21/11/2008
Ano 12 - Nº 608

ARQUIVO
Opinião Acadêmica

 

Opinião Acadêmica

A EXPRESSÃO DO TEMPO NA FICÇÃO DE MACHADO DE ASSIS

Leodegário Amarante de Azevedo Filho



Machado de Assis penetrou profundamente na própria essência da condição humana, para expô-la e revelá-la em sua precariedade existencial. Daí o cunho não apenas psicológico, mas sobretudo ontológico do romance machadiano, sempre centrado na minuciosa análise do ser humano. Ele próprio, um dia, escreveu: "Eu gosto de catar o minucioso e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto." Dessa análise introspectiva do ser humano é que vai resultar a profunda verdade de suas personagens, exatamente porque "a vantagem é enxergar onde as grandes vistas não pegam." Ao contrário, portanto, de Eça de Queirós em Portugal ou de Aluísio de Azevedo no Brasil, que analisaram a sociedade em termos realistas, Machado preocupou-se sobretudo com o mais íntimo do ser humano.

Realmente, nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, a concepção de um defunto autor – que nada tem a ver com um autor defunto – confere à personagem uma visão onisciente e livre de qualquer convenção social, liberta mesmo das limitações de qualquer visão inserida na  temporalidade. Veja-se:

O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos  o território da morte; não digo que ele se não estenda e não examine e julgue; mas a nós é que pouco se nos dá do exame, nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.

Como sê vê, do ponto de vista interno da narrativa, naturalmente limitado pela temporalidade, o narrador jamais poderia ter a situação atemporal que desfruta, exatamente por ser um defunto autor e não um autor defunto, reintegrando-se assim no cronos. Ainda inovadora é a estrutura do enredo, por ser "difusa e fragmentada" e com "algumas rabugens de pessimismo."

E assim chegamos, com a rapidez de um relâmpago, pois é limitado o número de linhas de que dispomos, ao estudo da expressão do tempo em sua ficção, tomando como exemplo as Memórias Póstumas de Brás Cubas (In: Obra Completa, organizada por Afrânio Coutinho para a Editora José Aguilar, Vol. I, pp. 408-549. Rio de Janeiro: 1959. Ao todo: três volumes).

Com efeito, do ponto de vista interno da narrativa, o seu narrador jamais poderia, ter a situação que desfruta como um "autor defunto", exatamente por ser "um defunto autor". 

Tudo isso, é claro, já significa uma extraordinária revolução introduzida no foco narrativo da ficção daquela época. Ainda inovadora é a estrutura do enredo, por ser "difusa e fragmentada" e com "algumas  rabugens de pessimismo." Por aqui já podemos ver que o nosso Machado de Assis se antecipou ao próprio romance proustiano, analisando o tempo subjetivo ou psicológico, nele encarado como acúmulo secreto de vivências interiores, que se depositam e que se interpenetram e se cruzam e se amalgamam ou se integram numa espécie de duração interior, ou seja, a durée bergsoniana, antes mesmo de Bergson. Mas é evidente que Machado vai além de Bergson, sobretudo quando trata da síntese das sensações de vários episódios simultaneamente fundidos no mesmo tempo, entre eles verificando-se penetrações, cruzamentos e contigüidades que envolvem não apenas o passado bergsoniano (la durée), mas também o tempo presente de Sartre (O tempo é o estar sendo) e o tempo futuro de Ernst Bloch, para quem o futuro, agindo sobre o presente, é  o tempo que verdadeiramente existe. Portanto, o nosso Machado de Assis, em termos filosóficos, claramente se antecipou à própria concepção de tempo no pensamento de Bergson, Sartre e Ernst Bloch. A prova disso ainda se pode ver neste extraordinário trecho, aliás redigido antes de um Proust ou de uma Virgínia Wolf:

Voltemos à casinha. Não serias capaz de lá entrar hoje, curioso leitor; envelheceu, enegreceu, apodreceu e o proprietário deitou-a abaixo para substituí-la por outra, três vezes maior, mas  juro-te que muito menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre: um desvio de telhado é o infinito para as andorinhas. Vê agora a neutralidade deste globo, que nos leva, através dos espaços, como uma lancha de náufragos, que vai dar à costa: dorme hoje um casal de virtudes no mesmo espaço de chão que sofreu um casal de pecados. Amanhã pode lá dormir um eclesiástico, depois um poeta e todos abençoarão este canto de terra, que lhes deu algumas ilusões.

Insistimos em que analisamos aqui apenas trechos do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, intencionalmente sem indicação de páginas, para despertar a curiosidade do leitor e para motivá-lo a ler o romance inteiro. E aqui se vê, ainda uma vez, a reintegração do passado no presente (Bergson) ou a integração do futuro no presente (Ernst Bloch), exatamente no presente (Heidegger ou Sartre), muito antes de conhecer-se o pensamento dos filósofos aqui citados.

Relembremos ainda este surpreendente exemplo de intersecção subjetiva, já agora entre o presente e o futuro, valorizando-se ontologicamente o presente pela projeção, no futuro, do sonho de paternidade de Brás Cubas, transcrito durante o tempo exterior (o tempo dos relógios) de apenas um quarto de hora. Eis o trecho:

O melhor é que conversávamos os dois, o embrião e eu, falávamos de coisas presentes e futuras. O maroto amava-me, era um pilantra gracioso, dava-me pancadinhas na cara com as mãozinhas gordas, ou então traçava a beca de bacharel, porque ele havia de ser bacharel, e fazer um discurso na câmara dos deputados E o pai a ouvi-lo de uma tribuna, com os olhos rasos de lágrimas. De bacharel passava outra vez à escola, pequenino, lousa e livros debaixo do braço, ou então caía no berço para tornar a erguer-se homem. Em vão buscava fixar no espírito uma idade, uma atitude: esse embrião tinha a meus olhos todos os tamanhos e gestos; ele mamava, ele escrevia, ele valsava, ele era o interminável nos limites de um quarto de hora – baby e deputado, colegial e pintalegrete. Às vezes, ao pé de Virgília, esquecia-me dela e de tudo. Virgília sacudia-me, reprochava-me o silêncio; dizia que eu já não lhe queria nada. A verdade é que eu estava em diálogo com o embrião.

Como se percebe, Machado desconstrói o tempo exterior, para reorganizá-lo no tempo interior ou subjetivo, liberto de folhinhas e calendários. Tudo isso, é claro, é de todo surpreendente num autor do século XIX, época em que dominava apenas o modelo romântico – realista na ficção literária de todas as nações do mundo ocidental. Se a utopia de hoje é a realidade de amanhã, como quer Ernst Bloch, já muito antes dele o nosso Machado, num jogo de expressão temporal integrado de avanços e recuos, sempre a partir de presente, centro ontológico do ser, mas projetando-se também no futuro, como nos mostra o sonho de paternidade de Brás Cubas, para afinal dele recuar e retornar ao presente e diluir-se no passado. O embrião é menino e já é adulto, traçando a beca de bacharel e fazendo um discurso na câmara dos deputados, para depois retornar à escola e cair novamente no berço, de onde se erguerá homem. Todas as dimensões temporais do passado, do presente e do futuro aqui se cruzam e interpenetram, pois é do presente que se vai ao futuro, para dele retornar ao passado. Assim, não é possível pensar no passado como um tempo morto, que se exauriu ao realizar-se, porque este também age sobre o presente, exatamente como o futuro. Machado brinca com a expressão do tempo, como se fosse um jongleur do invisível que se torna visível. Ele próprio assim define o tempo:

...tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo: uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo. Também se pode bordar nada. Nada em cima do invisível é a mais sutil obra deste mundo, e acaso do outro.

              Ele escreveu ainda:

Imagina um relógio que só tivesse pêndulo, sem mostrador, de maneira que não se vissem as horas escritas. O pêndulo iria de um lado para o outro, mas nenhum sinal externo mostraria a marcha do tempo.

Como se vê, nesse sentido, os relógios não têm ponteiros, pois aqui não se trata de tempo exterior, mas de tempo interior, indiferente ao passar das horas, dos anos e dos séculos. E, para concluir, observe-se que, na biografia de Machado de Assis, lida à luz do pensamento de Ortega Y Gasset (eu sou eu e as minhas circunstâncias), logo se percebe que Ele enganou as próprias circunstâncias, pois tinha tudo para não ser o que foi. Ou seja, não apenas o maior romancista da literatura brasileira, mas um dos maiores romancistas da própria literatura universal.


Leodegário A. de Azevedo Filho é Professor emérito da UERJ, titular da UFRJ e Honoris Causa pela Universidade Fernando Pessoa-Porto)
leodegario@openlink.com.br