pois é na mão dos escritores realistas que as personagens românticas sofrem.

       O tempo é o da memória, espécie de acúmulo secreto de vivências interiores. Assim, estamos diante de la durée bergsoniana, mas uma duração interior que se presentifica, pois a personagem central fez de sua vida "um eterno agora". Ela parece ter a consciência de que o ser existe para a morte, mas também sabe que é preciso viver intensamente o momento que passa. Carpe diem. Ela não faz perguntas diante da vida. Quando alguém pergunta já sabe qual é a resposta. Ela faz indagações: quem sou eu? Para onde vou? Qual a finalidade da vida? São questões ontológicas que alimentam, continuamente, uma narrativa bem construída, com pleno domínio da linguagem de ficção. Por vezes, ao longo do romance, parece que ficção e ensaio filosófico se aproximam, explicando um percurso doloroso de vida em que a existência precede a essência, pois primeiro a personagem existe para depois ser. O tempo é o estar sendo. E o absurdo da morte é que vai transformar a vida no destino do homem. Por tudo isso - e aqui não haveria espaço para uma apreciação vertical de todo o romance - estamos diante de uma narrativa de cunho existencial, mais próxima de Gabriel Marcel que de Sartre. O homem está no mundo (Dasein) e, no mundo, deve procurar respostas para suas indagações. Qualquer indagação metafísica, quando feita dentro dos limites da condição humana, pode gerar angústia. Em qualquer caso, é sempre a condição humana (e também pensamos aqui em Malraux) que se deve levar em conta. Mas, no romance de Clair de Mattos, o absoluto não está propriamente no homem, mas no conceito de destino, numa espécie de determinismo que entra em conflito com as correntes existencialistas, levando-nos ao pensamento de Sófocles (Antígona, vv. 332-333 ): "Há muitas coisas espantosas, mas nada há de mais espantoso que o próprio homem."

       Em suma, Katherine, num deslumbrante e trágico percurso de existência, vive várias vidas: ela está no mundo na viagem inicial para o Brasil, tendo aí o primeiro contacto com a morte: morre o irmãozinho Vlad e morre a própria mãe, em condições de sofrimento e dolorosa miséria; passa a viver no solar (bordel) de Madame Isabelle; a terceira vida virá com o seu ingresso, aos sete anos, no Internato Nossa Senhora do Bom Conselho, muito bem freqüentado, em Taubaté, aí participando de excelente coral escolar e revelando a sua maviosa voz ao professor Benedetto, que a ouve deslumbrado e lhe prevê magnífico futuro; a quarta vida tem início com a morte de Madame Isabelle, de quem ela vai herdar todos os bens, dando novos rumos à sua vida, pois vem para o Rio de Janeiro, onde adquire a majestosa Mansão das Acácias, centro de reuniões artísticas da alta sociedade da época. Convém observar que a escritora, aqui, conduz a narrativa com cenários, diálogos e visão do mundo do século XIX. Assim, o ambiente é o da belle époque, entrando a protagonista em contacto com altas personalidades históricas. Ela freqüenta todos os salões do Rio de Janeiro e sonha em cantar - e isso vai ocorrer - para o Imperador e toda a família imperial. Nem faltou, em tal clima romântico, efusiva declaração de amor, como a que recebeu de Francisco de Souza Costa, o Barão de Villalba: "- Fique. Por favor, fique mais um pouco, preciso abrir meu coração com você. Eu te amo, Kathe. Te amo loucamente. Como pessoa alguma conseguiu amar alguém. Diga que corresponde aos meus sentimentos. Diga." (p.63). De algum modo forçada, ela perde a virgindade, mas declara: "- Bem, Francisco, não quero magoá-lo nunca, mas não esqueça jamais...eu não o amo." (p.64). E vem a resposta, infalivelmente romântica: "- Não seja cruel, Kathe. Não repita isso nunca. Deixe que eu acredite no seu amor por mim. Apenas deixe que eu acredite. Nunca exigirei nada de você, só peço que me permita amá-la. Sei que sou capaz de amar por nós dois." (p.64). Puro romantismo...

       No que se refere à técnica de montagem de cenas, emociona o reencontro de Kathe com seu pai, após uma representação no Teatro de São Paulo. Depois disso, vem a carta de adeus, em relação a Francisco, o Barão de Villalba. Restaria apenas a amizade, declara ela, antes mesmo de sua programada viagem à Europa. Na Mansão das Acácias, reuniam-se não apenas artistas e políticos importantes, mas também grandes escritores da época, entre os quais José de Alencar, Machado de Assis e Gonçalves Dias. Fatos históricos estão presentes ao longo da narrativa, como o Tratado da Tríplice Aliança, para conter as invasões de Francisco Solano Lopez. Diante do clima então criado, Benedetto, como num conto de fadas, resolveu antecipar a viagem de Kathe à Europa. Ela cantaria em Milão, no Scalla; em Paris, na Opéra; em Londres, no Royal Theater; e, por fim, no Castelo de São Jorge, em Lisboa. Já é, portanto, outra etapa de sua vida, onde sua maviosa voz se fará ouvir nos maiores centros artísticos europeus. Carlos Gomes vai apresentá-la, em Milão, a Verdi, a Puccini e a outros. E a viagem prossegue, entre deslumbramentos românticos: Roma histórica e Veneza, com seus palácios flutuantes; em Paris, os palácios à margem do Sena, a Notre Dame, os cafés; em Londres, trava conhecimento com Mestres da literatura, como Dickens e Walter Scott, alem do pintor George Grimm. Depois, a carinhosa recepção em Lisboa, onde seus olhos vão cruzar "com os de um jovem, alto e louro, em cujo rosto sobressaíam duas pupilas verdejantes, vestidas de intenso brilho." Mas tanta felicidade duraria pouco tempo, pois o novo amor, que plenamente se ajustava à imagem do "homem de seus sonhos", o jovem Alfredo Costa, era, nada mais, nada menos, o filho de Francisco, o Barão de Villalba, em outra "ardilosa armadilha do destino." Era a força do destino, também numa concepção romântica, que destrói o livre arbítrio do homem.

       Um dia, Kathe indagou à sua companheira Juju se ela acreditava em vidas passadas, citando a doutrina espírita de Allan Kardec. Acreditava ser possível armazenar, no inconsciente, traumas de vidas anteriores. Isso explica o seguinte diálogo entre Alfredo e Katherine:

"- Sabia que nos encontraríamos um dia. Que nossos destinos foram traçados muito antes de nós mesmos. Sabia que eu apenas esperava, sem desconfiar quando ou onde meus olhos cruzariam com os seus. Sabia que nascemos um para o outro, não?"

E a resposta:

"- Sabia, Alfredo. Sempre soube."
(p.81).

       Alfredo convenceu-a a transferir-se do hotel onde estava para sua casa, um belo sobrado no Rocio, onde ela encontraria Ana, uma antiga criada da família, que não gostou de Katherine. Certa noite, ela sonhou que se via acorrentada num grande feixe de toras e palha, e Ana, a mesma Ana, a acusava de bruxaria perante o Tribunal do Santo Ofício. Ela teria sido defendida por um cônego, que era então Alfredo, tudo isso no século XVI. Mas em vão, pois fora queimada viva em praça pública, vendo Ana acusá-la de bruxaria. Assim, ela, Alfredo e Ana já haviam passado por terrível experiência, em outra vida. Afinal, depois de curioso encontro com uma cigana, que lhe assegurou ainda não ser nesta vida que terá o amor de Alfredo, partiram de Lisboa para aportar no Rio de Janeiro, onde o Barão de Villalba, pai de Alfredo, o esperava. Mais uma vez, intensificou-se o conflito humano entre as personagens, pois o Barão se opõe, radicalmente, à união do filho com Katherine. E Francisco morre, como a fala de Alfredo indica:

"- Kathe, perdi meu pai. Faleceu ontem, pela manhã, mas antes de partir contou-me tudo. Fez-me jurar que não casaria com você, e eu jurei. Acabou, Kathe. Enterro nosso amor junto com meu pai. Não a verei mais. Antes de vir até aqui, alistei-me no Corpo dos Voluntários da Pátria. Sigo para guerra dentro de poucos dias. Venho somente para dizer adeus. Por favor, me esqueça."
(p.91).

       Em seguida à partida de Alfredo para a guerra do Paraguai, Katherine entrou em profunda depressão, tornando-se devota e agarrando-se a todos os santos da Igreja Católica, implorando ajuda. Desorientada, passou a comungar, rezando terços e rosários. Seu bom conselheiro era o padre Ancelmo. Ela própria havia deixado de cantar, abandonando a carreira em que tivera tanto êxito. Em síntese, depois de promovido a capitão, por ter participado heroicamente de várias batalhas, Alfredo perderia a vida em Cerro-Corá. E ao consolo do padre Ancelmo, Katherine contesta:

"- DEUS? O senhor me fala em Deus?! O que pode saber a respeito dessa entidade perversa, que faz do destino seu joguete para punir, maltratar, transformando o inferno em vida e ameaçando as gentes com o inferno da morte? (...) Não padre, não. Odeio Deus! Odeio! Fique com suas crenças tolas, mas deixe-me com meus diabos. Agora vá. Agora vá. Não temos mais nada a dizer um ao outro"
(p.99-100).

       O estado depressivo e alucinatório de Katherine se agrava. Foi chamado o doutor Brant, especialista no tratamento de crises histéricas e problemas mentais. Mas a idéia da morte, em seu estado anormal, a atormentava muito. Chegou mesmo a romper as veias do pulso, procurando matar-se. Era acometida de alucinações várias, alcançando certas minúcias que atribuía à sua vida anterior, quando se chamava Santusa. Francisco aparece em seus sonhos como Bertholdo, senhor feudal que explorava o trabalho alheio. Eram visões que lhe atormentavam o cérebro, esclarecendo o enigma de sua vida anterior. Não sabia mais distinguir o real do irreal, em verdadeiro estado de loucura, essencialmente dramático. Mais uma vez, foi chamado o doutor Brant, que afirma ser o seu caso mais grave que uma simples esquizofrenia, fugindo de sua especialização. Foi-lhe então indicado o doutor Evandro, que havia realizado curas surpreendentes no pavilhão feminino da Santa Casa da Misericórdia. Ela lhe conta sua estória, desde o princípio até o dia da morte de Alfredo. Fala ao médico de seus pressentimentos, das suas visões e da sua vida pregressa. Está segura de que Ana, em outra vida, amou Francisco como Matilda amou Bertholdo. Ana, sempre presente, indaga se há cura para essa espécie de loucura. E a resposta do médico:

"- Dona Katherine não está louca. Apenas passa por um grande descontrole emocional. Ficará boa, sim. No momento estão proibidas as visistas, mas prestarei contas semanais a respeito do tratamento da cura. Até mais, senhora."
(p.111).

       No sanatório, "os médicos e enfermeiros lidavam com traumas, alguns violentos, e para os doentes mentais o melhor era manter sempre a mesma rotina, uma vez que qualquer alteração inadequada poderia trazer de volta crises histéricas já suplantadas." (p.113). Katherine pergunta ao médico, doutor Evandro, como definiria o seu desequilíbrio, seus acessos, suas visões e fantasias, suas alucinações, seu desejo de morrer. Seria apenas um caso patológico de mulher neurótica, seria esquizofrenia? E Santusa? Quem é Santusa? Como explicar a visão de Santusa, Matilda, Guilherme e Bertholdo, atormentando seu cérebro? Ela conta sua vida desde a primeira infância, sem ocultar nada. As sessões prosseguem e Katherine tem a explicação sobre Santusa, que não passava de uma projeção do seu inconsciente abalado pelo sentimento de culpa. Santusa era apenas um pretexto para culpar o destino, com a transferência para outra vida da sua sensação culposa. O espiritismo kardecista não era reconhecido pela medicina. Ela, apenas, havia vivido o mito de Fedra, creditando sua infelicidade a poderes metafísicos ou espirituais. Santusa era uma fantasia criada por seu inconsciente atormentado. E as sessões prosseguiram, inclusive com recurso à hipnose. Vale a pena acompanhar os diálogos entre a doente e o médico, até a sua cura. Embora a psicanálise, no século XIX, com a doutrina de Freud, estivesse em seu nascedouro, o médico demonstrava habilidade e segurança no tratamento da paciente. Ela começava a pintar quadros, já que havia decidido não mais voltar ao seu passado de cantora. Depois, com Phina, antiga escrava sempre fiel e amiga, foi morar na Gamboa, já curada, onde o médico ia visitá-la com freqüência, para afinal pedi-la em casamento. E ouve a seguinte resposta:

"-Não posso, Evandro. Nem imagina o bem que lhe quero, mas...casar... não posso. Perdoe se não correspondo aos seus anseios. Minha capacidade de amar com paixão esgotou-se na dor e na perda. Nunca mais amarei ninguém, e, você, você merece uma mulher que retribua o amor na mesma proporção. Olhe bem para mim, Evandro. Sou uma mulher restaurada, não inteira. Uma mulher que graças a você escapou do naufrágio total, mas restaram-me as seqüelas do sofrimento intenso que vivi. Sinto, sinto demais, Evandro. Tenho por você um imenso carinho fraterno, toda a ternura que um ser humano possa sentir por outro, mas paixão, meu querido, essa morreu no período da minha desventura. Não posso casar com você, nem com ninguém. Nunca."
(p.142).
Reações românticas, sempre.

       Ana Moreira, que se aproveitara do estado mental de Katherine para enganá-la, aliás criminosamente, pedindo-lhe que assinasse muitos papéis no interesse dela, papéis assinados na boa fé, exatamente Ana que havia vendido os bens de Katherine, sem esquecer a Mansão das Acácias, em seguida viajando para Portugal com imensa fortuna, em terras lusas comprando um belo palacete no Rocio, estava morta. Buscou na morte, a única saída que lhe restava, depois de perder tudo, já não dispondo sequer de meios para pagar as suas dívidas. Morte por enforcamento, segundo a notícia trazida por Phina. E ouviu, então, de Katherine:

"- Tenho medo dele, Phina. Muito medo.
- De quem, Cristo?
- De Deus. Tenho medo de Deus. Evito até pensar nele, para que não se lembre de mim. É uma força, um poder que nos faz de joguetes de seus desígnios, sem que ao menos possamos nos defender. Deu a Ana a oportunidade de roubar-me, e com isso destruiu a própria vida. Deu-me a mim beleza e talento, depois me fez órfã, infeliz e malquista pela mulher que me criou. Deu-me uma adolescência neutra, fria, sem afetos nem gostares. Depois, deu-me a riqueza que nunca pedi, glória, sucesso e um amor sem limites. Quando eu julgava que viria enfim a ser feliz, Deus, o seu Deus atirou-me no maior dos abismos, levou tudo de bom que me dera. Mais tarde, talvez arrependido, fez-me encontrar Evandro, meu tronco salva-vida, mas negou-me o direito de amar novamente. Evandro se foi. Meu prumo e minha bússola. Meu eixo e minha âncora. Também ele partiu. Deus se diverte, brinca conosco, os humanos, como se fôssemos pequenas e indefesas peças de um jogo cruel, um xadrez de horrores. Ao menos deixou-me você, minha querida, único e derradeiro bem a consolar meus dias. Por quê? Eu me pergunto por quê? Sabe, Phina, morro de medo que um dia ele também venha a tirar você de mim. Morro de medo, Phina."
(p.146).
E, adiante, Phina morre...

       Como se vê, mais ou menos coincidem os conceitos de Deus e de destino. Pouco tempo depois, Phina adoeceu gravemente, morrendo de febre tifóide. Katherine ficou sozinha no mundo, com sua tristeza, sua revolta, sua infelicidade e sua solidão. E viajou para São Paulo, hospedando-se numa pensão modestíssima, vivendo apenas da renda de dois sobradinhos que lhe restarm na Praça da Sé.

       Acima, foram indicados todos os movimentos da narrativa, com suas involuções, até chegar-se ao clímax e à preparação para o desenlace do enredo romanesco. Como desfecho final da narrativa, a protagonista ficará doente, tuberculosa, indo morar num quarto alugado por uma enfermeira, sendo este o seu último refúgio. E o romance termina como teve início, com longa reflexão sobre a morte, em monólogo pungente.

"Deus, o cruel, custa a decidir levar-me. Deixa que a morte paralisada me faça companhia nesses derradeiros momentos. Ela se esconde atrás de mim, espreitando, rondando minha miséria. Espera. A malfadada espera ainda, espera sempre."
(p.149).

Nos últimos momentos, delira e vê várias pessoas cercando seu leito de morte:

"Santusa e sua risada indecente, atrás dela, o rosto de Alfredo mesclado com o do seminarista. Ao fundo, meu pai. A seguir, Bartholdo e Francisco. Mais adiante, Ana, braços dados com Matilda. Gargalham as duas. Fecho os olhos e viro-me de lado. Ali está Phina, amparando minha mãe, o pequeno Vlad nos braços. Sinto que enlouqueço, o juízo me foge. Cubro meu rosto varado de medo, mas a mão firme de Santusa puxa as minhas cobertas. Me encolho junto à cabeceira da cama, transida de horror. Santusa me persegue, puxa as minhas pernas com força e diz:

"- Pensou que estava livre de nós? Estamos todos aqui e você seguirá conosco."

       Ela tenta gritar que não quer ir, mas sente a voz presa na garganta. Não consegue fazer um único gesto, um único movimento e sabe que chegou ao fim, vendo Santusa estendendo os dedos magros em direção aos seus olhos...

       Em síntese, aí está o romance com todos os movimentos de uma narrativa de ficção pungente e complexa. Se ficção consiste em construir mundos de existência possível, pelo menos verossímil, estamos diante de um mundo ficcional que nos remete ao século XIX, em sua face romântica, explicando-se assim o comportamento de suas principais personagens De certo modo, Katherine parece reviver o mito do vaso de Pandora, já destampado, daí surgindo a aparente felicidade desfeita por todos os males e toda a miséria que cercam a pobre condição humana. Segundo a classificação de Forster, ela é uma personagem esférica, aliás bem construída à luz do código de valores românticos. O ambiente é histórico, levando a escritora a realizar pesquisa e a colher dados em livros como Minha formação, de Joaquim Nabuco; O Brasil monárquico, de Sérgio Buarque de Holanda; Os voluntários da pátria, do general Paulo de Queiroz Duarte, entre vários outros. Com tais elementos, Clair de Mattos conferiu à sua narrativa, de cunho histórico, critérios de verossimilhança. O arranjo do material romanesco prende a atenção do leitor, sobretudo do meio da narrativa em diante, quando a vida de Katherine passou a ser brilhante como uma lágrima. E, citando Pascal, ela afinal buscou a sua identidade, ou seja, a sua verdade, gemendo...


Leodegário A. de Azevedo Filho é Professor emérito da UERJ, titular da UFRJ e Presidente da Academia Brasileira de Filologia
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