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Opinião Acadêmica
A
EXPRESSÃO DO TEMPO NA FICÇÃO DE MACHADO DE ASSIS
Leodegário Amarante de Azevedo Filho
Machado de Assis penetrou profundamente na própria essência da condição
humana, para expô-la e revelá-la em sua precariedade existencial. Daí o cunho
não apenas psicológico, mas sobretudo ontológico do romance machadiano, sempre
centrado na minuciosa análise do ser humano. Ele próprio, um dia, escreveu:
"Eu gosto de catar o minucioso e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí
entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto."
Dessa análise introspectiva do ser humano é que vai resultar a profunda
verdade de suas personagens, exatamente porque "a vantagem é enxergar onde as
grandes vistas não pegam." Ao contrário, portanto, de Eça de Queirós em
Portugal ou de Aluísio de Azevedo no Brasil, que analisaram a sociedade em
termos realistas, Machado preocupou-se sobretudo com o mais íntimo do ser
humano.
Realmente, nas Memórias
Póstumas de Brás Cubas, a concepção de um defunto autor – que nada tem a
ver com um autor defunto – confere à personagem uma visão onisciente e livre
de qualquer convenção social, liberta mesmo das limitações de qualquer visão
inserida na temporalidade. Veja-se:
O olhar da opinião, esse
olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da
morte; não digo que ele se não estenda e não examine e julgue; mas a nós é que
pouco se nos dá do exame, nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão
incomensurável como o desdém dos finados.
Como sê vê, do ponto de
vista interno da narrativa, naturalmente limitado pela temporalidade, o
narrador jamais poderia ter a situação atemporal que desfruta, exatamente por
ser um defunto autor e não um autor defunto, reintegrando-se
assim no cronos. Ainda inovadora é a estrutura do enredo, por ser "difusa e
fragmentada" e com "algumas rabugens de pessimismo."
E assim chegamos, com a
rapidez de um relâmpago, pois é limitado o número de linhas de que dispomos,
ao estudo da expressão do tempo em sua ficção, tomando como exemplo as
Memórias Póstumas de Brás Cubas (In: Obra Completa, organizada por Afrânio
Coutinho para a Editora José Aguilar, Vol. I, pp. 408-549. Rio de Janeiro:
1959. Ao todo: três volumes).
Com efeito, do ponto de
vista interno da narrativa, o seu narrador jamais poderia, ter a situação que
desfruta como um "autor defunto", exatamente por ser "um defunto autor".
Tudo isso, é claro, já
significa uma extraordinária revolução introduzida no foco narrativo da ficção
daquela época. Ainda inovadora é a estrutura do enredo, por ser "difusa e
fragmentada" e com "algumas rabugens de
pessimismo." Por aqui já podemos ver que o nosso Machado de Assis se antecipou
ao próprio romance proustiano, analisando o tempo subjetivo ou psicológico,
nele encarado como acúmulo secreto de vivências interiores, que se depositam e
que se interpenetram e se cruzam e se amalgamam ou se integram numa espécie de
duração interior, ou seja, a durée bergsoniana, antes mesmo de Bergson.
Mas é evidente que Machado vai além de Bergson, sobretudo quando trata da
síntese das sensações de vários episódios simultaneamente fundidos no mesmo
tempo, entre eles verificando-se penetrações, cruzamentos e contigüidades que
envolvem não apenas o passado bergsoniano (la durée), mas também o
tempo presente de Sartre (O tempo é o estar sendo) e o tempo futuro de
Ernst Bloch, para quem o futuro, agindo sobre o presente, é o
tempo que verdadeiramente existe. Portanto, o nosso Machado de Assis, em
termos filosóficos, claramente se antecipou à própria concepção de tempo no
pensamento de Bergson, Sartre e Ernst Bloch. A prova disso ainda se pode ver
neste extraordinário trecho, aliás redigido antes de um Proust ou de uma
Virgínia Wolf:
Voltemos à casinha. Não
serias capaz de lá entrar hoje, curioso leitor; envelheceu, enegreceu,
apodreceu e o proprietário deitou-a abaixo para substituí-la por outra, três
vezes maior, mas juro-te que muito menor que a primeira. O mundo era estreito
para Alexandre: um desvio de telhado é o infinito para as andorinhas. Vê agora
a neutralidade deste globo, que nos leva, através dos espaços, como uma lancha
de náufragos, que vai dar à costa: dorme hoje um casal de virtudes no mesmo
espaço de chão que sofreu um casal de pecados. Amanhã pode lá dormir um
eclesiástico, depois um poeta e todos abençoarão este canto de terra, que lhes
deu algumas ilusões.
Insistimos em que analisamos
aqui apenas trechos do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas,
intencionalmente sem indicação de páginas, para despertar a curiosidade do
leitor e para motivá-lo a ler o romance inteiro. E aqui se vê, ainda uma vez,
a reintegração do passado no presente (Bergson) ou a integração do futuro no
presente (Ernst Bloch), exatamente no presente (Heidegger ou Sartre), muito
antes de conhecer-se o pensamento dos filósofos aqui citados.
Relembremos ainda este
surpreendente exemplo de intersecção subjetiva, já agora entre o presente e o
futuro, valorizando-se ontologicamente o presente pela projeção, no futuro, do
sonho de paternidade de Brás Cubas, transcrito durante o tempo exterior (o
tempo dos relógios) de apenas um quarto de hora. Eis o trecho:
O melhor é que conversávamos
os dois, o embrião e eu, falávamos de coisas presentes e futuras. O maroto
amava-me, era um pilantra gracioso, dava-me pancadinhas na cara com as
mãozinhas gordas, ou então traçava a beca de bacharel, porque ele havia de ser
bacharel, e fazer um discurso na câmara dos deputados.
E o pai a ouvi-lo de uma tribuna, com os olhos rasos de lágrimas. De bacharel
passava outra vez à escola, pequenino, lousa e livros debaixo do braço, ou
então caía no berço para tornar a erguer-se homem. Em vão buscava fixar no
espírito uma idade, uma atitude: esse embrião tinha a meus olhos todos os
tamanhos e gestos; ele mamava, ele escrevia, ele valsava, ele era o
interminável nos limites de um quarto de hora – baby e deputado,
colegial e pintalegrete. Às vezes, ao pé de Virgília, esquecia-me dela e de
tudo. Virgília sacudia-me, reprochava-me o silêncio; dizia que eu já não lhe
queria nada. A verdade é que eu estava em diálogo com o embrião.
Como se percebe, Machado
desconstrói o tempo exterior, para reorganizá-lo no tempo interior ou
subjetivo, liberto de folhinhas e calendários. Tudo isso, é claro, é de todo
surpreendente num autor do século XIX, época em que dominava apenas o modelo
romântico – realista na ficção literária de todas as nações do mundo
ocidental. Se a utopia de hoje é a realidade de amanhã, como quer Ernst Bloch,
já muito antes dele o nosso Machado, num jogo de expressão temporal integrado
de avanços e recuos, sempre a partir de presente, centro ontológico do ser,
mas projetando-se também no futuro, como nos mostra o sonho de paternidade de
Brás Cubas, para afinal dele recuar e retornar ao presente e diluir-se no
passado. O embrião é menino e já é adulto, traçando a beca de bacharel e
fazendo um discurso na câmara dos deputados, para depois retornar à escola e
cair novamente no berço, de onde se erguerá homem. Todas as dimensões
temporais do passado, do presente e do futuro aqui se cruzam e interpenetram,
pois é do presente que se vai ao futuro, para dele retornar ao passado. Assim,
não é possível pensar no passado como um tempo morto, que se exauriu ao
realizar-se, porque este também age sobre o presente, exatamente como o
futuro. Machado brinca com a expressão do tempo, como se fosse um jongleur
do invisível que se torna visível. Ele próprio assim define o tempo:
...tempo é um tecido
invisível em que se pode bordar tudo: uma flor, um pássaro, uma dama, um
castelo, um túmulo. Também se pode bordar nada. Nada em cima do invisível é a
mais sutil obra deste mundo, e acaso do outro.
Ele escreveu ainda:
Imagina um relógio que só
tivesse pêndulo, sem mostrador, de maneira que não se vissem as horas
escritas. O pêndulo iria de um lado para o outro, mas nenhum sinal externo
mostraria a marcha do tempo.
Como se vê, nesse sentido,
os relógios não têm ponteiros, pois aqui não se trata de tempo exterior, mas
de tempo interior, indiferente ao passar das horas, dos anos e dos séculos. E,
para concluir, observe-se que, na biografia de Machado de Assis, lida à luz do
pensamento de Ortega Y Gasset (eu sou eu e as minhas circunstâncias),
logo se percebe que Ele enganou as próprias circunstâncias, pois tinha
tudo para não ser o que foi. Ou seja, não apenas o maior romancista da
literatura brasileira, mas um dos maiores romancistas da própria literatura
universal.
Leodegário A. de Azevedo Filho é
Professor emérito da UERJ, titular da UFRJ e
Honoris Causa pela Universidade Fernando Pessoa-Porto)
leodegario@openlink.com.br
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