10/05/2003
Número - 314

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Opinião Acadêmica

 

Opinião Acadêmica

AS MENINAS FAZEM 30 ANOS

Leodegário Amarante de Azevedo Filho


       As meninas (1973-2003), romance de Lygia Fagundes Telles, já em 32a edição pela Rocco, fazem trinta anos. Para comemorar o feliz e tríplice aniversário, este artigo pretende desenvolver algumas considerações sobre a transposição, para o cinema, de uma obra de arte literária.

Tal empresa seria fácil?

       De início, verifica-se que as linguagens não se identificam, já que signo verbal não é rigorosamente igual à imagem, estando aqui a primeira grande dificuldade, logo seguida de outra: a estória ou enredo nem sempre é a força maior da obra, pois esta pode estar no ambiente (ambiência ficcional) ou, em casos mais complexos, na construção redonda ou esférica (a denominação é de Forster) das personagens. Além disso, a técnica de montagem das cenas, com a transcrição neutra do real, própria do cinema, se facilmente se encontra na literatura regionalista do Nordeste brasileiro da nossa ficção de 30, ou no romance neo-realista português da ficção de 40, e isso para ficarmos no âmbito de nossa língua, em ambos os casos sendo o documentário social e humano a tônica dos contos, novelas e romances, não está inteiramente presente nas grandes obras literárias da segunda metade do século passado, muito menos no início do século atual.

       As reflexões acima me ocorreram depois que assisti à adaptação, para o cinema, do extraordinário romance de Lygia Fagundes Telles. No caso, a estória de Lorena, Lia e Ana Clara, embora aí se encontre uma situação de conflito entre o ser e o meio social, as coisas não são tão simples assim. Bem certo é que o cinema pode fixar, em cenas próprias, a vida nos grandes centros urbanos, onde se configura o desajuste dos jovens em face do meio, alguns simplesmente acomodando-se por inércia ou alienação, enquanto outros lutam, não raro clandestinamente, por um ideal de reforma da sociedade, havendo ainda os que se revoltam e fogem do mundo da cultura (a fuga da cultura, segundo Spranger), mergulhando na ilusão viciosa das drogas e dos tóxicos. No caso particular do romance de Lygia Fagundes Telles, estamos diante de uma obra de ficção manifestamente voltada para a crise da adolescência, fase da vida extremamente rica em suas potencialidades e em sua perturbante travessia, pois eles já não são crianças e ainda não são adultos. A fase é de transição, no fundo imatura e marcada por um conjunto de problemas biológicos, sociais, psicológicos e existenciais. No romance em foco, os conflitos existenciais vão sobrepor-se aos demais, ainda que isso nem sempre seja percebido pelo leitor desprevenido ou ingênuo, pois a autora é, antes de tudo, uma romancista da codição humana, algumas vezes voltada para uma espécie de burguesia decadente. As suas personagens - e aqui encontra-se a grande força de sua ficção - estão quase sempre intimamente sós, ainda que acompanhadas. Cada ser é único e incognoscível, lembrando não apenas o pensamento de Sartre, mas também do dramaturgo norueguês Ibsen, no livro O inimigo do povo, onde se vê que o homem mais forte é o que mais só está . Ou então o pensamento de Leonardo da Vinci, para quem o ser humano apenas seria completamente seu, se conseguisse ficar só.

       Como se vê, o romance de Lygia nem sempre oferece imediatas facilidades para a técnica de montagem de cenas, pois não é um simples documentário social e humano. Vai muito além disso. Com efeito, numa obra de ficção em que, não raro, estão simultaneamente presentes a técnica do flash back, do encadeamento e do contraponto, a tudo sobrepondo-se a reflexão vertical em torno do ser, cujo mistério essencial ela busca com suas antenas de criação, não há apenas documentário de vidas de jovens em conflito aberto com o meio. No caso, Lia, indo ao encontro de Miguel, procura ser com alguém (mitsein), na busca de um grande amor, não ficando assim sufocada por sua rebeldia política e pelo anseio de reforma social e justiça. Ana Clara, com o seu sentimento de repulsa ao passado, recorrendo a drogas e a tóxicos, nem por isso deixa de sonhar com um futuro melhor, "o futuro-mais-que perfeito". Ao contrário disso, Lorena, caracterizada como um ser comunicativo e também comodista, não deixa de ser bastante sensível às lembranças do passado (a durée bergsoniana), mostrando-se um tanto indiferente ao presente e jamais intranqüila quanto ao futuro. Obviamente, toda essa complexidade ontológica do tempo e do ser dificilmente se deixaria transpor para as cenas de um filme, por maior competência de seu diretor, como no caso em questão..

       De um lado, está a transposição para o cinema de uma narrativa centrada na técnica da transcrição neutra do real, com montagem de cenas capazes de induzir o leitor a revoltar-se contra as injustiças e desigualdades sociais; do outro, está a tentativa de adapatação às telas cinematográficas de toda a complexidade de uma obra que, partindo de conflitos existenciais da adolescência em face do meio social, mergulha fundamente nos segredos mais íntimos do ser e na própria condição humana. Daí o grande desafio que a verdadeira obra de arte literária propõe ao cinema: decifra-me ou morre. Na verdade, o tempo exterior - simples duração de uma greve estudantil, talvez ocorrida em 1971 - não é nada diante do simultaneísmo e da intensidade do tempo interior. Se o passado romanticamente vive em Lorena, na dimensão da sua durée bergsoniana, com certa indiferença pelo presente e até pelo futuro, em Ana Clara o que se verifica é uma recusa dramática ao passado, responsável pela falência do presente, e conseqüente projeção utópica no futuro, que para ela seria o único tempo verdadeiramente existente, na linha filosófica de Ernst Bloch. Afinal, em Lia é que se configura, em sua plenitude, o verdadeiro tempo existencial, que é o estar sendo. Pouco presa ao passado, vive intensamente o presente, pois o transforma em centro ontológico do ser. Tudo isso abre, no romance de Lygia Fagundes Telles, amplo espaço para uma profunda indagação sobre o tempo humano. Não raro vítima de uma crítica puramente biográfica ou impressionista, quando não - o que é pior ainda! - de uma crítica simplesmente frasística, ou crítica da superficialidade brilhante, perfeitamente incapaz de analisar a obra de arte literária com frases de efeito duvidoso, os admiráveis contos da solidão humana e os fascinantes romances de base existencial de Lygia Fagundes Telles estão ainda à espera de outras e mais profundas escavações da crítica verdadeiramente consciente de sua função, para que se deixem revelar na sua intimidade.


Leodegário A. de Azevedo Filho é Professor emérito da UERJ, titular da UFRJ e Presidente da Academia Brasileira de Filologia
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